Arte & Literatura

Fabiane Pereira entrevista o fenômeno das crônicas Ruth Manus, que, assim como ela, está morando em Lisboa: “Tudo me inspira: de Trump ao tomate cereja”

Depois de lançar seu primeiro livro de crônicas sobre o amor "Pega Lá Uma Chave de Fenda", ela se prepara para reunir os textos publicados no "Estado de S. Paulo" em breve. No papo com nossa colunista, Ruth ainda falou da participação do TedX São Paulo, Lisboa, tempos macabros, literatura e mais um tanto de assunto. Vem

Publicado em 15/11/2016 | Por Junior de Paula

*Por Fabiane Pereira

Ruth Manus nasceu em “essepê”, tem 28 anos, é advogada e mestre em Direito do Trabalho pela PUC-SP. Atualmente, divide-se entre Brasil e Portugal e faz doutorado em Direito Internacional na Universidade de Lisboa. Apesar de muitos acharem que ela é jornalista (eu mesma tinha certeza disso até entrevistá-la!) por escrever (como escreve bem, aliás!), desde 2014, no “Estado de S. Paulo“, ela não é. Mas poderia ser. “É uma carreira difícil, mas fantástica. Eu adoraria cursar jornalismo um dia. É preciso ser forte, ler muito, de muitas fontes diferentes, desconfiar das primeiras informações e pesquisar a fundo.  O jornalista, como formador de opinião tem que ser extremamente responsável. Precisamos urgentemente de bons formadores de opinião no Brasil”, afirma.

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Desde agosto, Ruth assina também uma coluna quinzenal no jornal português “Observador” e apesar de ser uma das colunistas mais lidas de um dos maiores jornais do Brasil, ela ainda não vive da escrita e, talvez, não pense em viver só dela. “A escrita me ajuda, mas vivo da minha atividade como advogada e professora”, explica.

Há pouco mais de uma semana, Ruth participou, pela primeira vez, do TEDx SãoPaulo e seu discurso emocionou a todos que estavam na plateia. Aproveitando que Ruth está, como eu, na ponte aérea que atravessa o Atlântico, já marquei um café com a moça aqui em Lisboa para conhecê-la pessoalmente. A entrevista abaixo foi feita por email e já dá pra ter as “segundas” (boas) impressões – as primeiras, suas colunas já tinham me passado – sobre esta jovem que acima de tudo usa seu conhecimento profissional para promover a reflexão sobre temas urgentes.

FP: Este ano foi a primeira vez que você participou do TED. Sobre o que você falou e qual a importância do evento (impacto) para o público que assiste as palestras, na sua opinião?
RM: Sim. Falei sobre discriminação de grupos vulneráveis, sobre o padrão ideal fictício e sobre o quanto nós, vulneráveis – mulheres, negros, gays, latinos, africanos, pessoas com deficiência etc – fazemos uma dupla escalada na vida. O evento foi incrível, com pessoas fantásticas e trouxe reflexões importantes e urgentes sobre gênero e possibilidades de vida.

FP: Por que você está morando em Lisboa? Há quanto tempo está por aqui? E por quanto tempo pretende ficar?
RM: Por causa do doutorado e por causa do Filipe, meu namorado, que é Lisboeta. Já estou em Lisboa há 2 anos e não tenho data para voltar.

FP: Qual coluna desde sua estreia no Estadão mais reverberou (positiva ou negativamente) nas redes sociais e no feed back dos leitores?
RM: Até hoje os textos que mais repercutiram foram “A incrível geração de mulheres que foi criada para ser tudo o que um homem não quer” (que teve muitas críticas positivas e negativas); “O alto preço de viver longe de casa” e “A triste geração que virou escrava da própria carreira” (estes dois últimos não criaram grandes polêmicas).

FP: Quando você escreve, você pensa no seu leitor? No que ele gostaria de ler ou ouvir de você?
RM: Muito. Eu escrevo para as pessoas, não para mim. Acredito que a escrita só faz sentido dessa forma. Nem sempre a gente diz o que as pessoas gostam de ouvir, mas é tudo sempre pensado para elas, seja mais ou menos prazeroso.

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FP: Quais escritores fazem parte da sua memória afetiva?
RM: Muitos… Drummond e Vinicius desde muito nova. Veríssimo, pai e filho. Prata, pai e filho. Fernando Sabino, Ferreira Gullar, Leminski, Neruda, Clarice, Garcia Marquez, Rachel de Queiroz, Maria Judite de Carvalho, Dumas, pai e filho. Hoje em dia, Mia Couto, Ondjaki, Valter Hugo Mãe, Gregorio Duvivier, Alejandro Zambra… A lista não termina nunca!

FP: O que inspira suas colunas?
RM: Tudo. Das menores às maiores coisas. De Trump ao tomate cereja que nasceu no meu jardim. É bom que assim o assunto nunca fica escasso.

FP: Qual sua rotina de escrita?
RM: Instituí um dia na semana no qual não advogo, não estudo para o doutorado, não dou aula, não cuido da casa. Só escrevo. Saio de casa de manhã e só volto à noite. Fico em cafés, bibliotecas, saguões de hotel, museus… Não importa. Saio e só escrevo. Além disso, escrevo mais durante os outros dias, sem dúvidas. Mas esse dia é bem importante.

FP: Você pretende lançar um livro compilando algumas de suas colunas?
RM: Já está no forno!

FP: Como analisa o mercado literário brasileiro em um momento em que o governo federal avança com tantos retrocessos como a PEC 241?
RM: Estamos vivendo um momento muito triste da história do Brasil, de evidente retrocesso nos direitos sociais. O mercado literário tem tudo a ver com cultura e educação – direitos sociais básicos -, que evidentemente não são tratados como deveriam pelo governo Temer. Sem dúvidas sentiremos esse impacto, mas sem dúvidas seguiremos usando a força da palavra como instrumento de transformação.

FP: Os anos de 2015 e 2016 ficarão marcados como os anos em que as mulheres precisaram voltar às ruas para exigirem a permanência dos direitos adquiridos por outras mulheres de gerações anteriores. Com um governo formado exclusivamente por homens que não representam a maioria da sociedade brasileira, como ter forças para “não desistir” e continuar escrevendo e promovendo o movimento feminista e a igualdade de gênero?
RM: Acredito que seja nesses momentos tão doloridos que a nossa luta, força e inspiração devam ser reforçadas. A importância do jornalista, do advogado, do professor e do escritor é gigante nessas fases. A gente desanima, mas não desiste, não. Nossas causas são muito mais fortes do que aqueles que tentam derrubá-las.

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