Arte & Literatura

Jozias Benedicto lança livro de contos que tem a piscina como elemento central. “Elas são o que une os contos e os personagens”

O escritor, que também faz arte visual, está em cartaz com outros 25 artistas na exposição "Aquilo Que Nos Une", no Espaço Caixa Cultural, no Rio de Janeiro. “Nesses trabalhos eu utilizo a poesia falada, gravada em uma instalação sonora, e a poesia bordada em lenços”

Publicado em 08/06/2016 | Por Julia Pimentel

Combinar piscina, literatura e personagens estranhos pode parecer inesperado. Mas foi justamente isso que o autor Jozias Benedicto fez com o livro “Como Não Aprender A Nadar”, que lançou recentemente no Rio de Janeiro. A obra é uma reunião de 22 contos que tem as piscinas como elemento central de todos eles. Em entrevista ao HT, o escritor contou que esse tema único aparece de diferentes formas nos textos. “As piscinas estão presentes como um elemento do cenário, uma metáfora ou de forma acidental. Mas elas são o que une os contos e os personagens, que se repetem em diferentes histórias. O livro, na verdade, é uma realidade fragmentada. E, com a combinação de cada conto, forma um caleidoscópio que é montado na cabeça do leitor”, explicou.

E, caso esteja curioso para saber o porquê das piscinas, caro leitor, o HT te explica: Jozias nos contou que nadar é algo que o cerca desde a infância. Quando criança, ele teve aula de natação com a campeã olímpica Maria Lenk. Mas, nem por isso, nadar é muito a dele. “Eu, efetivamente, não aprendi a nadar. Não por culpa dela, claro, mas por uma deficiência minha”, confessou o autor. Embora o sucesso na natação não seja o mesmo da literatura, as piscinas não saíram da vida do autor. “A piscina surgiu como uma memória de infância. Em um dos contos, no primeiro que eu escrevi, ela é um elemento muito importante. E a partir daí, eu fui vendo que a inspiração foi surgindo por si só. Nesse ponto inicial, o ‘aprender a nadar’ também é uma metáfora de superação e crescimento. E o ‘não aprender a nadar’ seria a pessoa que é meio esquerda à vida, que cai nas piscinas e nunca aprende ou aprende natação de forma tumultuada. Eu comecei escrevendo sobre piscina dessa forma, mas a coisa foi crescendo e ganhando outros significados”, relembrou.

Jozias Benedicto lançou o livro "Como Não Aprender A Nadar" este mês, no Rio (Foto: Divulgação)

Jozias Benedicto lançou o livro “Como Não Aprender A Nadar” este mês, no Rio (Foto: Divulgação)

E fazer uma coletânea só sobre textos com esse elemento em comum não foi coincidência. Segundo Jozias, a partir de uma vivência literária, ele percebeu que um livro precisa ter um mesmo eixo central. E, ao organizar sobre o que já tinha de material, o escritor produziu dois livros: “Estranhas Criaturas Noturnas”, lançado em 2013 e “Como Não Aprender A Nadar”, recentemente. “Os meus contos sem piscinas envolvidas foram o embrião do meu primeiro livro. Embora não tivessem esse item, tinham elementos em comum, que eram pessoas estranhas. A partir do momento que eu fiquei mais ligado nas piscinas, esse ponto em comum começou a fazer parte dos meus textos de maneira inconsciente”, contou.

Os contos do novo livro do autor, embora tenham um mesmo elemento central, variam de gênero desde história policial a textos sentimentais de amor. “São temáticas variadas que, além do eixo comum da piscina têm uma certa estranheza nos personagens também, que é uma característica da minha literatura”, disse Jozias. Sobre os personagens, o escritor disse que são figuras do nosso cotidiano, porém, com algo de instigante. “São pessoas que muitas vezes nós conhecemos e convivemos, mas que em certo dia, fazem algo que te surpreende. Aí, você descobre que essa pessoa tem um segredo imenso. E isso me chama muita atenção na vida”, explicou.

Jozias Benedicto (Foto: Divulgação)

Jozias Benedicto (Foto: Divulgação)

Além do trabalho como autor de contos e poesias, Jozias Benedicto também é artista visual. Para o livro “Como Não Aprender A Nadar”, o escritor combinou os textos às fotografias de piscinas que encontrou durante o processo. “A medida que eu vim fazendo os contos, eu também fui fotografando. Eu tive a visão de fazer o livro com imagens integradas, como ilustrações e fotos”, completou. E essa dobradinha do artista está além das páginas da nova obra. Jozias participa da exposição “Aquilo Que Nos Une”, que está em cartaz no Espaço Caixa Cultural, no Rio, até junho. Na mostra, que reúne outros 25 artistas plásticos, ele faz instalações visuais com o uso de palavras. “Nesses trabalhos eu utilizo a poesia falada, gravada em uma instalação sonora, e a poesia bordada em lenços”, explicou o artista que também pinta e faz gravuras.

Instalação artística de Jozias Benedicto na exposição "Aquilo Que Nos Une" (Foto: Divulgação)

Instalação artística de Jozias Benedicto na exposição “Aquilo Que Nos Une” (Foto: Divulgação)

Sobre o atual momento da arte, em meio à tanta evolução tecnológica e crise política e moral no Brasil, o escritor afirmou que está cada vez mais difícil e desafiador produzir cultura. “Atualmente tem uma concorrência muito grande dos outros meios. Eu sempre me pergunto quem vai ter tempo para pegar um livro, ler e entender aquela obra. Eu vejo essa busca por novas formas de atingir novos públicos como um grande desafio. E outra dificuldade que eu destaco é que, hoje em dia, está tudo tão complicado e acirrado, que o escritor não sabe como escrever algo para que atenda às preocupações do que é politicamente correto. Porém, eu acho que não existe resposta para esses desafios. O artista, na solidão de seu ateliê ou escritório, é que tenta dar essa resposta” argumentou Jozias Benedicto.

 

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