Arte & Literatura

Maria Luisa Mendonça abre sua primeira exposição individual e mostra nova faceta: “Eu trabalho com a pintura de ação e entro na tela”

Além da mostra em cartaz no Centro Cultural Cândido Mendes, em Ipanema, a atriz ainda segue com projetos no cinema, teatro e televisão. Vem!

Publicado em 15/12/2016 | Por Leonardo Rocha

Uma exposição inteirinha sob os pés de uma grande mulher. Indiscutivelmente, Maria Luisa Mendonça é daquelas atrizes que sabem exatamente onde pisa na hora de selecionar bons personagens. Conhecida por embarcar em viagens de grande densidade no teatro, no cinema e na televisão, a artista de 46 anos é, de fato, um sucesso de crítica e público. Prova disso? O tom visceral que deu a sua premiada Blanche Dubois, de “Um Bonde Chamado Desejo” – montagem de Rafael Gomes para o texto de Tennessee Williams. A grande novidade é que paralelamente à carreira de atriz, Maria Luisa tomou coragem e colocou para fora um outro lado pouco conhecido do público: o de artista plástica. Em entrevista exclusiva para o HT, ela contou detalhes sobre sua primeira mostra individual batizada de “Eu Me Registrarei Sob um Nome Falso”.

Maria Luisa Mendonça abre sua primeira individual (Foto: Divulgação)

Maria Luisa Mendonça abre sua primeira individual (Foto: Divulgação)

“É a minha primeira individual. Já tem uns 18 anos que eu trabalho com as artes plásticas e, agora, surgiu a oportunidade de colocar tudo isso para fora. Estou muito feliz. Acho que quando você entra em outra seara, tem que chegar devagar. Criei um trajeto que é cênico dentro das artes plásticas. A tela vira palco, o palco vira tela. É uma conversa com impregnação de tinta, mas é uma conversa que não está negando meu lado atriz, isso que eu acho muito sincero. É uma grande conversa das artes cênicas com as artes plásticas. Existe uma grande investigação por trás. Eu trabalho com a pintura de ação e entro na tela”, disse ela, que frequentemente faz uma performance onde a tela é pintada ao vivo com os pés da atriz. “É um local de experimentação. Essa ação com os pés é uma técnica muito usada para dar espaço para o pintor se integrar com a tela. Existe todo um pensamento pictórico e ao mesmo tempo um trajeto que eu trago do teatro, um trajeto cênico. É uma conversa sobre as duas artes com o expressionismo abstrato”, destacou.

A atriz durante performance na mostra (Foto: Divulgação)

A atriz durante performance na mostra (Foto: Divulgação)

Formada da Casa das Artes de Laranjeiras (CAL), Maria Luisa sempre flertou muito fortemente com a pintura. Tanto que mesmo enquanto estudava teatro, sentia a necessidade de externar seus sentimentos também de formas visuais. “Quando o teatro surgiu na minha vida, ali pelos 16 anos, eu já pensava muito nas artes plásticas. Fiz parte de uma companhia e, quando esse grupo acabou, me fez muito querer ter um lugar de experimentação. O ateliê é isso, é onde faço as minhas investigações, que vão se juntando mesmo: do teatro, das artes plásticas, do cinema”, entregou ela, que recentemente reservou um espacinho de sua própria casa na Urca para espalhar as tintas. “Agora também estou morando nele, na parte de cima. Meu ateliê é maior que a minha casa (risos), porque trabalho com madeira e tenho esculturas que ocupam muito espaço”, contou ela.

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A exposição, que segue em cartaz no Centro Cultural Cândido Mendes, em Ipanema, no entanto, veio para se juntar a um momento de efervescência na carreira de atriz. Além da sacola de prêmios conquistados no teatro só neste ano – Shell, APCA (Associação Paulista de Críticos de Artes), Aplauso Brasil e no Qualidade Brasil-, Maria Luisa Mendonça também está prestes a estrear três filmes rodados em 2016 — “O Olho e a Faca”, de Paulo Sacramento; o longa de estreia de Mathias Mangin, ainda sem nome, em que vive a filha do personagem de José Celso Martinez Corrêa, e “Todo Clichê do Amor”, de Rafael Primot. Resumindo: trabalho foi o que não faltou para a artista.

Mas tantos prêmios vieram através da intensa imersão em sua Blanche Dubois de “Um Bonde Chamado Desejo”, que estava em cartaz em São Paulo e tem previsão para chegar em março, no Rio, mais precisamente no Teatro Tom Jobim. “Ela é uma personagem muito icônica na história da literatura. Se a gente pudesse comparar ela seria uma espécie de Hamlet para o feminino. É uma grande personagem. Na trama, ela apanha tanto da vida que passa a transitar entre a realidade e fantasia como uma espécie de fuga”, adiantou ela, que sobe no palco ao lado do ator Juliano Cazarré.

maria Luisa em cena na peça "Um Bonde Chamado Desejo" (Foto: Divulgação)

maria Luisa em cena na peça “Um Bonde Chamado Desejo” (Foto: Divulgação)

A história narra a decadência financeira, psíquica e emocional de Blanche, que se abriga na casa da irmã Stella para fugir do passado e se depara com novos conflitos. Proposta que abre um debate tão atual em nossa sociedade: o impasse entre o machismo e o feminismo. “A gente tem que ter respeito pelo ser humano independente de sexo, cor ou qualquer outra diferença. Por dentro todo mundo é vermelho de sangue, né? Eu acho que a gente vive uma castração tão grande desse machismo, que o sensível vai ficando cada vez mais abafado. E eu trato disso muito na peça. É tão bom quando a gente pode trocar, compartilhar”, ponderou.

E, para quem achou que Mendonça ainda não tinha planos para voltar para a televisão se enganou. Depois da exposição, da peça e dois três filmes, a atriz ainda se prepara para viver uma mulher sombria na série “Vade-Retro”, da Rede Globo. “Eu faço uma bruxa, mulher do Tony Ramos, que vai ser um diabo. Me diverti muito. Vai ter aquela minha risada de bruxa e tudo, sabe? É uma série cheia de humor. A gente vai brigar bastante em cena, mas tudo com muita comédia. Foi um prazer me encontrar nesse gênero, ainda mais ao lado do Tony, que é muito querido”, entregou. No folhetim, Tony Ramos vai viver Abel Zebu, empresário que vive dando palestras de ética duvidosa, e Maria Luisa será sua mulher, de origem inglesa e amante dos rituais e que detesta o Brasil. A série, que tem previsão para estrear em abril mistura elementos da comédia com terror.

Maria Luisa Mendonça em cena da série “Vade-Retro” (Foto: Divulgação)

Maria Luisa Mendonça em cena da série “Vade-Retro” (Foto: Divulgação)

Agora, quando questionada sobre os tempos de cólera que passa a classe artística no Brasil, a atriz ressaltou a importância da cultura para a construção de um povo. “Nós somos insistentes. A gente não vai parar nunca. As artes trazem essa mimesis que a gente olha e se reconhece na hora. São nos momentos de crise que mais se precisa de cultura e educação. É na arte que a gente coloca para fora os sentimentos e mostra as dores e as delícias da sociedade em que se vive”, completou.

Serviço:
“Eu Me Registrarei Sob um Nome Falso”
Galeria Maria de Lourdes Mendes de Almeida — Rua Joana Angélica 63, Ipanema (2525-1006).
Seg. a sex., das 14h às 20h; sáb., das 16h às 20h. Até 17/12. Grátis.
Classificação livre.

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