Arte & Literatura

Novo mural de Panmela Castro é inaugurado no Dia Nacional da Consciência Negra

Estimulando o debate sobre a temática feminista, Panmela é considerada a rainha do grafite e pretende ajudar cada vez mais meninas a seguirem os seus sonhos: “Espero que com o meu trabalho, eu possa formar muitas outras rainhas e princesas!”

Publicado em 19/11/2018 | Por Leticia Sabbatini

A rainha do grafite, Panmela Castro, terá um novo trabalho inaugurado amanhã (20), no Dia Nacional da Consciência Negra. O mural, localizado no centro do Rio de Janeiro, foi inspirado no termo “Dororidade”, referente à sororidade entre mulheres negras. O evento contará com shows das MCs Carol e Ainá, além do lançamento de um videoclipe e muitas outras atrações. Em conversa com o site HT, Panmela falou sobre a inauguração, parcerias, feminismo e objetivos para 2019.

No novo mural, o desenho “Irmãs Siamesas”

Nascida e criada no subúrbio do Rio de Janeiro, Panmela sempre esteve no caminho das artes e com o apoio da família, decidiu que essa era a direção correta a seguir. Quando criança, o incentivo vinha principalmente da mãe, que a inscrevia em diversos cursos e posteriormente, no vestibular para o curso de belas artes. Hoje, a artista é considerada como uma das 150 mulheres que estão bombando no mundo, ao lado de personalidades mundialmente conhecidas como Oprah Winfrey e Hillary Cinton, de acordo com a prestigiada revista americana Newsweek.

A ativista, que também é conhecida como “Anarkia Boladona”, explicou que o codinome surgiu devido a sua personalidade: “o termo ‘anarkia’ veio pelo desejo de liberdade e ‘boladona’ porque eu nunca engoli sapo e sempre contestei tudo”. Quando questionada sobre o motivo de ter escolhido o grafite, a artista demonstrou o desejo de atingir as pessoas, por meio do seu trabalho. “O grafite é um instrumento sensacional de comunicação. Como ele fica em um espaço público, ele dialoga com todo mundo. Independente de religião, sexo, idade e classe social, todo mundo entra em contato com aquela imagem. Então, ele é muito poderoso”, contou.

Dentre os seus vários projetos, Panmela se orgulha por ser a fundadora da ONG Rede Nami, uma organização feminista que utiliza arte urbana para promover os direitos das mulheres. Sendo um nicho majoritariamente masculino, a arte de rua ainda é cenário da discriminação de gênero e a grafiteira quer modificar isso. “Ser mulher na cena do grafite é muito difícil. O tempo todo nós somos oprimidas, caladas e marginalizadas, muitas vezes de forma subjetiva. Os meninos falam que é legar ter mulheres na cena, incentivam e tudo mais, mas na prática, eles não aceitam que a gente tenha uma visibilidade e um poder naquele espaço. Então, ficam o tempo todo tentando nos colocar no que eles acham que é ser mulher”, admitiu.

Em 2017, Panmela foi citada na lista de 18 nomes de ativistas da nova geração que estão fazendo a diferença, segundo a W Magazine.

Apesar de já ter pintado em mais de 30 cidades ao redor do mundo, a artista não nega preferência a alguns trabalhos. “O grafite que eu mais gosto é bem pertinho de casa, que é esse que está sendo inaugurado amanhã. Antes, era o painel comemorativo da Lei Maria da Penha, que eu pintei em 2014, e agora a gente repintou ele com o tema ‘dororidade’”, afirmou.  O termo, cunhado pela escritora Vilma Piedade em 2017, foi abraçado pelo movimento feminista, em uma tentativa de acrescentar à união feminina as dores do racismo.  Para Panmela, o conceito se faz necessário para entender a realidade das mulheres negras: “Com a Lei do Feminicídio, nós vimos que menos mulheres brancas e mais mulheres negras morrem. Então, precisamos falar sobre isso”.

Com diversos trabalhos renomados, Panmela acredita que os mais desafiadores são aqueles que ocupam as ruas e confessou ao site HT que possui uma relação ambígua com a cidade: “Por eu ser mulher e ter esse corpo que eu tenho, a cidade é muito agressiva para mim. Então, a rua é minha amiga e ao mesmo tempo, minha inimiga. É nesse dueto que a gente vai adentrando os espaços, com o objetivo sempre de transformar essa cidade em um ambiente mais seguro e que abrace mais as mulheres”, filosofou.

Nesse contexto de luta feminista, a artista contará com outras ativistas no lançamento de seu novo trabalho. A inauguração será formada por uma grande festa na Rua do Lavradio, com shows das MCs Carol, madrinha do mural, e Ainá. Além do lançamento do videoclipe “Dororidade”, rap feito em homenagem a esse trabalho, interpretado ao vivo por Andrea Bak e DJ Tamy. A programação, que é inteiramente gratuita, será finalizada por uma exposição com 50 obras das alunas do projeto AfroGrafiteiras, iniciativa da Rede Nami. “Todo esse evento e esse mural a gente criou para divulgar o afro brasileiras”, contou Panmela, em relação às 90 vagas disponíveis para mais um módulo do curso. A artista, que é fã de mulheres como Djamila Ribeiro, finalizou: “Queremos mais mulheres negras aprendendo sobre grafite e sobre os seus direitos. Essa é a meta para 2019, dar mais oportunidades. Espero que com o meu trabalho eu possa formar muitas outras rainhas e princesas no grafite”. A gente também!

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