Arte & Literatura

“Nenhum dos extremos me agrada. Represento a maioria calada que sofre repressão ao dar opinião”, diz Bruno Gouveia

O vocalista do Biquini Cavadão lançou a autobiografia da banda, intitulada “É impossível Esquecer o Que Vivi”. Ele conversou com o Site HT sobre o processo de desenvolvimento da obra, política e o atual cenário musical brasileiro

Publicado em 18/08/2019 | Por Heloisa Tolipan

Lançando biografia da banda, Bruno Gouveia falou sobre o desenvolvimento do projeto (Foto: Divulgação)

*Por Iron Ferreira

Desde a sua formação, em 1982, o Biquini Cavadão vem deixando a sua marca no cenário musical brasileiro, contribuindo com o desenvolvimento da cena rock. Entre os inúmeros sucessos, o grupo integra a trilha sonora da vida de muitas pessoas. Em 2013, recebeu uma indicação ao Grammy Latino com a música “Roda Gigante”, presente no disco homônimo. Com mais de 30 anos de estrada, a banda tem muitas histórias que merecem ser compartilhadas com o público. É com esse objetivo que o vocalista Bruno Gouveia lançou a biografia “É Impossível Esquecer o Que Vivi”. Em conversa com o Site Heloisa Tolipan, o músico revelou que decidiu escrever o livro por conta própria, sem a ajuda de um intermediário, para que o leitor percebesse a sinceridade em suas palavras. O título conta ainda com uma inovação tecnológica: a presença de QRcodes, ilustrando a obra com fotos, canções e vídeos. Dessa forma, o leitor poderá tirar o máximo de proveito e interação.

“Eu estava em uma fase em que eu lia muitas biografias. Isso me inspirou a montar uma com a história da banda. Como estávamos prestes a completar 30 anos, eu comecei a juntar material para que esse projeto se tornasse possível. Conforme eu fui escrevendo as ideias, com muita rapidez, fui percebendo que eu não precisava de um biógrafo para esse projeto. Queria que saísse do meu jeito. Decidi então, escrever por mim mesmo. Como eu já tinha escrito o blog da banda por dez anos, eu tinha uma certa experiência. Não existia, até então, uma biografia sendo feita pelo próprio cantor de um grupo. Eu queria que o livro reunisse os momentos mais importantes da nossa história, sempre com as minhas próprias palavras”, disse.

Capa do livro “É impossível Esquecer o Que Vivi” (Foto: Divulgação)

Ele ainda contou que o processo de escolha das informações, iniciado em 2014, o fez relembrar de diversas situações pelas quais passaram. O intuito é mostrar aos fãs as evoluções que sofreram ao longo dos anos e as intenções e expectativas por trás de cada álbum e canção: “Eu comecei a escrever sem pensar muito nas informações. Depois, fui filtrando e escolhendo o que tinha de mais relevante. Eu achava importante que essa obra fosse pautada pela sinceridade, apontando os erros e acertos durante a nossa trajetória. Eu não queria nada chapa branca. Foquei em apresentar ali o quanto evoluímos durante todo esse tempo. Há histórias engraçadas, momentos delicados e experiências. Quero que as pessoas conheçam a história por trás de cada música, o intuito de cada disco e as alegrias e frustrações que tivemos”.

Diante de uma realidade bastante polarizada, segundo ele, vivemos em um momento de pura tensão, onde expressar a sua opinião pode ser sinônimo de sofrer críticas de ambos os lados.“Eu acho que estamos em um momento muito delicado no nosso país. As pessoas estão se manifestando de forma muito agressiva. Tenho muita dificuldade em lidar com isso, pois nenhum dos extremos nunca me agradou. Acho que represento uma grande maioria calada que não sabe como dar a sua opinião sem sofrer repressão de ambos os lados. Se o governo faz uma coisa positiva e aplaudimos, somos trucidados. Se a gente critica, também é repreendido. Não existe uma forma de fazer diálogo. E quando não há diálogo… não há democracia”, afirmou.

De volta ao aspecto musical, ele aproveitou para adiantar algumas novidades do Biquini Cavadão. Entre elas, um material ao vivo do disco “Ilustre Guerreiro (Uma Homenagem a Herbert Vianna)”, lançado em 2018 como forma de saudar o vocalista do Os Paralamas do Sucesso: “Gravamos a versão ao vivo da turnê “Ilustre Guerreiro”, no Teatro Bradesco, em São Paulo. Em breve, esse material será lançado e disponibilizado como um disco ao vivo. Como foi filmado em dezembro, acredito que o lançamento será ainda no segundo semestre. A nossa intenção é dar continuidade a esse projeto, mas com outros artistas sendo homenageados. A ideia é promover encontros com artistas que têm admiração pela banda e pelo nosso trabalho. É legal saber que a nossa arte é capaz de atingir pessoas de distintos seguimentos musicais”.

O cantor falou também sobre o fértil cenário musical que o nosso país possui e de como a internet contribuiu para essa questão. Sem a necessidade de uma gravadora, o músico pode liberar o seu trabalho na internet e conquistar uma legião de seguidores. De acordo com ele, devemos estimular quem está buscando crescer ao invés de criticar aqueles que já atingiram o topo.

O artista ainda elogiou a fertilidade do cenário musical nacional (Foto: Divulgação)

“Eu acho que o cenário musical do Brasil é muito rico. A internet promoveu um acesso mais fácil das pessoas aos mais diferentes artistas. Ela também contribuiu muito com o trabalho dos artistas, que não precisam mais ficar refém das gravadoras e podem disponibilizar os seus trabalhos nas inúmeras plataformas disponíveis. Com isso, testemunhamos um tsunami de conteúdos, uns bons e outros nem tanto. É um turbilhão de informações. Hoje, eu acho que há muitos artistas bons entregando ótimos trabalhos, basta garimpar. Não devemos falar mal de quem está fazendo sucesso. Cabe a nós divulgar quem está lutando por um lugar ao sol”, pontuou.

Por fim, Bruno concluiu refletindo sobre a sua trajetória como vocalista de uma das bandas de rock mais relevantes do país e de como isso lhe afetou. Mesmo que o sucesso não tenha sido intencional, ele afirmou que o resultado final é mais do que satisfatório: “Eu acho que é impossível esquecer o que vivi! O saldo é muito positivo, do quanto valeu a pena. A história da banda aconteceu muito por acaso. Nós não estávamos em busca de formar uma banda ou de fazer sucesso, nada disso era nossa meta. Fomos surpreendidos quando o Carlos Beni, baterista do Kid Abelha, falou que a música que estávamos tocando no ensaio era muito boa e tinha potencial. Ele nos incentivou a gravá-la. A música em questão era “Tédio”. Foi tudo por acaso, e esse acaso mexeu muito com a nossa história”.

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