‘Na dor e confusão do mundo ainda é possível brotar amor’, diz Gustavo Vaz, que está no longa Depois a louca sou eu


O ator, diretor e dramaturgo está no elenco do filme, que tem direção de Julia Rezende e no qual divide a cena com Débora Falabella. Ele ainda vai gravar a segunda temporada da série’ Aruanas’, que abordará a questão da poluição ambiental e na qual interpreta um antropólogo. Gustavo tem aproveitado a quarentena para se experimentar em uma nova vertente cultural: escreve seu primeiro livro, o romance ficcional ‘Como Não Morrer de Uma Só Vez’ e desenvolve o roteiro do espetáculo ‘A Voz de Iara’, uma experiência catártica. A personagem título é sua mãe, que morreu quando ele dois anos. “Essa jornada em busca dela, obviamente vai falar sobre mim, mas a ideia é não deixar isso hermético em uma relação apenas familiar. Quero fazer paralelos do que ela viveu com a história do Brasil”, ressalta

* Por Carlos Lima Costa

O ator, diretor e dramaturgo, Gustavo Vaz, conhecido por personagens como o antropólogo Gregory, da série ‘Aruanas‘, decidiu mostrar a verve escritor e já está alinhavando sua primeira obra literária: o romance ficcional Como Não Morrer de Uma Só Vez. “Tenho uma trajetória de proximidade com dramaturgia. Este ano de 2021, a ExCompanhia de Teatro, que criei, completa uma década de trajetória bonita no cenário artístico. Venho estimulando esse lugar da escrita incentivado pelo grupo. Mas, neste período de pandemia, eu comecei a escrever mais poesia e também decidi materializar a ideia de um livro. Já tenho umas 40 páginas redigidas. A escrita tem um lugar de expressão muito particular. Diante de uma folha em branco temos todas as possibilidades do mundo”, pontua ele, que, dia 25, estreia nos cinemas com o longa-metragem ‘Depois a Louca Sou Eu’, direção de Julia Rezende.

O romance gira em torno de um homem na faixa dos 30 anos que acaba de morrer e pede uma segunda chance. “Ele quer voltar, por achar que não fez nada de relevante na vida. E recebe a nova oportunidade com a possibilidade de mudar três momentos de sua vida. Vai ter sarcasmo, ironia, temas existenciais que parecem importantes, mas ao mesmo tempo, vai falar da poesia e da beleza que há no banal. Levanto a questão sobre o que é importante na vida. É preciso fazer algo grandioso para ter uma vida relevante ou são nas pequenas atitudes que se constrói uma trajetória bonita? Estou ainda no início, mas está sendo uma experiência absolutamente prazerosa”, explica.

Gustavo, aliás, crê em vida após a morte. “Acredito que tem uma força maior, que nada se perde, tudo se transforma. Isso aqui é uma passagem e a vida vai continuar de alguma forma. Como voltamos? Não sei. Segue em frente para algum lugar, renasce em algo improvável”, divaga. E em meio a várias ideias, o artista de 36 anos traça um paralelo entre as questões que levanta na obra com sua trajetória: “Precisamos absorver as experiências de vida para melhorarmos”, avalia.

Gustavo está escrevendo sua primeira obra literária, que planeja lançar ainda este ano (Foto: Marcio Farias)

Gustavo está escrevendo sua primeira obra literária, que planeja lançar ainda este ano (Foto: Marcio Farias)

Nesse momento, Gustavo está totalmente envolvido com processo de criação, desenvolvendo também um espetáculo solo que lhe é muito caro. Igualmente ao livro que pretende lançar no segundo semestre deste ano, espera também poder estrear até o fim do ano, a peça A Voz de Iara, que tem um tom catártico, afinal a mulher do título é sua mãe, Iara Vaz, que morreu aos 38 anos, quando ele tinha somente dois anos.

“Esse projeto já existe na minha cabeça há anos. Em 2019, colhi depoimentos de minha avó, tios e amigos e planejava estrear ano passado, mas aí veio a pandemia e parou tudo”, conta, acrescentando: “Agora, vou aprofundar muito como será, porque está em um processo de reestruturação por conta dessa pausa. Mas a ideia inicial partiu dessa minha falta de conhecimento sobre a voz da minha mãe, pois não tenho nenhum registro dela. Tinha muita referência a partir de fotos e do que me falavam. A partir dos depoimentos que colhi da família, ela começou a se tornar real. A jornada em busca dela, obviamente vai falar sobre mim, mas a ideia é não deixar isso hermético em uma relação apenas familiar. Quero traçar uns paralelos do que ela viveu com a História do Brasil”, realça.

