Antes machista, frase ‘ser gostosa’ agora é empoderadora: Paolla Oliveira, Luana Piovani e mais artistas avaliam mudança


“Ser gostosa” tornou-se um conceito redefinido pelas próprias mulheres. Antes ligado ao olhar masculino e à objetificação de corpos curvilíneos, o termo agora simboliza autoaceitação, liberdade e empoderamento. Ícones da beleza brasileira, Paolla Oliveira, Luana Piovani, Sheron Menezzes e Fernanda Abreu discutem a nova abordagem em torno da expressão e sua ressignificação

Paolla Oliveira, Luana Piovani, Fernanda Abreu e Sheron Menezzes refletem sobre "ser gostosa" (Reprodução/Instagram)

*por Luísa Giraldo

“Ser gostosa” é, hoje, um conceito definido pelas próprias mulheres. A ressignificação do termo, historicamente associado ao olhar masculino sobre o corpo feminino – com ênfase em curvas voluptuosas, coxas grossas e seios grandes –, representa uma ação de empoderamento e de independência da autoestima. Elas assumiram a expressão, porém criaram inúmeros novos significados. Nas redes sociais, já não há mais espaço para o antigo significado de “ser gostosa”, regido pela lógica de objetificação do corpo feminino. Em meio a memes como “gostosas também sofrem” e “muito difícil ser uma grande gostosa”, criados e compartilhados por mulheres, o termo passou a refletir um senso de autoaceitação e liberdade corporal. 

Uma pesquisa do instituto Data Popular lá em 2015, investigou o desconforto feminino perante o assédio verbal nas ruas. O resultado não poderia ser diferente: 89% das mulheres participantes se sentiam insultadas quando chamadas de “gostosas” por desconhecidos. Atualmente, o assunto pauta discussões sobre a liberdade de comportamento e de “ir e vir” dos gêneros.

Consideradas brasileiras irresistíveis, Paolla Oliveira, Luana Piovani, Sheron Menezzes e Fernanda Abreu refletem sobre a ressignificação da expressão “ser gostosa”.

‘Gostosas’ com orgulho

Aos 43 anos, Paolla Oliveira é unanimidade: das quadras do Carnaval às atuações arrebatadoras, a estrela continua irresistível. Atualmente, a atriz está brilhando como Heleninha Roitman, icônica personagem alcoolista, no remake de “Vale Tudo”, da TV Globo. Ao colocar intensa carga dramática e a abordar o alcoolismo como doença, ela imprimiu sua autoralidade sem comparações com Renata Sorrah, que deu vida à pintora na versão original da novela.

Durante décadas, Paolla sofreu com a pressão estética – justamente porque não se encaixava no ideal da magreza. Curvilínea e exuberante, a artista revela ter ressignificado o termo como forma de fazer às pazes com o próprio corpo.

“Ser gostosa” pode ser tanta coisa. A frase já foi usada com tanto ar pejorativo (sempre na boca dos outros). Muito provavelmente, “Ser gostosa” era um olhar masculino ou desse mundo que olhou a mulher, por tanto tempo, como uma “coisa”. Agora, a gente pode falar:  “sou gostosa sim”. Sempre escondi isso em mim. Sempre escondi as minhas curvas e formas – Paola Oliveira

Paolla Oliveira abre o jogo sobre ser gostosa e relata ter vencido o ímpeto de esconder seu corpo (Divulgação)

Radiante, a atriz identifica uma postura feminina de desprendimento e de liberdade para reconhecer as próprias virtudes. “Várias mulheres se escondem por N motivos. É bom esse poder estar na nossa boca. Não tem a ver apenas com o corpo. Tem a ver com o que a gente acha gostoso e delicioso na gente, mas também está relacionado com a energia, postura, em como a gente se coloca para as pessoas, o quanto a gente se encontra com o outro e o quanto a gente faz essa vida ser deliciosa”, reconhece.

Com cachos esvoaçantes e confiança de sobra, a atriz Sheron Menezzes, 41 anos, não tem medo de afirmar que é gostosa, um adjetivo que capta a essência feminina e não se limita apenas ao visual corporal. Considerada uma das mulheres mais lindas do Brasil, ela relaciona a mudança do termo à autoestima feminina.

