Arte & Literatura

Gustavo de Carvalho assina figurino de performance para a obra de Monteiro Lobato

O premiado artista visual, que se formou no SENAI CETIQT, tem uma marca com seu nome e acredita que a moda tem como principal objetivo estimular questionamentos e provocar indagações. O novo projeto foi idealizado depois de um mergulho nos parangolés de Hélio Oiticica

Publicado em 13/05/2019 | Por Heloisa Tolipan

*Por Karina Kuperman

Do SENAI CETIQT para o mundo. Aos 28 anos, o artista visual Gustavo de Carvalho coleciona prêmios. Em 2013, foi vice-campeão internacional do concurso global da Coca-Cola para desenvolver figurino para a cantora Jessie J. se apresentar no Rock in Rio. Dois anos depois, em 2015, ganhou o Prêmio Saruê por desenvolvimento de figurino performático para o discurso do diretor Rodrigo Carneiro, no Festival de Brasília de Cinema Brasileiro. Em 2017, criou magníficos figurinos inspirados nos parangolés de Hélio Oiticica para um projeto que venceu a competição nacional da L’Oréal Colour Trophy Brasil e que representou o Brasil na edição internacional. Seus desfiles também dão o que falar: em 2017,  ‘Xingu’ foi indicado ao prêmio de público pela Vogue Portugal e também ao de Melhor Filme Internacional de moda pelo Festival Fashion Films da Semana de Moda de Porto, em Portugal.

Gustavo de Carvalho em um dos figurinos do novo projeto (Foto: Reprodução/Facebook)

Gustavo, que nasceu e foi criado na Praça Seca, no Rio, percebeu logo a paixão pelas artes. Formado pelo SENAI CETIQT, ele entende o diferencial da escolha da instituição em sua vida. “O SENAI CETIQT, de fato, foi um diferencial. Não apenas porque naquele momento, em 2008, quando comecei, recebi muito apoio, mas porque continuam incentivando o meu trabalho até hoje. Sempre sou convidado para palestras, projetos e todos acreditam no meu potencial”, elogia. “Cursei modelagem, o que abriu um leque enorme de atuação. Aprendi a costurar, modelar, aproveitei tudo que a instituição tinha a me oferecer. Virei noites no laboratório de plotagem. Me dediquei muito”, lembra.

Exposição Interativa NAL-Nas Águas da Leitura. O figurino é de Gustavo de Carvalho (Foto: Guilherme Correa)

Exposição Interativa NAL-Nas Águas da Leitura. O figurino é de Gustavo de Carvalho (Foto: Guilherme Correa)

De fato, seus projetos são um sucesso. A dedicação à exposição interativa NAL-Nas águas da Leitura, de Simone André, no Centro Cultural da Justiça Federal, é apenas uma das respostas disso. Totalmente multimídia, a performance reúne falas, palestras de críticos e apresenta obras com interferência em livros de Monteiro Lobato (1882-1948), da coleção para crianças, mas que “não tinha função de entreter, mas de alertar, denunciar”, ressalta Gustavo, que assina o figurino de “A chave do tamanho”, que, de fato, aborda assuntos complexos para jovens e crianças. Toda a história gira em torno da tentativa de acabar com a Segunda Guerra Mundial. Logo, tanto o lúdico como o folclore brasileiro, elementos muito presentes no texto, são colocados de forma paradoxal com fatos históricos e reais. “Falar de assuntos como a guerra e o nazismo para crianças não é algo fácil até os dias de hoje. Vamos imaginar então como devia ser muito mais intangível há quase 80 anos! A coragem inerente a obras como essa transformam a arte e a sociedade”, diz.

Parte da performance que revisita a obra de Monteiro Lobato (Foto: Guilherme Correa)

“Eu entrei nesta história por conta do fotógrafo Guilherme Correa, que fez a ponte do meu trabalho com o da Simone. Ele fotografou o desfile que eu apresentei no final de dezembro do ano passado no Museu de Arte do Rio de Janeiro, em homenagem a Hélio Oiticica (1937-1980), que venho pesquisando desde que terminei o Xingu. E não foi imediato, porque queria entender o que era de fato esse projeto. Quando tive o primeiro contato, eu entendi que Simone decidiu revisitar “A chave do tamanho” pelo teor do texto, especificamente. Monteiro Lobato retrata a Segunda Guerra Mundial, Hitler, tropas aliadas. Na década de 40, ele falou de guerra de intolerância. Isso tudo é muito atual. Hitler perseguiu todo mundo que pensava diferente, isso não soa atual?”, questiona.

