Arte & Literatura

Três mil m²: o artista Eduardo Kobra está pintando um dos maiores painéis da sua trajetória na Zona Portuária do Rio: “Representa a união de todo o mundo”

Kobra, que já foi detido três vezes por estar grafitando em São Paulo, acredita que as pessoas devem valorizar e incentivar esses artistas de rua. "A arte melhora a vida urbana. Então, eu acho que todo tipo de preconceito é falta de conhecimento"

Publicado em 13/07/2016 | Por Julia Pimentel

Representar os cinco continentes que vão participar das Olimpíadas do Rio em uma parede de 3 mil m². Essa foi a missão que o artista Eduardo Kobra recebeu e já está realizando na cidade olímpica. O painel está sendo pintado na Zona Portuária da cidade, que foi revitalizada recentemente, e deve ficar pronto no final de julho, poucos dias antes da abertura do evento. O HT foi lá conferir e conversar com o artista para descobrir o que os cariocas e os visitantes de mais de 200 diferentes países vão poder observar daqui a algumas semanas. “Nas Olimpíadas, existem os cinco aros olímpicos que cada cor significa um continente. Esse mural também foi baseado nisso. Porém, cada personagem que será pintado representa um continente, e eles serão todos nativos de cada um desses lugares. A gente procurou desenvolver aqui, dentro da Ásia, África, Oceania, América e Europa, povos que são indígenas ou nativos de cada uma dessas regiões”, explicou.

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Apesar de estar sendo feito para as Olimpíadas, Kobra ressaltou que a imagem representada vai funcionar mesmo após os jogos. Como lembrou, a cidade maravilhosa recebe visitantes e turistas durante todo o ano. “Não foi um painel pensado apenas para as Olimpíadas. Se você parar para identificar nesse muro, você não consegue perceber diretamente a questão dos jogos. Você vai conseguir ver a imagem dos povos que vão se unir durante as competições. A gente pensou no painel com esse formato porque o Rio de Janeiro já é uma cidade que recebe pessoas do mundo inteiro. Portanto, ele acaba fazendo sentido o tempo todo, porque sempre há gente de todos os lugares aqui. Ele representa essa união de todas as pessoas do mundo. Como se fossemos todos um só. Esse mural faz parte de um projeto que eu estou fazendo ao redor do planeta que tem a ver com a paz. É uma sequência de painéis com esse olhar. No caso dessa parede, tem a ver com as etnias”, esclareceu Kobra sobre o desenho que demorou cerca de três meses para ser concluído.

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E não é só esse imponente painel que terá a assinatura de Eduardo Kobra nos Jogos do Rio. Como adiantou ao HT, o artista também foi o responsável pela imagem de um pôster que será veiculado durante os Jogos. Ah, e ele ainda ia fazer mais arte pela cidade. “A princípio eles tinham me convidado para pintar uma das arenas. Por conta de tempo, acabou não sendo possível. Foi então que surgiu a oportunidade de pintar essa parede ou uma outra mais à frente. Mas foi uma escolha minha, por preferência, ter realizado o painel nesse muro de 170 metros de comprimento, justamente pelo tamanho, dificuldade e complexidade que é o projeto. Como eu não tenho muita arte aqui no Rio de Janeiro, apenas três ou quatro painéis pequenos, eu queria ter um muro público em grande formato”, disse ele que também já assinou a pintura da lateral de um prédio de 96 metros em Recife, em Nova York e outras cidades.

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Já que a escolha pelo local partiu de Kobra, fomos atrás de descobrir o que ele estava achando daquela área revitalizada que, recentemente, também foi palco para o Rio Moda Rio, evento que marcou a volta da urbe no calendário fashion brasileiro. “Eu cheguei a conhecer essa área quando ainda tinha o viaduto da Perimetral. Quando eu voltei e vi essa região revitalizada com os galpões, me lembrou muito as Docas de Belém, que é um lugar lindo. Eu acho que é uma melhoria para a cidade e, como turista, acredito que seja uma das áreas mais importantes do Rio de Janeiro. É um local público de convivência e que permite às pessoas caminharem, andarem de bicicleta e etc. Nesse momento, se essa região permanecer cuidada como está para as Olimpíadas, o lugar está lindo”, opinou.

