Gente & Comportamento

“As pessoas têm medo do que não conhecem”, dispara Alexandra Gurgel, do canal Alexandrismos, sobre o preconceito

Em entrevista para o site HT, a jornalista, escritora e youtuber fala sobre a necessidade de debater pautas sociais e o motivo de amar o próprio corpo ser um ato revolucionário

Publicado em 20/02/2019 | Por Iron Ferreira

Em 2015, quando Alexandra Gurgel estreou no Youtube, no famoso Alexandrismos, ela não imaginava a proporção que a ideia tomaria com o passar do tempo. Quatro anos depois, a jornalista, formada pela PUC RJ, acumula mais de 400 mil seguidores no seu canal e mais de 300 mil nas redes sociais. Falando sobre aceitação corporal, preconceitos, feminismo e diversos outros assuntos que permeiam a sua vida e personalidade, a carioca de 29 anos criou uma legião de fãs e se tornou símbolo de uma revolução cultural.

A insatisfação com o próprio corpo sempre fez parte da sua rotina. Já se submeteu a inúmeras dietas e diversos procedimentos estéticos para se encaixar dentro de um padrão. A gordofobia e os comentários maldosos acabaram se transformando em inspiração para a criação de um conteúdo voltado para essas questões: “No início, a ideia era ter uma plataforma de comunicação para falar com outras pessoas sobre assuntos diversos e engraçados. Quando me deparei com a quantidade de piadas que eram feitas com pessoas gordas e os estereótipos causados por preconceitos, comecei a refletir de forma mais crítica e me encontrar no assunto”.

Corpo livre é o lema de Alexandra Gurgel. Segundo ela, estar em paz com a sua forma e a saúde é essencial para uma vida feliz. (Foto: Instagram)

A rejeição pode impactar de forma muito negativa na vida de qualquer indivíduo. Crescer fora de um padrão imposto pela sociedade cria na cabeça das pessoas a constante ideia de fracasso: “Sem gordofobia talvez eu tivesse crescido um pouco menos sozinha, triste e insatisfeita com meu corpo”.

Uma pesquisa divulgada em 2015 pela revista Adolescência e Saúde mostrou que 80,3% dos jovens estão insatisfeitos com seus corpos. Esses dados alertam para os riscos de desenvolvimento de transtornos alimentares e de imagem. Ela atribui esse descontentamento ao capitalismo e a incessante pressão para estar sempre em perfeito estado: “A pressão social em sempre atender a um padrão de beleza é cruel. Nós somos criados para estarmos insaciados. Nosso inconformismo é motor de compra, gera lucro e sustenta indústrias. Isso é sinal de que o mercado está trabalhando direitinho para sustentar o seu poder sobre a população. Nossa insatisfação nada mais é do que o combustível”.

Apesar de combater o ideal de padrão, a youtuber afirma não ser contra pessoas magras ou que gostem de cuidar da sua forma física. Sua luta é motivada pela desconstrução do conceito de que ser gordo é feio. O processo de aceitação pelo qual passou foi difícil e demorado, mas trouxe resultados positivos: “Você se conhece quando respeita e entende a história do seu corpo. Quando a gente se olha com carinho e valoriza a nossa história, tendemos a ser mais gentis com o espelho. Observar a evolução do outro faz parte da nossa própria evolução. Eu posto foto, escrevo, gravo vídeo porque acredito que quanto mais exemplos forem dados, teremos mais inspiração e força para mudarmos a nossa vida”.

Foi buscando motivar a transformação na sociedade que Alexandra lançou, em 2018, seu primeiro livro. O título “Pare de Se Odiar: porque amar o próprio corpo é um ato revolucionário” é bem direto e tem como objetivo principal suscitar a reflexão. Porém, o processo de construção foi difícil: “Durante muitos dias eu fiquei com o livro pronto na minha cabeça e com um bloqueio enorme para dar o pontapé inicial. Revisitar a minha história, minha adolescência foi um processo muito difícil e dolorido pelo qual eu não esperava passar. Eu chamei para me ajudar na pesquisa a minha amiga, hoje minha roteirista, Jéssica Quadros. Estar com ela durante os 40 dias de processo de criação foi essencial”.

Lançado em 2018, o objetivo do livro é promover o amor próprio e a saúde mental (Foto: Divulgação/Grupo Editorial Record)

Além da publicação, a jornalista liderou outra iniciativa ligada ao Body Positive, movimento de libertação e celebração do corpo. Junto com seus amigos Bernardo Boëchat, Caio Cal, Ricardo Lima e Juliana Rangel, foi criada a festa Toda Grandona, um evento onde todo o tipo de preconceito e intolerância fica do lado de fora. É um espaço destinado à comemoração da diversidade: “A Toda Grandona, desde a primeira festa, se mostrou totalmente necessária. A gente só entendeu vivendo. Ouvimos pessoas falarem que era a primeira vez que iam a uma balada, a primeira vez que estavam sendo fotografadas, a primeira vez que se sentiam sexy e desejadas, a primeira vez que dançaram sem se preocupar com os demais. É um ambiente seguro, onde elas podem ser totalmente felizes e livres, sem julgamentos. Temos pessoas de todos os movimentos unidas em prol da liberdade corporal”.

Mesmo depois de tanto tempo, ainda há muito a ser feito: “Caminhei bastante, mas ainda tem muito chão pela frente. Precisamos ver mais mulheres, mulheres gordas, mulheres gordas e negras, ocupando espaços e sendo respeitas como profissionais e seres humanos. É enriquecedor demais ter tanta importância na vida de milhares de pessoas e isso me motiva a nunca parar de lutar”. Quando questionada sobre os ataques de ódio que recebe, a escritora desabafa: “As pessoas têm medo do que não conhecem, geram ódio por conta de narrativas erradas e permanecem ignorantes por falta de diálogo. Estamos unidos para proteger nossos direitos já adquiridos e lutar para assegurar os demais”.

O Alexandrismos posta vídeos novos todas as terças, quintas e domingos às 12h.

A iniciativa Body Positive busca incentivar o respeito e desconstruir o mito de que o corpo gordo é feio  (Foto: Instagram)

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