Musa dos anos 80, Magda Cotrofê lança livro e diz: “A beleza pode te objetificar. Quero sair dessa prateleira”


Aos 62 anos e com 40 de carreira, Magda é autora da autobiografia “O outro olhar de Magda Cotrofê” e desabafa: “Conhecem a Magda sensual, símbolo sexual, musa do biquíni, esse lugar muitas vezes estereotipado. Mas existe outra Magda e que tem outras camadas. Só que falam sempre da mesma coisa. Espero que, com o livro, as pessoas possam enxergar esse outro lado e não só ficar batendo na mesma tecla”

*Por Brunna Condini

A mulher que nasceu há 62 anos e chamou a atenção no carnaval carioca, nas passarelas, nas capas de revistas e na TV, agora assume, com voz autoral, sua própria narrativa. Em 2025, Magda Cotrofê celebra 40 anos de trajetória profissional com o lançamento da autobiografia ‘O Outro Olhar de Magda Cotrofê’. Muito além da sensualidade e do glamour que marcaram sua imagem nos anos 1980, o livro pretende revelar a mulher que ousou ser livre em um país que até hoje se incomoda com a liberdade feminina.

Com franqueza, humor e sem esconder os momentos de dor, Magda revisita memórias em seu livro. Ela fala dos desafios de envelhecer em um meio obcecado pela juventude, compartilha o processo que a levou de símbolo de uma era à atuação como curadora do Bikini Art Museum, na Alemanha, e jurada internacional do Janara Award, voltado ao beachwear mundial. “Todo mundo conhece a Magda musa… mas quero que conheçam a outra Magda: mãe, filha, divertida, múltipla. Quero sair da ‘prateleira’ onde me colocaram”.

Conhecem a Magda sensual, símbolo sexual, musa do biquíni, esse lugar muitas vezes estereotipado. Mas existe outra Magda, uma que faz um monte de coisas, que tem outras camadas. Só que falam sempre da mesma coisa. Espero que, com o livro, as pessoas possam enxergar esse outro lado e não só ficar batendo na mesma tecla – Magda Cotrofê

Magda Cotrofê lança autobiografia e revisita a mulher por trás da imagem pública: “Quero sair da prateleira onde me colocaram e mostrar todas as minhas camadas" (Foto: Pino Gomes)

Magda Cotrofê lança autobiografia e revisita a mulher por trás da imagem pública: “Quero sair da prateleira onde me colocaram e mostrar todas as minhas camadas” (Foto: Pino Gomes)

Ela conta como foi mergulhar nas próprias lembranças. “Foi bom, mas doído também. Tem muita gente que me faz falta e já partiu. Falo dos encontros que marcaram minha vida, com Silvio Santos, Hebe Camargo, Jô Soares, Pelé, e com os grandes nomes da moda. Tem um outro lado de coisas que não foram tão bacanas, que também compartilho, mas não dou nomes, porque meu objetivo não é polemizar para vender livro, e nem expor ninguém. Estou dividindo minha história, pensamentos, é isso”. Na conversa, Magda também questiona a forma como a mídia ainda hoje insiste em rotular: “É sempre assim… falam de assédio, depressão, do casamento que não deu certo. Por que não falam da superação? Da reinvenção?”.

Nascida em Campos dos Goytacazes, Magda começou a patinar aos 14 anos e chegou a dar aulas de patinação artística. Da infância, algumas lembranças não entraram na biografia porque “eram muitas informações, muitas lembranças para escolher… quem sabe num próximo livro?”. Ela compartilha conosco com muito carinho a memória do pai, Miguel Arcanjo. “Nem ele, nem minha mãe estão mais aqui. Sinto muita falta. Mas tenho uma lembrança muito feliz dele com os filmes. Meu pai não era artista, era técnico eletrônico, e adorava cinema. Consertava projetores, levava para casa, montava sessões com telão e cadeirinhas na sala ou nas praças, para todo mundo assistir. Às vezes, eram filmes de terror, de vampiro; outras, de patinação… e eu ficava ali, hipnotizada. Acho que, sem saber, ele levou a arte pra dentro de mim. Talvez tenha sido ali que começou esse fascínio pelo universo artístico. E na patinação”.