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Bom, já entendemos que a vibe do artista é um tanto quanto estratosférica, ? Segundo ele, apesar de também pintar telas de um m², Kobra confessou que prefere e acha muito mais fácil deixar sua marca em uma parede de 3 mil m² como a que está fazendo no Rio. Para o artista, a principal dificuldade nesses projetos em grandes escalas é a logística na preparação. Mas não é a única. “Eu acho que toda a organização anterior, de segurança, da equipe, dos materiais e de tudo antes de fazer o trabalho é a parte mais complicada. Todos os muros que eu pinto, primeiro eu faço uma tela em proporção menor no meu ateliê. E é nessa fase que eu faço todos os estudos para, só depois com a minha equipe, chegar ao local para realizar o painel. Mas, depois que essa parte está pronta, pintar é a etapa que a gente mais gosta. Outra dificuldade é que meu time é todo de São Paulo. Então, é necessário mover toda a equipe para a cidade que vamos trabalhar”, contou.

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Apesar de partir para a parede ou para a lateral do prédio com o desenho pronto e tudo organizado, nem sempre o projeto sai como o imaginado. Eduardo Kobra lembrou que, em alguns casos, já mudou o projeto depois de pronto. Tudo em nome de um resultado digno da assinatura reconhecida e admirada do artista. “Já tive casos de querer fazer tudo de novo. Mas isso só acontece porque eu pinto por um prazer pessoal. Óbvio que tem a questão financeira. Mas não é isso que move. O que me inspira é olhar e ver um trabalho bem feito. Então, fora do Brasil, eu já fui para alguns lugares que, talvez por conta do clima, mudou muito a paleta de cores, como na Rússia. Já tiveram alguns casos que eu alterei as cores e, inclusive, os formatos. Eu já cheguei a mudar tudo na hora. Eu tento não fazer isso. Mas, se me incomodar, eu mudo. A preocupação é mais comigo mesmo, eu tenho que ficar satisfeito com o resultado. Se não me agradar, eu modifico. Eu não tenho compromisso com o erro. Não vou deixar um painel que não me agradou lá só por conveniência ou porque já está feito. Eu gosto de fazer o melhor possível. A minha meta é sempre essa explicou.

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E por falar em cores, essa também é uma marca nas obras de Kobra. O artista busca em uma variada paleta uma nova linguagem para compor e acrescentar ao desenho. “As cores não são aleatórias. Se você perceber o mural do Oscar Niemeyer na Paulista, por exemplo, as formas geométricas e as cores são obras que ele desenhou. Lá, a gente até fez um trabalho de realidade aumentada para que, quando as pessoas apontassem o celular, essas formas saltem e elas possam perceber essa proposta. No caso desse mural das Olimpíadas no Rio, a gente também vai ter várias características que vão se formar entre o fundo e as figuras. Todos os olhos deles, por exemplo, vão ter as cores verde e amarela para simbolizar todos os continentes se unindo aqui no Brasil. Ou seja, existem vários detalhes, e as cores dizem muito. Quando eu vou tratar de assuntos mais sérios, como a proteção dos animais ou temas políticos, por exemplo, eu vou optar por um paleta naquele aspecto que eu vou passar. Quando o tema é mais alegre, as cores acompanham essa energia. Mas isso tem todo um trabalho de pesquisa por traz para conseguir encontrar a forma mais adequada”, detalhou.

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Já entendemos como funciona o processo da pintura, as dificuldades nos projetos, a importância das cores… Mas e os desenhos? O que são e da onde surgem os conceitos expressados nos murais de Eduardo Kobra? “Durante muitos anos, eu tive que me submeter ao que as pessoas pediam. Então, se me solicitassem qualquer tema, eu ia lá e pintava por uma questão de sobrevivência. Porém, depois de algum tempo trabalhando nas ruas com os meus murais, começaram a perceber o meu estilo, a minha linguagem e as minhas temáticas, que são sempre ligadas à memória, história, paz, proteção aos animais e algumas personalidades que tem uma relevância mundial. Quando eu parei de querer copiar os outros, o meu trabalho começou a fazer muito mais sentido para mim e para as pessoas que me convidavam. Então, quando me chamam hoje, já estão pensando naquilo que eu desenvolvi. Atualmente, acaba sendo mais fácil esse processo porque eu desenho o que eu quero fazer. Ou seja, eu aproveito os convites para realizar criações minhas mesmo, e acabo unindo os dois lados. Eu costumo não aceitar pedidos em que as pessoas querem determinar o que eu tenho que fazer. Eu gosto de ocupar os espaços com o que eu criei”, contou.

