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Atriz agredida por ex-diplomata diz: “Quem pode garantir a minha segurança? Tenho medo de morrer”

Cristiane Machado dorme sem saber se acordará viva. "A Lei Maria da Penha sozinha não basta. Estou sentindo na pele o medo da falta de proteção"

Publicado em 25/03/2019 | Por Heloisa Tolipan

Mesmo com o marido, ex-diplomata e empresário Sergio Schiller Thompson-Flores preso em Bangu 8, a atriz Cristiane Machado ainda tem medo. “Tenho muito medo. Quem pode garantir a minha segurança? Eu estou com uma denúncia de feminicídio, mas sem escolta policial. Não tem ninguém que me proteja. Eu tenho pânico de saber que vou encontrar ele na audiência judicial”.

Cristiane – que tem novelas como “Duas Caras” e “Negócio da China” no currículo – conheceu Sergio em março de 2017 e fizeram o casamento civil em novembro do mesmo ano. Cinco meses depois, houve a cerimônia religiosa. Foram morar juntos numa mansão do Joá, na Zona Sul do Rio. Lá, Cristiane gravou em vídeo agressões que sofreu do marido, em agosto último. “Um dia, ele me ameaçou com uma faca. A discussão e as ameaças foram gravadas”, contou.

“Emocionalmente, estou com um estresse pós traumático muito grande. Quero retomar minha carreira, mas são pouquíssimos amigos estão me estendendo a mão”, diz a atriz (Foto: Arquivo Pessoal)

Em outra ocasião, imagens gravadas por celular mostram ele quebrando a casa onde moravam com uma machadinha. Em 31 de agosto, foram registrados tapas e tentativas de enforcamento. “Ele já chegou a me deixar em cárcere privado. Não me deixava sair de casa de jeito nenhum. Uma vez, quando corri das agressões, ele foi atrás de mim jogando uma garrada de vidro. Até então, eu achava que a violência doméstica era uma coisa distante. Mas não. O homem se acha propriedade da mulher. Minha profissão era um incômodo para ele. Ele não me queria bonita, porque estava acostumado a uma mulher tapete”, diz a atriz, que inspirou a escultura feita pelo artista Vik Muniz para a abertura da novela “Passione”, de 2010.

“A defesa dele já foi ao Ministério Público do Rio de Janeiro alegar que, na realidade, eu o agredi. Eu, então, mostrei novas imagens dele me batendo. Ele disse, acredite, que o arranhei. Mas nem unha tenho (mostra as unhas curtíssimas). Os advogados agora querem que eu saia de casa e não leve nada. E estão há quatro meses tentando um pedido de habeas corpus. O MP pediu arquivamento dessa denúncia dele, mas a minha não tem nem audiência marcada”, conta.

Enquanto isso, Cristiane dorme sempre sob estresse. “A Lei Maria da Penha sozinha não basta. Estou sentindo na pele o medo da falta de proteção. Estou lidando com um homem poderoso. Existe uma lentidão muito grande no sistema, uma vez que até agora ele continua no papel como meu marido e minha audiência nem data tem. Isso é um absurdo”, reclama.

O episódio fez a atriz perceber, de uma vez por todas, que “violência doméstica não tem classe social, nem raça”. “Emocionalmente, estou com um estresse pós traumático muito grande. Quero retomar minha carreira, mas são pouquíssimos amigos estão me estendendo a mão nesse momento. É fruto do passado com ele: que falava mal da minha família e dizia que nenhuma amiga minha prestava”.

Cristiane Machado atuou em várias novelas da TV Globo e inspirou a escultura feita pelo artista Vik Muniz para a abertura da novela “Passione” (Foto: Arquivo Pessoal)

“A gente tem uma falsa ideia do que é ser mulher e o que é ser homem. Precisamos de um discurso que diga que isso é um crime! Nós tínhamos um caseiro dentro de casa que escutou muitas vezes meus gritos, e nada fez, com medo de se intrometer. Em briga de marido e mulher se mete a colher, sim! Gente, ligue anonimamente, conte que está ouvindo uma mulher gritando. A sociedade ainda está omissa quando o assunto é violência contra a mulher. E precisamos de mais celeridade. A Lei Maria da Penha precisa andar junto com a parte cível”, concluiu ela, que, agora, vai escrever um livro contando seu drama e com depoimentos de mulheres que passam pela mesma beira da morte nas mãos de agressores.

 

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