"Meu objetivo não é polemizar e nem expor ninguém. Estou dividindo minha história, pensamentos, é isso" (Foto: Pino Gomes)

“Meu objetivo não é polemizar e nem expor ninguém. Estou dividindo minha história, pensamentos, é isso” (Foto: Pino Gomes)

Foi a patinação que a levou à vitrine da moda local e, pouco tempo depois, ao Rio de Janeiro, onde iniciou sua carreira na TV, em 1985, o ano do seu “divisor de águas”. A beleza logo a transformou em musa. Mas junto com a projeção, vieram os estigmas: “Nos anos 80, quem tinha um corpo bonito era destinada a modelar com lingerie e biquíni. A beleza te colocava num pedestal, mas também podia te limitar, te objetificar”. Magda recorda como, na época, a nudez era encarada com um certo ar de liberdade coletiva, uma espécie de grito pós-ditadura:

Era uma vibe de liberdade, mas a gente não tinha muita escolha. Não dava tempo nem de pensar. Você aceitava e fazia. Era mais um trabalho – Magda Cotrofê

Magda Cotrofê nos anos 1980 (Foto: Paulo Carotini)

Magda Cotrofê nos anos 1980 (Foto: Paulo Carotini)

Musa do carnaval, modelo que popularizou o uso dos biquínis asa delta e fio dental, capa em três anos consecutivos da revista “Playboy” (1985, 86 e 87), Magda diz que apesar de não ter arrependimentos, a exposição do corpo, ao longo da vida, foi sempre uma faca de dois gumes. Ela relata, por exemplo, os efeitos emocionais de estar em evidência quando enfrentou um distúrbio hormonal que alterou seu corpo por volta dos 21 anos. “Sofri muito com isso. Me cobrava demais. Sempre fui muito exigente comigo mesma. Era chamada de ‘caniço’ na infância. De repente, me vi cheinha, e isso foi devastador. Até hoje, quando ganho alguns quilos, me cobro, porque não me reconheço”. Ainda assim, faz questão de pontuar que, o que mais valoriza, está para além da estética:

Envelhecer faz parte. O importante é não virar uma caricatura de si mesma. Tento preservar isso. Faço um procedimento aqui, outro ali, mas sem exageros. Valorizo minha identidade – Magda Cotrofê

"Todo mundo só conhece a Magda sensual, símbolo sexual, musa do biquíni, esse lugar estereotipado. Mas existe outra Magda, que tem outras camadas" (Foto: arquivo pessoal)

“Todo mundo só conhece a Magda sensual, símbolo sexual, musa do biquíni, esse lugar estereotipado. Mas existe outra Magda, que tem outras camadas” (Foto: arquivo pessoal)

Reinvenção e potência

Com o sucesso que fez nos anos 80, Magda trabalhou como atriz fazendo teatro, televisão e chegou a fazer cinema. Na TV, por exemplo, integrou o elenco do humorístico ‘Viva o Gordo’, ao lado de Jô Soares. Ao longo dos anos, se reinventou muitas vezes. Foi produtora cultural, criou marcas de biquínis e empreendeu. Hoje, atua como curadora do Bikini Art Museum, na Alemanha, e como jurada internacional do Janara Award, voltado à moda beachwear. Orgulha-se da trajetória e também do legado: sua filha, Thalita Cotrofê, é estilista e integra o braço global da marca Farm. Magda também é mãe de Thiago.

Acho que meu maior ato de reinvenção é estar sempre em movimento. Nada me para por muito tempo. Levo comigo a cultura brasileira, o biquíni, o estilo, o corpo que ocupa espaço, e a liberdade que ainda incomoda muita gente – Magda Cotrofê

A maturidade trouxe voz. E coragem para dizer o que, por muito tempo, não se dizia. Magda admite que em muitos momentos, perdeu o controle sobre a própria imagem. Era muito nova e empresariava a si mesma. “A grande mídia te desenha, te coloca onde quer. Eu era solícita, ingênua e fui indo”. Ainda hoje, sente o peso do machismo. Relata, que ao ocupar espaços de prestígio, como a própria curadoria do museu, já percebeu insinuações maldosas. “Já disseram que só estou lá porque tenho caso com alguém. Às vezes me olham torto em eventos por estar bonita, bem cuidada, solteira. Acham que sou ameaça. Não sou. Respeito mulheres, casais, homens comprometidos. Só quero o meu espaço”.

Bikini Art Museum, na Alemanha (Foto: Acervo pessoal)

Bikini Art Museum, na Alemanha (Foto: Acervo pessoal)

E o que ela diria à Magda dos anos 80? Ela responde sem hesitar: “Que ponderasse mais antes de tomar decisões. Que tivesse calma. Mas não me arrependo mesmo de nada. Tudo fez parte da minha construção”.

E o que ela deseja que o leitor, em especial, as mulheres, levem do  livro? “Que vejam a Magda mulher. Que se identifiquem com a jornada. E que as mulheres entendam que podem se reinventar. E que a gente siga abrindo mais espaço umas para as outras”.