Arte & Literatura

Na Sapucaí, Unidos da Tijuca se inspira em Ayrton Senna e, sob chuva intensa, dá um show na pista

Ainda no domingo (16), a Beija-Flor mostrou, mais uma vez, a força do canto de Nilópolis; no sábado, Portela e Imperatriz realizaram desfiles apenas corretos

Publicado em 17/02/2014 | Por Heloisa Tolipan

* Por Pedro Willmersdorf

Mais um fim de semana com fortes emoções na Marquês de Sapucaí, pois mais quatro escolas do Grupo Especial do Rio fizeram seus ensaios técnicos, a apenas 15 dias do início oficial da folia. No sábado, passaram pela Avenida as escolas Portela e Imperatriz Leopoldinense, ambas com performances eficientes, sem grandes tropeços.

Já no domingo (16), Beija-Flor e Unidos da Tijuca, cada uma a seu estilo, entregaram ao público, mesmo sob chuva forte, espetáculos irrepreensíveis, com um leve destaque maior para a escola do Borel, um pouco mais ‘carnavalesca’ em sua evolução.

Portela

Uma das pautas mais comentadas neste pré-Carnaval, sem dúvida, é a atmosfera renovada positivamente pelas bandas de Oswaldo Cruz e Madureira, com a chegada da nova diretoria da Portela. Logo, o ensaio técnico da águia foi coberto de expectativa, aliado também ao elogiadíssimo samba escolhido para o desfile de 2014.

Sendo assim, pode ser afirmado que o resultado ficou um pouco abaixo do esperado, pelo menos no que diz respeito à harmonia da escola, com um canto presente, mas sem a força, o vigor, a energia que se esperava. O refrão principal rendeu, claro. Mas, justiça seja feita, outros tantos refrãos de sambas medianos também já renderam na Avenida nesta temporada de ensaios.

Quanto ao ‘corpo’ do hino portelense, o canto dos componentes (o maior contingente dentre todas as agremiações que já ensaiaram) ficou devendo. Mais uma vez, a bateria de mestre Nilo Sérgio foi digna dos mais merecidos aplausos em sua passagem pela pista, com uma cadência que começou um pouco acelerada, posteriormente se ajustando ao ritmo que o samba da Portela pede, mais suingado, sem correria. Wantuir, em sua estreia no carro de som da escola, passou bem, apoiado, principalmente, pelo veterano e competentíssimo Rixxa.

Imperatriz

Em seguida, entrou na Avenida uma Imperatriz em clima de final de campeonato. Afinal de contas, o samba da escola, que conta com Elymar Santos em seu time de compositores, é visto com desconfiança por grande parte da mídia carnavalesca. No entanto, nas arquibancadas e no campo de jogo foi vista uma grande apresentação do time gresilense. Parece que o clima de satisfação que passeou pela escola em 2013, com seu belo desfile sobre o Pará, permaneceu pairando pelos lados de Ramos. A prova disso foi a felicidade estampada nos rostos dos componentes, que cantaram o hino deste ano a plenos pulmões.

Quem também entrou em campo com um espírito de decisão foi o casal de mestre-sala e porta-bandeira formado pelos talentosos Phelipe e Rafaela, com um bailado leve e preciso, talentos já reconhecidos nos bastidores da folia e que ainda prometem muitos desfiles esplendorosos na Sapucaí.

Em compensação, quem ficou devendo foi Deborah Colker, coreógrafa da comissão de frente da Imperatriz e que não levou ao ensaio técnico simplesmente nada para prestigiar as milhares de pessoas apaixonadas pela festa e que lotaram frisas e arquibancadas. Nem um passo da coreografia oficial, nem um passo de coreografia alguma. Ficou feio.

Já o coração da escola ousou com bossas e paradinhas comandadas por mestre Noca, que ainda precisa ajustar algumas falhas, principalmente na passagem do fim do corpo do samba para seu refrão principal. E, no carro de som, quem também precisa conversar são Wander Pires, intérprete oficial do samba, e Preto Joia, lendário puxador de tantos anos da Imperatriz e que está de volta como apoio. Durante todo o ensaio foi perceptível o atropelamento das duas vozes, muito por conta dos cacos impressos por Preto durante a performance, se sobrepondo a Wander reconhecido como dono de muitos cacos em suas apresentações.

