Arte & Literatura

“Tudo é mais democrático na rua”, diz Paulo Ito, que usa a arte em muros como crítica social

Pintor viralizou com suas criações à época da Copa do Mundo e aborda em seus traços temas como comportamento, políticas, religião, feminismo e desigualdade

Publicado em 13/03/2019 | Por Bárbara Tenório

Meio brasileiro meio italiano, mas inteiramente criativo e questionador em sua arte. Essa é a descrição para Paulo Ito, artista plástico e grafiteiro, que utiliza da arte para provocar reflexão e crítica social. É só reparar para perceber quanto Paulo é político no trabalho e até na forma de lidar com as coisas mundanas. No Instagram, a grande maioria das publicações aborda seu trabalho. Para falar com Paulo melhor escrever uma mensagem. Ligar, apenas quando emergência. O artista plástico escolheu a rua há 18 anos como moldura para as suas obras de arte. “É o local onde posso expressar o que eu sinto sem precisar passar pelo crivo de ninguém”, afirmou. O site HT conversou com ele sobre inspirações, propósitos e muita arte.

Utilizando da técnica do grafite, Paulo Ito, tem como principal foco a crítica política

À época da Copa do Mundo no Brasil, no ano de 2014, Paulo ficou mundialmente conhecido por uma imagem pintada no portão de uma escola, no bairro da Pompéia, em São Paulo. No grafite que viralizou nas redes sociais, um menino chora de fome ao se sentar à mesa e se deparar com um prato que não tem comida, mas uma bola de futebol. O artista garante que o objetivo foi a consciência sobre o destino dos recursos do governo brasileiro.

“Não tinha a intenção de atingir com esse trabalho pessoas de outros países, porém acabou acontecendo graças ao interesse pelo Brasil através de canais de comunicação. Várias pessoas de diferentes partes do mundo tiveram acesso e muitas me escreveram”, explicou Paulo que tem inspirações para pintar através de conversas com amigos, leituras de livros e notícias sobre o país.

O trabalho de Paulo Ito mais compartilhado nas redes sociais

O traço do paulistano já é característico dele assim como o sarcasmo e a ironia nas suas pinturas. Envolvendo sempre temas de comportamentos sociais, decisões políticas, religião, feminismo e desigualdade, as obras do artista vêm acompanhadas de um diálogo curto ou uma frase e, em algumas, a imagem vale por mil palavras, como foi o caso da crítica à Copa da FIFA. “O sarcasmo e a ironia têm algo pessoal e de família. Meu pai tem uma certa brincadeira no jeito de ser, então isso veio naturalmente. O que eu acho interessante em usar esse recurso é que o sarcasmo não é um tratado nem uma afirmação, mas sim uma dúvida e possibilidade. Vivemos numa época um pouco intolerante”, destacou o pintor, que acrescentou: “Mas se as pessoas interpretem de maneira ofensiva, ameaçadora ou inconveniente isso depende de cada uma. A partir do momento que ela refuta é porque entendeu e se viu no lugar dessa crítica, se viu na pessoa ou comportamento que eu estou criticando”.

E nem toda reflexão é bem vinda nas galerias de arte, segundo o artista. “Não vi nas artes plásticas um espaço totalmente livre para que eu pudesse expressar da maneira que eu queria. Na arte de rua, eu consegui, porque não existe uma curadoria ou editor para barrar a expressão”, contou Paulo que antes das pinturas com viés político, ele utilizava uma técnica mais estética. “Eu comecei a entender que o espaço urbano era um lugar muito mais livre, então resolvi aproveitar isso. Sou uma pessoa que valorizo muito a liberdade individual e de expressão. Encontrei na arte de rua um bom caminho para expressar da maneira que eu quero, ou seja, livremente”, analisou.

Obra na rua Voluntários da Pátria, em Santana, São Paulo

A Zona oeste paulistana conhece bem os trabalhos do grafiteiro. “O público-alvo? Todos os transeuntes. O contexto histórico proporciona um direcionamento. Eu acredito que o que é feito na rua é mais democrático, porque não tem uma bolha”, explicou o artista.

Um dos trabalhos postados nas redes sociais

O artista plástico quer continuar usando os muros de São Paulo para expressar os problemas do Brasil e de todos os brasileiros. “Esta é a cidade que eu conheço, moro e consigo operar muito bem nela para fazer meu trabalho. Quero continuar atuando da maneira como eu faço. Acho que vou largar a rua quando eu estiver mais idoso, quando começar a ficar fisicamente desgastante. Passarei a trabalhar com histórias em quadrinhos como autor e desenhista”, afirmou Paulo.

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