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E esses espaços com a marca do artista não são poucos não. Kobra, que já está presente em mais de 20 diferentes países, como Tahiti, Japão e Emirados Árabes, contou que, só nos Estados Unidos, já assinou cerca de 40 pinturas. Mas, embora tenha viajado o mundo todo, a sua casa continua sendo o local preferido e mais afetivo. “Eu tenho muitos murais na periferia de São Paulo, mas também em muitos lugares nobres. Eu acho que os trabalhos que eu tenho realizado no Brasil são os que me dão mais satisfação em fazer. Sem hipocrisia, mas esse trabalho que eu estou fazendo agora no Rio é um dos mais importantes para mim pelo local onde ele está colocado. Eu acho que ele tem a mesma importância de um painel que eu tenho na Avenida Paulista do Oscar Niemeyer. Porém, um dos mais relevantes é um que eu fiz na 23 de maio, em São Paulo, com cerca de mil m² e um que eu tenho em Nova York, em um prédio no bairro de Chelsea, que é uma cena do V-J Day”, listou. Mas o carinho pela periferia de São Paulo tem uma explicação que vem lá do passado: “Eu já cheguei a ser detido três vezes fazendo grafite nas ruas paulistas. Eu venho de uma história de periferia, de batalha e tudo mais. Então, conseguir conquistar esses espaços com o meu trabalho é muito prazeroso. Eu demorei anos para que as pessoas começassem a perceber que não se tratava de um vandalismo, e, sim, de um trabalho artístico”.

E foi essa mesma periferia de São Paulo que acompanhou seu morador deixar de ser pichador para se transformar em um reconhecido artista do mundo das cores e dos sprays. Ele, que desenha desde os oito anos de idade, disse que está na street art desde os 12. “Quando moleque, eu subia em prédios e ficava rabiscando e fazendo picho mesmo. Fiquei alguns anos fazendo isso e depois fui fazer grafite ilegal. Eram aquelas letras mais elaboradas, mas era proibido. A minha história toda é da periferia do bairro de Campo Limpo, em São Paulo”, relembrou Eduardo Kobra que se considera hiperativo e autodidata por ter aprendido tudo o que sabe nessa época. “O fato de eu ser autodidata não significa que eu não ficava grande parte do meu tempo pesquisando sozinho. Eu acho que eu estudei muito mais do que se eu tivesse feito uma faculdade. Foram as ruas de São Paulo que permitiram a visibilidade do meu trabalho para o mundo todo”, completou.

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Hoje, com uma carreira admirada e um nome conhecido em diversos países, Eduardo Kobra vê que repreender esses jovens que manifestam sua arte através da pintura em muros dos centros urbanos é andar para trás. Segundo o paulistano, ao invés de recriminar esses artistas de rua, nós deveríamos apoiá-los. “A arte melhora a vida urbana. Tanto São Paulo como o Rio de Janeiro tem excelentes artistas nas ruas pintando que, às vezes, precisam apenas de um incentivo para seguir fazendo. E o apoio pode ser o mais simples, como uma lata de tinta, um spray ou uma parede. Então, eu acho que todo tipo de preconceito é falta de conhecimento e repreender um cara que está fazendo arte está errado. Tem que fazer isso com bandido, e não com um artista. O preconceito é burrice. Mas, hoje em dia, as pessoas têm percebido melhor esse tipo de trabalho”, argumentou Kobra que destacou o eixo Rio-São Paulo como um dos principais da street art.

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Ah, e para o futuro tem mais novidades. Eduardo Kobra adiantou ao HT que o Rio ainda receberá mais uma arte e que, ainda esse ano, vai visitar mais dez países. “Eu devo fazer um mural sobre o Ayrton Senna, aqui no Rio, perto dos Arcos da Lapa. Também na cidade carioca, eu tenho um projeto no Morro da Providência que é a pintura de cerca de 50 casas lá. A gente deve fazer, porém ainda estamos em tramites de viabilizar isso. Fora esses projetos aqui, eu ainda tenho dez países diferentes para ir esse ano. Saindo do Rio, eu e minha equipe vamos para Cincinnati, nos Estados Unidos, fazer um painel em um prédio sobre Neil Armstrong”, contou o artista Eduardo Kobra. É ou não é o dono do mundo?

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