Beija-Flor

Honrando o seu pacto com São Pedro (afinal de contas, só um acordo celestial poderia explicar a estreita relação entre Beija-Flor e chuva, seja em ensaio ou em desfile oficial), a deusa da Passarela, mais uma vez, exibiu o canto forte de Nilópolis, transformando seu contestadíssimo samba em uma obra cantada do início ao fim, em voz uníssona. Mais uma performance rretocável a ser colocada na conta de Laíla, obviamente.

Outro ponto fundamental para valorizar o samba no ensaio foi a bateria dos mestres Plínio e Rodney, talvez a que passou de forma mais redondinha pela Avenida nesta temporada, mostrando não somente uma cadência de samba, por assim dizer, como também um conjunto harmônico perfeito, dos chocalhos aos repiques, dos tamborins aos surdos, das cuícas às caixas.Tudo funcionou perfeitamente para que o hino da escola rendesse de forma espetacular na pista, sob o coro incansável de cada um dos componentes.

Mais uma destaque no ensaio foi, como sempre, Claudinho e Selminha Sorriso, mestre-sala e porta-bandeira que, após tantos anos de Carnaval, continuam arrepiando a todos, desta vez agregados à comissão de frente da escola, elemento inusitado e que promete surpreender (e, claro, emocionar) no dia do desfile oficial.

Se há um porém a ser dito sobre o ensaio da azul-e-branca da Baixada, ele fica a cargo da evolução um pouco militarizada de suas alas, longe de qualquer estilo de desfile que lembre o ‘brincar’ do Carnaval. Um estilo que já faz parte da história recente (e vitoriosa da Beija-Flor), mas que, definitivamente, não agrada a todos que estão do lado de cá da história.

Unidos da Tijuca

Se, homenageando Boni e contando a história da comunicação, a Beija-Flor fez um ensaio robusto, a Unidos da Tijuca não ficou atrás, acelerou pesado e, em seguida, exibiu uma performance de encher os olhos, credenciando o pavão do Borel, ao que tudo indica, à disputa direta ao título (ao lado de Salgueiro e Beija-Flor).

Organizada e vibrante, a escola teve alguns pontos altos ao longo de toda sua apresentação: a começar pela comissão de frente de Priscila Motta e Rodrigo Nery, que levaram à Avenida figuras remetentes aos quatro últimos desfiles da escola, como as mocinhas que trocavam de roupa em segundos, os mortos-vivos de 2011, a sanfona humana campeã no ano seguinte e os deuses Thor de 2013. Todos ali, reunidos em uma performance afetiva diante de uma plateia que merece respeito.

Outro momento digno de destaque foi a passagem de Julinho e Rute, mestre-sala e porta-bandeira na escola após o campeonato conquistado na Vila Isabel, ano passado. E, na pista, a dupla (paramentada de Dicky Vigarista e Penélope Charmosa) mostrou que não se acomodou com a quadra de notas 10 que recebeu em 2013, esbanjando vigor e energia em seu bailado já conhecido pela pujança.

Já a bateria Pura Cadência, novamente, exibiu sua invejável cartela de tamborins, maior destaque dentre todos os instrumentos comandados por Mestre Casagrande, mais uma vez com seus ritmistas na mão. E, agora, aliado à voz forte (e, ao que parece, menos histriônica em 2014) de Tinga, ex-Vila Isabel. O intérprete teve uma passagem de respeito pelo ensaio de ontem, empurrando um samba que definitivamente pegou na veia de seus componentes.

Componentes estes que brincaram muito, soltos como uma evolução de um desfile de escola de samba pede (uma liberdade que, diga-se de passagem, não vinha sendo vista nos ensaios da Tijuca dos anos anteriores). Um conjunto de fatores que fortalecem o motor da agremiação para que ela desponte nesta reta final da folia como superfavorita ao campeonato. Hoje, a Tijuca é tri (1936, 2010 e 2012), assim como seu grande homenageado, o eterno Ayrton Senna. Vamos esperar a hora da bandeira quadriculada tremular e conferir em que quadra o champanhe da vitória vai estourar.

Este slideshow necessita de JavaScript.

Fotos: Pedro Willmersdorf

* Aos 26 anos, o sagitariano Pedro Willmersdorf é um jornalista carioca apaixonado pelo carnaval, obsessão que ele concilia com outros amores, como a música pop, o cinema, o voleibol e a vida noturna ao lado dos amigos.

Pesquisas relacionadas