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‘A maior parte dos artistas de que eu gostava não era valorizada como deveria’, dispara Rodrigo Faour

Aos 47 anos, o pesquisador, crítico, jornalista, produtor e historiador musical comemora os dois anos de seu canal no YouTube, em que apresenta o programa ‘MPB com tudo dentro’, com destaque para o show-tributo a Dolores Duran produzido por ele

Publicado em 09/09/2019 | Por Heloisa Tolipan

No encerramento do show-tributo a Dolores Duran, todo o elenco cantou ‘A noite do meu bem’

*Por Jeff Lessa

Aos 47 anos, Rodrigo Faour tem uma vida inteira dedicada à música brasileira. Veja bem, à música brasileira. O pesquisador, crítico, jornalista, produtor e historiador não se limita a tratar de um único gênero – e, como todos sabemos, a marca “MPB” dá conta da imensa variedade de estilos que compõem a aquarela musical nacional. Pois Rodrigo está celebrando neste 2019 dois anos de seu canal no YouTube www.youtube.com/rodrigofaouroficial), em que apresenta o programa “MPB com tudo dentro”. A longo deste mês, ele vai mostrar números do show-tributo a Dolores Duran (1930-1959) que produziu, roteirizou e apresentou em julho no Imperator, no Méier, em homenagem aos 60 anos de morte da artista.

Chico Chico, filho de Cássia Eller, participou do tributo com as canções ‘Solidão’ e ‘Na asa do vento” (Foto de divulgação)

Ao longo de 21 dias úteis, serão postados números inéditos de seu repertório de crooner e compositora nas vozes de Ney Matogrosso (“Castigo”, “Ave Maria Lola”), Zezé Motta (“Por causa de você”), Chico Chico, filho de Cássia Eller (“Solidão”, “Na asa do vento”), Leny Andrade e Gilson Peranzzetta (“Fim de caso”, “Sabra Dios”), Dóris Monteiro (“A banca do distinto”), as Frenéticas Dhu Moraes & Sandra Pêra (“O negócio é amar”), os atores-cantores Cláudio Lins & Soraya Ravenle (“Estrada do sol”), Gottsha (“My funny Valentine”) e um medley de sambalanços com João Roberto KellyAna Costa e o cantor-revelação da Lapa Júlio Estrela, num total de 25 números. A direção musical é do jovem maestro Heberth Souza.

Ney Matogrosso, Sandra Pêra, Dhu Moraes e Zezé Motta em cena (Foto de divulgação)

“Reuni um superelenco de 20 artistas de várias gerações da MPB e seis músicos no imenso palco do Imperator, com casa lotada, cantando as composições da Dolores, bem como músicas de seu repertório eclético e internacional, pois era também uma grande crooner. Consegui gravá-lo e postarei todos os números do show”, conta o pesquisador. “Neste momento do país, nada como disponibilizar o melhor da nossa cultura para todos”.

Na abertura, Faour leu um poema inédito escrito por Moraes Moreira especialmente para a ocasião intitulado “Dolores Duran”. Estiveram presentes ainda a irmã de Dolores, Denise Duran, e sua sobrinha Izzy Gordon, também cantoras. A melhor amiga viva da artista, a ex-modelo e atriz Eloá Dias, e sua filha única adotiva, Maria Fernanda, deram depoimentos, relembrando histórias com a artistas. Completam o elenco artistas da Era do Rádio como Dóris Monteiro, Lana BittencourtEllen de LimaLuciene Franco e Áurea Martins.

Um número coletivo encerra a programação. Ney Matogrosso puxa, com Zezé Motta e as Frenéticas Dhu Moraes e Sandra Pêra, “A noite do meu bem”, que, na segunda parte é cantada por todo o elenco.

 Heloisa Tolipan – Quanto tempo levou para reunir 20 grandes intérpretes para o show-tributo a Dolores Duran?

Rodrigo Faour – Na verdade, foi fácil, porque todos eram amigos ou pessoas por quem, de alguma forma, já havia uma admiração mútua. E Dolores é um nome que todo mundo respeita. Quando lancei o livro “Dolores Duran – A noite e as canções de uma mulher fascinante” (Editora Record), em fins de 2012, já havia feito shows com outros elencos que deram origem ao CD/DVD duplos “Duas Noites para Dolores Duran”. Agora montei um elenco diferente. Dos outros só repeti as veteranas Dóris Monteiro e Lana Bittencourt. Neste há desde nomes da nova geração como Chico Chico, filho da Cássia Eller, e Júlio Estrela, revelação da Lapa, como Ney Matogrosso, Zezé Motta e diversos atores-cantores da velha guarda.