Mesmo tendo perdido a mãe muito cedo, Gustavo contou com o acolhimento da família. “Depois de um tempo, o meu pai, Gustavo Henrique, se casou novamente e aí a Sandra Sandora, que eu considero a minha mãe, cuidou com todo carinho de mim. Mas o espetáculo faz parte de um processo para entender a minha origem”, completa.

Gustavo, que, no momento, pode ser visto em ‘Aruanas’, na Globoplay, e em ‘Coisa Mais Linda’, na Netflix, está no filme ‘Depois a Louca Sou Eu’, que estreia nos cinemas. Segundo ele, “existem protocolos de segurança à saúde a serem seguidos, mas a vontade é de manter o cinema vivo, o audiovisual acontecendo. É importante de alguma forma não parar. O entretenimento e a cultura são fundamentais para passar por esse momento. O que teria sido de nós sem as músicas, os livros, os filmes, as apresentações online durante a quarentena?”, ressalta.

Rodado em 2019, o filme é baseado em livro homônimo de Tati Bernardi. “Interpreto Gilberto, o protagonista masculino, um psicanalista ansioso e angustiado, que encontra a Dani (personagem de Débora Falabella), e os dois se reconhecem nessa angústia de viver que carregam no peito. O encontro dos deles é muito bonito, porque é nessa dor e confusão sobre o mundo, que começa a brotar um amor”, conta Gustavo, que viveu na vida real um relacionamento amoroso com Débora Falabella.

E Gustavo aguarda também mais um lançamento de sua atuação na sétima arte: O Jardim Secreto de Mariana, do cineasta Sérgio Rezende, pai de Julia Rezende. “É impressionante como o Sérgio e a Julia, com personalidades tão diferentes têm algo muito em comum. Existe uma calma de trabalhar que é tão bonita. Pra mim é tão bom trabalhar com diretores calmos que sabem o que querem, mas, ao mesmo tempo, escutam os atores”, comenta. No longa-metragem, Gustavo dá vida a João, ex-namorado de Mariana (Andreia Horta). “É uma jornada sobre amor e perdão”, diz.

Em breve, Gustavo vai gravar a segunda temporada da série Aruanas, onde contracena com Débora Falabella, sua ex-namorada (Foto: Marcio Farias)

Gustavo Vaz também estará na segunda temporada da série Aruanas, que vai abordar a poluição ambiental (Foto: Marcio Farias)

Ele se prepara também para a segunda temporada da série Aruanas, na qual seu personagem teve envolvimento com Natalie, papel de Débora Falabella. Nesta nova fase, a série aborda os problemas causados pela poluição em uma cidade fictícia. Criada e escrita por Estela Renner e Marcos Nisti, com a colaboração de Carolina Kotscho, “Aruanas” acompanha o trabalho de uma ONG ambiental liderada por mulheres e abordou o desmatamento da Amazônia em sua primeira temporada. Produzida em parceria técnica com o Greenpeace e apoio de cerca de 28 ONGs de atuação internacional, tem as atrizes Taís Araújo, Debora Falabella, Leandra Leal e Thainá Duarte vivendo ativistas ambientais fundadoras de uma ONG em defesa do meio ambiente.

Prova de que a história transpassa a ficção, a produção da trama à época da primeira temporada, esteve com María Fernanda Espinosa Garcés, presidente da Assembléia Geral da ONU. “Então você se dedica ao seu trabalho e ele te leva, de fato, a uma mudança de paradigma. Uma vez eu disse que ‘Aruanas’ é uma série que fala sobre a importância de preservar o que é nosso e, mais do que isso, sobre a importância de nos colocarmos como protagonistas desse movimento de preservação, de cuidado, de luta pelo que é nosso e das próximas gerações. Não é só ficção”, disse Taís Araujo.

Foi bonito ver um movimento de valorização de ativistas, tomando como base a trama da série. Produção e elenco deram o seu apoio a questões como direitos humanos, povos indígenas, meio ambiente, desenvolvimento sustentável, entre outras pautas tão relevantes e significativas em defesa futuro. No final do ano passado, assim como todo o Brasil e o mundo, Gustavo assistiu ao terror das queimadas no Pantanal. Ele revela que também tem abraçado diversas causas em prol do meio ambiente e fez questão de deixar sua assinatura em petições.

