Miss Universo traz para a roda a pergunta: por que concursos assim ainda existem e repletos de preconceitos?


Convidamos a pesquisadora Maria Carolina Medeiros que estuda Narrativas Femininas para nos ajudar a analisar este contexto histórico. E também refletimos por aqui, sobre a representatividade deste tipo de competição. Em tempos de exaltação da diversidade e do corpo livre estará este tipo de concurso fadado a desaparecer em breve? A brasileira Julia Gama ficou em segundo lugar no Miss Universo diz: “É irônico ser desprezada por algumas feministas apenas por participar de concursos de beleza. Não gosto de ser julgada por isso”

*Por Brunna Condini

A mexicana Andrea Meza levou a coroa na 69ª edição do Miss Universo, competição em que a brasileira Julia Gama ficou em segundo lugar. Polêmicas à parte, já que muitos internautas e alguns especialistas julgaram a vice-liderança de Julia como injusta, nós, do site HT, propomos a seguinte reflexão: por que ainda existem concursos de beleza e por que eles atraem tanto interesse? Sobre o tema, a blogueira de moda plus size Juliana Romano já havia pontuado: “Não dá para comparar mulheres. Beleza é subjetiva e baseada em construção social. Não é à toa que, embora tenha uma certa diversidade de etnia no concurso, costumam ganhar as que se assemelham mais aos padrões europeus de beleza”.

Os momentos que antecederam a vitória da mexicana Andrea Meza, que levou a coroa na 69ª edição do Miss Universo, competição em que a brasileira Julia Gama ficou em segundo lugar (Reprodução)

Os momentos que antecederam a vitória da mexicana Andrea Meza, que levou a coroa na 69ª edição do Miss Universo, competição em que a brasileira Julia Gama ficou em segundo lugar (Reprodução)

Mas qual o motivo desse tipo de evento ainda tem audiência? Para entender a perspectiva histórica, convidamos Maria Carolina Medeiros, pesquisadora, professora e doutoranda em Comunicação na PUC-Rio, que tem como sua área de observação as narrativas sobre mulheres. “Causa espanto saber que candidatas a miss não podem ser ou ter sido casadas, nem ter filhos – biológicos ou não. Uma vez que historicamente a feminilidade se realiza no casamento e na maternidade (dizem: “uma mulher só é completa se for casada e mãe”), suponho que tais normas visam manter a mulher com o espectro de ‘disponível’, ‘desejável’, que ainda pode ‘ser conquistada’ e que, por isso, atrai o olhar”, analisa Maria Carolina.

“Em uma rápida busca por imagens dos candidatos ao Mister Universo é fácil perceber que os corpos masculinos são marcados por músculos, mais se assemelham a halterofilistas, confirmando que no caso do homem o que importa é a força, sinônimo de virilidade. A oposição entre força masculina e beleza feminina se perpetua e ainda se notabiliza nos concursos. Concursos de miss eram e continuam sendo o ápice da performance de feminilidade, do que se espera que a mulher ‘se torne’, para citar Simone de Beauvoir: é preciso ser jovem (limite de idade inferior a 30 anos), ser magra, ser bela e ter o corpo disciplinado, com a forma ‘correta’ de andar, de gesticular, e até de sorrir”.

Julia Gama no Miss Universo: "Concursos de miss eram e continuam sendo o ápice da performance de feminilidade, do que se espera que a mulher ‘se torne’" (Reprodução)

Julia Gama no Miss Universo: “Concursos de miss eram e continuam sendo o ápice da performance de feminilidade, do que se espera que a mulher ‘se torne’” (Reprodução)

Saúde mental

 Na etapa final do concurso, quando as cinco primeiras colocadas discursam, a gaúcha de Porto Alegre, Julia Gama, de 27 anos, falou sobre saúde mental. “Com 11 anos fui diagnosticada com depressão. Tive que tomar medicação por muitos anos, fazer terapia, lidar com ansiedade. Tive que aprender a lidar com essas questões, entender como ela se manifesta na minha vida se eu não estiver me cuidando de maneira correta”, disse.