HT – O que podemos esperar dos depoimentos da melhor amiga e da filha de Dolores?

RF – A filha foi órfã duas vezes. Adotada por Dolores, que morreu aos 29 anos, teve pouco mais de um ano e meio de convívio. A Eloá Dias, melhor amiga, conta curiosidades, como a de que Dolores detestava ficar sozinha e preparava banquetes para que ela lhe fizesse companhia durante as tardes.

O cantor-revelação Júlio Estrela, João Roberto Kelly e Ana Costa cantam um medley de sambalanços (Foto de divulgação)

HT – Nos dois anos de “Rodrigo Faour Oficial”, você destacaria algum momento especial?

RF – Olha, foram cerca de cem vídeos e 46 entrevistas, incluindo algumas do baú, ainda inéditas, como os primeiros pilotos do programa de TV que fiz em 2008 com a saudosa Beth Carvalho e com Elba Ramalho, que me receberam em suas casas. Das novas, tive encontros com Johnny Hooker e Maria Alcina, Fernanda Abreu e Valeska Popozuda, Mart’Nália e Mosquito, um sambista da nova geração, Ney Matogrosso e Caetano com Edy Star, e ainda o encontro de Carlos Lyra, Menescal, Marcos Valle e João Donato comemorando 60 anos de bossa nova. Também tivemos um raro encontro celebrando os 60 anos da Família Corrêa – Evinha, Golden Boys e Trio Esperança. A entrevista com a paraguaia Perla já bateu mais de 50 mil visualizações… Também estive com Jane & Herondy, Leci Brandão, Agnaldo Rayol… Nossa, tanta gente tão legal! Sempre tentando vê-los por outros ângulos e trazendo canjas inéditas. É o programa que eu quis ter na TV depois de terminado o meu contrato com o Canal Brasil e nunca consegui.

HT – Você tem preferência por algum período específico da MPB?

RF – A música brasileira dos anos 1930 aos 80 foi sensacional. Difícil dizer de qual período gosto mais. Me especializei muito na segunda Era do Rádio, de 1946 a 58, mas a verdade é que adoro tudo que é boa música de qualquer tempo. O período que vai de 1978 a 1985 também acho muito rico e especial. Foi nessa época que eu me apaixonei pela música, a partir dos seis anos de idade.

HT – Como leva adiante uma pesquisa de repertório? O que leva em conta quando um artista encomenda esse tipo de trabalho?

RF – Minha cabeça é muito musical. Então tento imaginar como eles cantariam determinada música. Como eu sempre cantei e sempre gostei de imitar vozes, os que eu sei eu imito a pessoa cantando a música (risos). Para outros eu penso como seria… daí sai. Já fiz pesquisa para Bethânia, Elza Soares, Simone. A última que gravou foi Ana Carolina, o samba “1.296 Mulheres”, do Zé Trindade com o Moreira da Silva.

HT – A partir de quando você transformou a paixão por música em objeto de estudo e pesquisa?

RF – Aos 13 anos comecei a colecionar discos e recortes de imprensa sobre música. Passei, sem querer, a criar um arquivo meu. A partir dos 17, quando passei para Jornalismo na PUC, isso se definiu. Queria ser repórter e crítico musical. A questão da memória foi uma consequência. O Brasil sempre foi negligente com sua memória e senti que a maior parte dos artistas de que eu gostava não era valorizada como deveria. E mesmo as reedições de discos raramente vinham com textos informativos. Daí, meio que ao mesmo tempo, surgiram os livros, os trabalhos para as gravadoras e, mais tarde, os programas de rádio e TV.

HT – Você gosta de música estrangeira? De algum ritmo especificamente, de algum país?

RF – Gosto de músicas em espanhol, sobretudo boleros e algumas cubanas das antigas, dos anos 30 aos 60. Também gosto de orquestras para dançar.  Xavier Cugat, Lucho Gatica, Toña La Negra… Gosto de disco music dos anos 70 e do pop internacional dos anos 70 e 80, sobretudo. E adoro Sarah Vaughan, para mim, uma das maiores do mundo. E também Dionne Warwick e Tina Turner, para citar três. Quem gosta de música está sempre aberto a ouvir um pouco de tudo.

HT – Você escreve muito. Tem planos para um novo livro? Pode falar a respeito?

rf – Estou finalizando um novo livro, mas ainda faltam muitos detalhes. Posso dizer que vem chumbo grosso aí. Uma das maiores pesquisas que fiz na minha vida. Além disso, estou terminando meu mestrado em Letras, na PUC-Rio.

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