“Ser gostosa” é como um estado de espírito. Quando você se sente maravilhosa dentro da sua pele, [percebe] como é linda e gostosa. Não há quem não ache isso também – Sheron Menezzes

Sheron Menezzes brilhou em “Vai na fé” ao emprestar autoconfiança para sua personagem, Sol (Foto: Divulgação/TV Globo)

O último trabalho da atriz foi “Vai na Fé” (2023), novela da TV Globo, onde encantou o público com a doce Sol, uma mulher batalhadora e evangélica que sonhava em ser cantora. Aos poucos, a personalidade segura de si de Sheron deu as caras no papel.

Luana Piovani, aos 48, também é gostosa de carteirinha. Atualmente em Portugal, a paulista é chamada de “loba” pelos fãs – assim como Shakira, que propôs uma postura “felina” e de sensualidade latina – devido à sensualidade e à autoconfiança adquirida pela maturidade. A atriz embarca na força das palavras de Sharon para definir “o estado espírito ‘gostosa de ser’”.

O “gostosa” do masculino diz muito sobre o tamanho da bunda e do peito. O “nosso gostosa” é um estado de espírito. A gente também gosta do nosso peito e da nossa bunda, mas há outras coisas no pacote. Transcende o corpo. É uma sensação de liberdade, de saber o seu valor. [É] estar desejosa e apetitosa. Estou olhando para você nessa vibe e vendo como é sedutora – Luana Piovani

A estrela compartilha a “receita” da gostosura feminina: “Uma mulher gostosa deve saber o valor que tem para poder se sentir gostosa. Ninguém se sente gostosa se não tiver autoconfiança e amor próprio. É isso que nos faz olhar para a mulher: vê-la rir, dar gargalhadas para trás sem ter medo, [ver que] é uma mulher livre e defende os princípios dela com genuinidade. Faz toda a diferença”, completa Luana.

Luana Piovani ressalta “energia de gostosa” e dispensa o corpo para ter “gostosura” (Foto: Renan Cristofoletti)

Mãe de três filhos do casamento com o surfista Pedro Scooby, a atriz é autora de declarações e postagens nas redes, muitas vezes consideradas ousadas e polêmicas para alguns. Luana é conhecida por expor opiniões fortes sobre diversos temas, incluindo política, futebol, relacionamentos e cultura.

Dona de uma voz potente, a artista Fernanda Abreu é firme nas opiniões sobre o novo significado de “ser gostosa”. A cantora de 63 anos nunca teve papas na língua para discutir sexo, autoestima feminina e empoderamento – mesmo no início da carreira, quando era uma das vocalistas da icônica banda Blitz. Contemporânea dos trabalhos de Labelle e de Madonna, a carioca lançou o primeiro álbum solo, “SLA Radical Dance Disco Club”, em 1990.

Nesta mesma década que consagrou o quadro de sucesso “Banheira do Gugu”, no“Domingo Legal”, na SBT. No programa, as equipes masculina, compostas por artistas populares da época, e feminina, com as “musas”, competiam em uma banheira. O objetivo de um time era pegar o sabonete, enquanto o outro tentava impedir. Foi considerado excessivamente sexualizado para a faixa horária – era exibido às tardes de domingo. 

“Na época, as pessoas ligavam o ‘gostosa’ a algo mais vulgar, sempre muito relacionado ao sexo. Mas, agora não é necessariamente. Uma mulher gostosa é sensual, mas é inteligente, elegante, tem estilo, independência, é espontânea, é natural. E ela também sabe o que quer. Essa é uma coisa que atrai as pessoas”, observa ela, que é considerada pioneira do pop dançante brasileiro.

Fernanda Abreu exalta a gostosura da mulher carioca, presente na postura e nos atos (Foto: Divulgação/Murilo Alvesso)

Tem sempre o lado da gostosura, o borogodó e o charme. A mulher gostosa tem que ter um charme. Uma mulher meio insossa, por mais que tenha aquele peitão ou bundão, perde a gostosura. A gostosura tem aquele lado da delícia. A mulher carioca é muito assim: tem esse lado de saber o que quer e ter independência. Tem a ver com agir como gostosa, encarnar o personagem de uma maneira bacana e sem ser vulgar – Fernanda Abreu