E acrescentou: “É um tópico ainda bastante estigmatizado e, por isso, não conseguimos falar abertamente. Mas para todos aqui esta noite, eu peço que lembrem disso. Por favor, vamos normalizar conversas sobre ansiedade e depressão. Vamos nos apoiar e compartilhar empatia. Muitas pessoas têm vergonha de falar sobre isso. Eu sei que não sou menos, porque eu passei por essas situações na minha vida. Isso não me faz menos potente, menos capaz, menos merecedora, e menos forte”.

“Muitas pessoas têm vergonha de falar sobre isso. Eu sei que não sou menos porque eu passei por essas situações na minha vida. Isso não me faz menos potente" (Reprodução)

“Muitas pessoas têm vergonha de falar sobre isso. Eu sei que não sou menos porque eu passei por essas situações na minha vida. Isso não me faz menos potente” (Reprodução)

Concursos e a diversidade

Mas afinal, o que é beleza? O que faz com que uma mulher seja considerada bonita? O conceito de beleza é subjetivo e influenciado por muitos fatores como cultura, a época em que vivemos, o país em que nascemos e o mundo que nos influencia ao redor. Mas historicamente, mulheres são consideradas bonitas, quando se ‘encaixam’ mais dentro dos padrões exigidos ou esperados socialmente. Mas a ideia de ganhar dinheiro com isso surgiu no fim do século 19, quando jornais de Paris, empolgados com a popularização da fotografia, publicaram fotos de mulheres para eleger a mais bela francesa.

A iniciativa chamou atenção. Logo após, uma empresa de moda praia, a Catalina, criou em 1952, em Long Beach, na Califórnia, um concurso de mulheres desfilando de maiô. A Universal Studios investiu na proposta e o evento ganhou o nome de Miss Universe. Esses concursos vem desde então, sendo um meio de tirar mulheres do anonimato. E continuam a eleger a mulher ‘ideal’, de acordo com determinados padrões de beleza e com outros parâmetros, que nos últimos anos envolvem algum posicionamento através de seus discursos sobre questões do universo feminino, bem como questões políticas e sociais.

Há mais de 50 anos muitas feministas criticam este tipo de concursos. Elas acreditam que competições de miss reforçam os estereótipos de beleza. Por  outro lado, muitas candidatas falam que essa noção do concurso é superficial e exaltam a presença do feminismo e da sororidade nas competições. Em tempos de Movimento Corpo Livre, eles estarão fadados a desaparecer em poucos anos?

No fim do ano passado, a própria Julia Gama comentou sobre o tema em entrevista. “Há concursos de todos os tipos, cada um contemplando um tipo de beleza diferente: alguns são focados nos perfis clássicos de modelos, outros são destinados a mulheres plus size, há também aqueles para meninas mais jovens. Não dá para resumir dessa forma algo que, na verdade, é tão plural. Convido os críticos a conhecerem melhor o meio e a diversidade nele presente”, opinou Julia, que fala alemão, espanhol, inglês e mandarim e cursou engenharia química.

"Não dá para resumir dessa forma algo que, na verdade, é tão plural. Convido os críticos a conhecerem melhor o meio e a diversidade nele presente” (Reprodução)

“Não dá para resumir dessa forma algo que, na verdade, é tão plural. Convido os críticos a conhecerem melhor o meio e a diversidade nele presente” (Reprodução)

Na ocasião, ela também falou sobre o movimento feminista: “É irônico ser desprezada por algumas feministas apenas por participar de concursos de beleza. Não gosto de ser julgada por isso. Acredito que o feminismo seja, acima de tudo, a ideia de que a mulher pode fazer o que ela quiser. Deveria haver mais sororidade e menos julgamento entre nós”. E finalizou: “Esses concursos dão visibilidade à mulher, empoderam meninas do mundo todo, permitem que as vencedoras usem sua fama para defender o que elas quiserem. De minha parte, busco zelar pela celebração da diversidade e pela tolerância — e só posso fazer isso de forma pública por ser miss”.