Alexandro Gruber discute saúde mental da geração Z e expõe lógica das migalhas de afeto nas redes sociais


O filósofo e escritor Alexandro Gruber se destaca nas redes ao abordar saúde mental com responsabilidade, reunindo mais de 500 mil seguidores. Ele usa o ambiente digital como porta de entrada para reflexões e autoconhecimento, sem substituir a profundidade dos livros. Aponta que a pandemia deixou impactos emocionais duradouros e intensificou quadros de ansiedade. Critica a lógica das curtidas como medida de afeto e validação. Para Alexandro, o equilíbrio passa pelo autoconhecimento, vínculos reais e ampliação do acesso ao cuidado psicológico

*por Vítor Antunes

Há caminhos muito tortuosos na internet — especialmente quando o assunto é saúde mental. Antes mesmo da pandemia, já se acumulavam perfis de “especialistas” sem formação, oferecendo respostas fáceis para questões complexas. Nesse terreno instável, a palavra — quando tratada com responsabilidade — ganha outro peso. Foi por aí que um filósofo e escritor decidiu entrar. Apostou nas redes e reuniu mais de 500 mil seguidores, entre eles algumas figuras conhecidas, como Rafa Kaliman e Eliana. Ali, publica cápsulas de autoconhecimento e reflexões breves, enquanto mantém uma produção constante de livros, como Revolução Existencial, Cartas de Despedida para os meus Ex-amores e Tudo o que seu coração precisa te falar.

Para ele, ocupar esse espaço é parte do trabalho: “Eu sempre entendi a internet e a tecnologia como um espaço onde buscamos aquilo que nos alimenta de alguma maneira. A tecnologia é uma faca de dois gumes: pode levar a conteúdos que exaurem ou a conteúdos que fortalecem. Resolvi ajudar a fazer com que as pessoas tivessem um uso mais proveitoso do tempo nas redes. Eu já escrevia livros, mas percebia que muita gente passava horas diante das telas sem qualquer filtro. A ideia foi oferecer conteúdos diários que funcionem como algo rápido, mas não superficial. A rede social não é terapia. Não resolve o problema de ninguém, mas pode provocar insight, apontar caminhos, ampliar a consciência”. Se as redes funcionam como porta de entrada, o aprofundamento vem pelos livros. “O trabalho com o livro é mais profundo. Há um percurso mais claro, mais estruturado. A rede pode despertar, direcionar, mas o livro permite um mergulho maior, com mais camadas de compreensão”.

Sobre terapia, ele observa uma mudança recente: “Já quebramos muitos preconceitos em relação ao cuidado com a saúde mental. Mas ainda há um olhar raso. É preciso entender o impacto disso na vida em sociedade — entre jovens, crianças, idosos — e pensar em como esse cuidado pode chegar a espaços públicos, às escolas, às áreas mais vulneráveis. Hoje se reconhece a importância, mas ainda faltam passos concretos. Nem todo mundo pode pagar por uma sessão semanal. É preciso discutir formas práticas de ampliar esse acesso”.

Esse momento atual da sociedade é um momento de muita pressa, especialmente entre os mais jovens – Alexandro Gruber

Alexandro Gruber: A pandemia ainda tem reflexos na saúde mental (Foto: Rosilene Presznhuk)

A PANDEMIA ACABOU?

Para o filósofo, ainda que a pandemia tenha ficado para trás no plano concreto, seus efeitos persistem. “A pandemia foi um grande divisor de águas emocional. Em termos de civilização, não enfrentávamos, na modernidade, algo tão inusitado que desafiasse de forma tão coletiva o nosso emocional. Tivemos que nos redefinir como seres humanos, rever modos de vida. O evento passou do ponto de vista físico — houve a retomada do contato —, mas, na memória emocional, muita coisa permaneceu. Esse registro pode ser entendido como trauma, como dor: a situação passa, mas o impacto fica. Ainda vivemos um período de adaptação, de reconexão que não é apenas física, mas emocional. Estamos reaprendendo a viver e a cuidar do nosso mundo interior.”

Há uma tentativa de ter um equilíbrio entre voltar para a vida, para aquela mesma rotina, para aquele mesmo ritmo. Mas como voltar para a vida e me manter bem emocionalmente com esses desafios que a gente enfrenta diariamente, com essa a nova rotina, com a tecnologia cada vez mais inserida, com muito avanço e com a inteligência artificial? Seis anos depois, os impactos da pandemia ainda estão vivos em diversas esferas, principalmente emocionais – Alexandro Gruber

Alexandro Gruber: Os mais jovens são suscetíveis em razão das redes sociais (Foto: Francielle Misturini)

MIGALHAS DE AFETO

Um traço da geração atual é medir popularidade por curtidas, como se elas traduzissem afeto. Há quem chame isso de “migalha de afeto”. O filósofo relativiza: “A busca por validação e aceitação é antiga. Desde o mundo primitivo, precisamos do grupo para sobreviver. Com as redes, isso foi distorcido. Passamos a acreditar que precisamos do like do outro para nos sentirmos amados e aceitos — e passamos a desejar validação de pessoas que nem conhecemos”.