Gustavo de Carvalho se inspira em Monteiro Lobato e cria figurinos pura arte (Foto: Guilherme Correa)

Gustavo de Carvalho se inspira em Monteiro Lobato e cria figurinos total artsy (Foto: Guilherme Correa)

“Quando comecei a pesquisar o Hélio Oiticica eu sabia que ele lidou com todo tipo de censura que o país podia fazer e venceu. Foi ovacionado no mundo todo. Vi similaridade de ‘A chave do tamanho’ com o trabalho que eu desenvolvo sobre Oiticica. A pesquisa com Hélio é interessante, porque ele era uma criança quando esse livro foi lançado. Talvez ele tenha lido e se influenciado. Ele denunciou tudo que estava acontecendo aqui para o mundo todo. Esses trabalhos se esbarram aí”, conta.

A relação entre arte e vestuário permeia a concepção de Gustavo de Carvalho (Foto: Guilherme Correa)

A composição do figurino, portanto, não poderia ser outra: sua concepção busca trazer elementos como o tule, patchwork, franjas, máscaras e algodão, ao mesmo tempo que relaciona esses elementos com a cor e o movimento orgânico, relacionados diretamente com a manifestação cultural do Parangolé de Hélio Oiticica. “Busquei, de maneira orgânica, levar possibilidades que estão na obra de Monteiro Lobato. A peça de franjas de látex, por exemplo, é uma releitura do parangolé e uma referência ao Visconde de Sabugosa. A construção do figurino foi de maneira semiótica, buscando trazer pontos chaves da história e revisitar na contemporaneidade”, explica.

A confecção de cada peça tem clara referência ao universo múltiplo Monteiro Lobato (Foto: Guilherme Correa)

A confecção de cada peça tem clara referência ao universo múltiplo Monteiro Lobato (Foto: Guilherme Correa)

Gustavo de Carvalho que se formou em modelagem em 2011, pelo SENAI CETIQT,  já em 2014 desfilou uma coleção na semana de moda de Nova York e na semana de Santiago. Ao voltar para o Brasil, porém, decidiu mudar toda a direção do trabalho. “Quando comecei a colher o que eu plantei, eu entendi que deveria apostar em mais um diferencial. Meus desfiles viraram performances. No meio dessa trajetória, eu me descobri artista. Não comecei me entendendo artista, mas de fato era o que sempre quis. Elaborar projetos que mergulham a fundo na história podem ser meu legado”, analisa, acrescentando que ter sua marca homônima “foi o divisor de águas” e se deu a oportunidade de experimentar, errar, acertar, ir de encontro ao que é importante para ele.

Gustavo de Carvalho (Foto: Reprodução/Facebook)

Quando idealizou a coleção “Xingu”, em 2017, levou seus protestos políticos à passarela. “Disseram que eu tinha acabado com a minha carreira por me posicionar politicamente em 2017. Engraçado que hoje todo mundo diz que moda é política, mas me chamaram de louco. Temos que ser abusados, ousados, ir além”, afirma.

Quando entregou Xingu foi que Gustavo mergulhou na obra de Helio Oiticica. “Estava em São Paulo e decidi regressar ao Rio de Janeiro. Queria estar aqui novamente para, de fato, vivenciar o que ele tanto expressou. Depois que me formei, eu fui para São Paulo e pude desfilar e criar. Mas o Rio é minha cidade natal e inspirou Hélio Oiticica a fazer Parangolé, subir o morro da Mangueira. Queria estar aqui e entender de fato as perspectivas da sua obra. Nós é quem criamos nosso espaço de fala. Estou projetando minha carreira para o mundo inteiro e nossa arte inspira e nossa cultura transforma. Somos referências mundiais. Está aí a obra de Hélio Oiticica para provar”, reflete.

“O meu sonho na moda é abrir novos caminhos, possibilidade de questionamentos, indagações, ir ao encontro do novo. O mundo está se renovando em uma velocidade muito grande. Quem não continuar seguindo em frente irá ficar para trás. Já sabemos que a moda não é apenas roupa, mas sim uma manifestação cultural, a extensão de nós mesmos. Tenho certeza que abrirei novos caminhos para as novas gerações. Esse é o meu objetivo”, conclui.

Serviço:
Nas Águas da Leitura
Centro Cultural da Justiça Federal
Av. Rio Branco, 241 – Centro, Rio de Janeiro
Dia: 18/5, às 16h
Entrada franca

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