Arte & Literatura

Inglesa Jeanette Winterson lança ‘Frankissstein’, releitura do clássico britânico, mas com personagem trans

No livro, a autora, que acaba de completar 60 anos, também examina o processo criativo e suas semelhanças com o empreendimento do doutor Victor Frankenstein, criado por Mary Shelley no começo do século XIX

Publicado em 27/12/2019 | Por Heloisa Tolipan

*Por Jeff Lessa

Quando “Frankenstein” foi publicado na Inglaterra, em 1818, Mary Shelley, a autora, não levou crédito. No entanto, a história de Victor Frankenstein, o jovem estudante de ciências naturais que criou um monstro feito de partes de cadáveres em seu laboratório, alcançou imenso sucesso. Além de gerar um novo gênero de horror (o terror gótico), influenciou a literatura e a cultura popular ocidentais como poucas outras obras fizeram até hoje. Para falar a verdade, continua influenciando. A escritora lésbica Jeanette Winterson lançou este ano o badalado romance “Frankissstein”, uma elogiada releitura tanto do clássico “Frankenstein” quanto de sua criação por Mary Shelley. O livro transita no tempo, criando um paralelo entre o momento em que a história do monstro começa a ser escrita pela jovem, em 1816, e a Inglaterra pós-Brexit, quando um cientista tenta reanimar partes de um corpo humano.

Em ‘Frankisstein’, Jeanette Winterson passeia entre o presente e o passado (Reprodução)

No romance, a autora também examina o processo criativo e suas similaridades com o empreendimento de Victor Frankenstein, uma vez que ele aperta um botão e a vida surge de algo inanimado, partes de diversos corpos costuradas. Mais ou menos como um livro, que também surge do inanimado. No caso de “Frankisstein”, ainda podemos dizer que a autora pode ser considerada uma espécie de ladra de covas, uma vez que prefere criar uma história a partir de um romance com 200 anos de idade a dar vida a uma obra inédita, totalmente nova.

A inglesa Mary Shelley começou a escrever ‘Frankenstein’ em 1816, quando tinha apenas 19 anos (Reprodução)

No romance, os personagens atuais encontram eco em personagens do romance de Mary Shelley e em figuras históricas britânicas. Na Inglaterra do Brexit, uma médica transgênero chamada Ry (apelido de Mary) está se apaixonando por Victor Stein, festejadíssimo professor que lidera o debate sobre Inteligência Artificial (uma maneira de criar vida a partir do inanimado). Nesse meio tempo, Ron Lord (alusão a Lord Byron, poeta britânico que influenciou o romantismo e viveu entre 1788 e 1824), recém-divorciado e morando de novo com sua mãe, quer enriquecer lançando uma linha de bonecas infláveis para homens solitários. Do outro lado do Atlântico, em Fênix, Arizona, um depósito especializado em criogenia abriga dezenas de corpos legal e clinicamente mortos, esperando para retornar à vida. Em 1816, a jovem Mary Shelley, de 19 anos escreve uma história sobre criar uma forma de vida não-biológica.

Jeanette Winterson diz que sua mãe adotiva era um monstro, ‘mas era meu monstro’ (Reprodução da internet)

“Quis mostrar o que está acontecendo agora e aonde isso pode nos levar”, disse Jeanette Winterson em uma entrevista. “Já chegamos muito mais longe do que muita gente consegue perceber. Histórias de sucesso de cérebros de porcos sendo ‘reanimados’ depois da morte, por exemplo”. Um dos personagens de “Frankisstein” pergunta: “Donald Trump vai ter seu cérebro congelado?”. A resposta, com humor tipicamente britânico: ”O cérebro precisa estar completamente funcional no momento da morte clínica”.

Para a autora, “esse futuro robótico poderia ser adorável, mas não será, porque somos humanos e vamos estragar tudo. Uma superinteligência – por que algo mais inteligente que nós deveria manter algo tão fútil, feio, temerário, autodestrutivo e estúpido como nós?”.

Embora não dirija mais sua motocicleta (por insistência de sua companheira, a escritora e psicanalista Susie Orbach, com quem se casou em 2015), Jeanette Winterson ainda se desloca por Londres de limobike, um serviço de táxi em motocicleta, em que o passageiro vai na garupa. Comemorando 60 anos em 2019, a ex-enfant terrible da cidade de Accrington participa da cena literária há mais de 30 anos: “Ainda estão comprando meus livros, e isso é sensacional. Não vou desistir, não vou embora”, diz, comparando-se a um cãozinho terrier. No entanto, em 2003 a escritora Ruth Rendell, que era como uma mãe para Jeanette, dedicou seu thriller “The Rotweiller” (“O Rotweiller”) para ela…

A história da autora de “Frankisstein” se tornou conhecida através de seus próprios livros. Em seu primeiro romance, “Oranges Are Not the Only Fruit” (“Laranjas Não São as Únicas Frutas”, em tradução literal), de 1985, ela transformou em ficção sua infância como a filha adotada crescendo num ambiente ardorosamente pentecostal. O best-seller “Why Be Happy When You Could Be Normal?” (“Por Que ser Feliz Quando Você Pode Ser Normal?”, em tradução literal) elabora um doloroso inventário dessa infância sem amor e do colapso na meia idade. O título do livro foi a resposta da mãe adotiva de Jeanette ao descobrir a homossexualidade da filha: “Ela era um monstro, mas era meu monstro”, faz questão de frisar. “Tinha muito do meu passado com que eu precisava lidar”.

Um dos narradores de “Frankissstein”, Ry, é trans. “Transgênero é interessante, porque o gênero é muito chato e monótono. Gênero já causou muito problema”, diz Jeanette. ”Não penso em mim como mulher ou homem, apenas penso em mim como ‘eu’. Nem estou certa se me vejo como humana. Não me sinto particularmente humana. Meus amigos mais próximos dirão ‘É, talvez, ela é mais tipo uma criatura. Não um animal, mas uma criatura’. Nem sempre eu entendo o humano”. Mas, como ela mesma costuma dizer, “estou consciente da maneira como o mundo me percebe. As mulheres não recebem a mesma liberdade de ação nem a mesma tolerância. Se você diz ‘quero ser um escritor fantástico, acho que sou muito bom nisso, quero mudar o romance’ e você é homem, tudo bem”.

Jeanette Winterson não tem a menor intenção de parar de escrever. “Nunca! Quero morrer trabalhando. Não é trabalho, é, quando você ama o que faz?”. Mas ela ainda escreve do fundo da ferida, como costuma descrever. “Feridas não se fecham. Elas se tornam cicatrizes, mas sempre serão os lugares onde você mais pode se ferir. Não é a mesma coisa que a loucura, é saber que você tem vulnerabilidades”, explica. “Você tenta trabalhar com elas e eu acho que isso te faz mais receptiva ao mundo e ao que está acontecendo”.

Quando se sente triste, o que não é comum nos dias que correm, ela diz a si mesma: “Bom, você não está morta e você não está em Accrington”.

Simples assim.

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