Ativista na série, Gustavo opina também como enxerga o Brasil no últimos tempos. “A vida é plural, existe em manifestações infinitas e não há uma maneira ditatorial de se viver ou de ser. Então, um governo que se mostra contrário à vida e à pluralidade, naturalmente desagua em políticas ambiental, cultural, social que também, de alguma forma, só aceita a vida que ele considera relevante. Vivemos uma tragédia em vários aspectos, incluindo a pandemia do Covid-19, é claro. Infelizmente só vamos ter o tamanho disso depois que tudo passar e olharmos para trás, para poder entender o erro que cometemos enquanto sociedade”, analisa Gustavo, que não testou positivo para Covid-19, mas teve pessoas da família que contraíram o novo coronavírus.

Quando a pandemia passar, Gustavo pretende voltar a encenar o drama Tom na Fazenda, que estreou originalmente em 2017. Inclusive, quando essa tragédia do novo coronavírus explodiu no mundo, ele estava encenando a peça escrita pelo canadense Michel Marc Bouchard, na terra natal do autor. “Espero que em breve volte aos palcos, pois é um sucesso de público e crítica. Na época, ainda íamos para os Estados Unidos fazer uma apresentação em Connecticut. Estavam programadas diversas viagens, incluindo uma participação no Festival de Avignon, na França. Tudo foi cancelado. Mas acho que essa peça ainda tem uma trajetória grande pela frente, pois é um espetáculo raro. Assim que estiver seguro para voltar, vamos fazer uma turnê. A gente está morrendo de saudade. O público também deve estar sedento para vivenciar teatro novamente”, observa.

Gustavo relata sua experiência pessoal durante esses 11 meses de pandemia. “Tenho consciência do lugar de privilégio que ocupo nessa sociedade brasileira. Tenho uma casa, tive trabalhos. Agora, passei, provavelmente, como todo brasileiro, apreensivo com o desenrolar dos acontecimentos. O que busquei fazer durante esse processo foi me cuidar através da meditação, de exercícios para manter o equilíbrio sobretudo, e trabalhar. O ser humano não está acostumado a ficar em isolamento. Claro que a gente passa por momentos de tristeza, mas, ao mesmo tempo, também tem muito aprendizado. Hoje, me sinto mais fortalecido para situações adversas”, reflete.

No próximo dia 25, o ator estreia nos cinemas com o filme Depois A Louca Sou Eu (Foto: Marcio Farias)

No próximo dia 25, o ator estreia nos cinemas com o filme Depois A Louca Sou Eu (Foto: Marcio Farias)

Nesse período, um dos projetos que desenvolveu foi Se Eu Estivesse Aí, com a então namorada Débora Falabella. A websérie foi até indicada a prêmios em alguns festivais, como o Asia Web Awards 2020. “Ela foi feita de um jeito muito artesanal, basicamente por mim e pela Débora. A gente conseguiu construir um projeto de audiovisual de qualidade. Sem demagogia, mas só de ter ultrapassado as fronteiras do país e ter participado de festivais já é uma vitória sensacional”, aponta. Mostrava um casal que passava pela pandemia e como essa crise interferia em sua história. “A Débora entrou como parceira de criação, da concepção do projeto. A gente trocava muito sobre tudo, mas o roteiro foi meu”, conta.

Em termos de internet, redes sociais, Gustavo confessa que tem diminuído essa relação. “Até 2021, navegantes da rede! Dando um tempo na internet”, escreveu na mais recente postagem em seu perfil no Instaram. E lá se vão dois meses. “Eu entendo a importância desse espaço para as pessoas se comunicarem, saberem umas das outras. Isso é positivo. As lives que pipocaram, no início da pandemia, nos ajudaram a passar esse momento. Mas a rede social também tem um lado complicado de alienação, de falta de profundidade, de relação entrecortada. Se você não usar bem a rede social e a internet, isso pode fazer muito mal para você em termos de ansiedade e de frustração. Sei que é importante até para mostrar os trabalhos, mas o uso tem que ser mais moderado do que normalmente as pessoas estão acostumadas. Essa saída por uns meses está me fazendo bem”, reflete.

Quando a pandemia começou, Gustavo estava no Canadá apresentando a peça Tom na Fazenda (Foto: Marcio Farias)

Quando a pandemia começou, Gustavo estava no Canadá apresentando a peça Tom na Fazenda (Foto: Marcio Farias)