O afeto de verdade não mora na aprovação externa de alguém que não conhecemos, nem nos números. O afeto se traduz diretamente na nossa relação humana com o outro e conosco mesmos. Ele está ligado a entender que pode haver pessoas que não vão gostar de mim, que não vão concordar com o que eu faço, que não vão gostar do que eu digo. A entender que não é preciso que todas as pessoas me aplaudam. O que eu preciso é compreender se o que eu faço, quem eu sou, é válido para mim — e me conectar com as pessoas que se identificam com isso. Não importa se eu sou aplaudido por mil pessoas: se eu não tenho o meu aplauso interior, tudo isso se torna insignificante, insuficiente. — Alexandro Gruber

Ele contrapõe com o básico: “Precisamos de contato real, de conexões reais, construídas em atitudes verdadeiras. E, acima de tudo, entender que não precisamos da validação de todos, nem de aplauso de grandes grupos. O que sustenta é o apoio interior e os vínculos próximos, com quem de fato nos é afim. Sem isso, é possível ter mil curtidas e ainda assim se sentir vazio. É uma solidão existencial — não de solitude, mas de isolamento, de desconexão. Curtida não é validação, nem afeto, nem conexão; é um dado de desempenho da rede social”.

Alexandro Gruber: O aplauso tem que vir de dentro (Foto: Francielle Muisturini)

NOVOS PROJETOS

Autor de vários títulos, Alexandro prepara o relançamento do primeiro livro ainda este ano e já desenha o próximo. “Há alguns anos lancei meu primeiro livro na área de desenvolvimento pessoal, voltado ao autoconhecimento e à ideia de despertar interior, intitulado O que a vida quer te dizer. Na época, teve uma tiragem menor, mas foi bem recebido. Agora está sendo atualizado e deve ganhar uma nova edição no segundo semestre, com textos inéditos e uma proposta revisada para quem já leu”. Em paralelo, ele desenvolve um projeto com a Editora Planeta para 2027: “É um livro ainda em produção, pensado para tratar do enfrentamento de momentos difíceis, crises emocionais. A ideia é que funcione como um acolhimento, especialmente nas fases mais duras, mas o tema ainda não está fechado”.

O percurso editorial recente, porém, sofreu um desvio de rota. “A ideia desse próximo livro já vinha sendo trabalhada quando precisei antecipar Cartas de Despedida para meus Amores, publicado em 2024. Havia uma demanda muito grande em torno de relacionamentos, sobretudo nas redes sociais. É um tema que reverbera com força, e acabou se impondo”.

Diante de um ambiente digital de fluxo contínuo, a ansiedade aparece quase como efeito colateral. “É impossível não ser impactado. As redes operam em um ritmo que não corresponde ao ritmo da vida. O crescimento dos quadros de ansiedade está diretamente relacionado à expansão dessas plataformas. Você pode estar tranquilo, abrir o celular, rolar o feed e, minutos depois, se sentir angustiado. Muitas vezes, sem perceber que foi o conteúdo consumido que provocou isso — seja pela comparação, seja pela sensação de estar atrasado em relação à vida do outro”.

Alexandro Gruber promete novo livros para 2026/2027 (Foto: Francielle Misturini)

Para ele, a saída não passa por negação, mas por ajuste de medida. “As redes têm impacto direto na forma como nos sentimos, mas não representam o ritmo real da vida. É preciso desenvolver tolerância e paciência com o próprio tempo. O autoconhecimento ajuda a discernir o que faz sentido e o que não faz. No fundo, ansiedade não significa falta de calma, mas falta de sensação de segurança”.

Ao falar do próprio percurso, ele recorre a uma espécie de origem comum nesse campo: “Ninguém chega a esse trabalho apenas por curiosidade. Antes de tudo, é uma busca pessoal. Comecei tentando me entender, me conhecer. Ao perceber os efeitos dessa transformação, senti vontade de compartilhar. Em geral, quem atua nessa área percorre esse mesmo caminho: experimenta primeiro em si e depois oferece ao outro”.

Entre o ruído incessante das telas e a promessa de respostas rápidas, o que atravessa o discurso de Alexandro é algo mais antigo e mais silencioso: a necessidade de se escutar. Diante de algoritmos que aceleram o tempo e métricas que simulam afeto, ele aponta para um deslocamento menos visível — o de construir sentido sem plateia, sustentar vínculos que não cabem em números e reaprender, no próprio ritmo, a habitar a própria vida. É nesse retorno ao que é interno, longe da pressa e da validação fácil, que, segundo ele, ainda pode haver algum tipo de equilíbrio.