Arte & Literatura

Ex-assistente de Luiz Zerbini, Ruan D’Ornellas apresenta mostra “Cíclico” em Ipanema, traz questionamentos sobre a vida e a morte e destaca aprendizado desses anos com o artista: “Vi que é possível viver de arte”

Na C.Galeria, em Ipanema, o artista expõe a mostra “Cíclico”, que faz uma interpretação dos diferentes momentos e fases da vida. Nesta proposta, Ruan reúne 16 obras que passeiam pela pintura, escultura e desenhos. "Este trabalho é sobre a vida. Literalmente"

Publicado em 26/10/2017 | Por Julia Pimentel

Ciclo é aquilo que começa e acaba com um certo caráter periódico. Mas é também o conceito que norteou o novo trabalho de Ruan D’Ornellas. Na C.Galeria, em Ipanema, o artista expõe a mostra “Cíclico”, que faz uma interpretação dos diferentes momentos e fases da vida. Nesta proposta, Ruan reúne 16 obras que passeiam pela pintura, escultura e desenhos, mas que destacam a habilidade e paixão do jovem artista de Volta Redonda com os pinceis e as tintas. Em “Cíclico”, Ruan D’Ornellas dá cor e forma a dualidades atemporais como a vida e a morte e o claro e o escuro em uma fase pessoal que também traz dualidades de experiências. Após sete anos como assistente de Luiz Zerbini, o artista agora se dedica a construir e consolidar seu nome no mercado das artes brasileira.

Deste novo momento, um ciclo que se inicia na profissão e nas relações de Ruan D’Ornellas. “Este trabalho é sobre a vida. Literalmente. ‘Cíclico’ foi inspirado no nascer e no pôr do sol, na ideia de nascimento e morte das coisas e no conceito de que todos os dias renascemos de alguma forma. A partir daí, eu fui explorando símbolos de tarô que eu gosto e cheguei a um conclusão leve, que não traz a morte como algo ruim. Pelo menos é nisso o que eu acredito”, defendeu Ruan que se dedicou a um embasamento teórico antes de definir a temática de sua mostra. “Desde o final do ano passado, eu venho estudando bastante sobre essas questões. Neste tempo, li diversos materiais sobre filosofia e filosofia da arte e mergulhei ainda mais na ideia de símbolos que eu já gostava. Com isso, eu fui criando uma linguagem própria para poder traduzir toda essa dicotomia O meu desafio foi conseguir colocar o claro e o escuro e a morte e a vida e um mesmo espaço e garantir que as pessoas entendessem isso”, explicou.

Ruan D’Ornellas está com a mostra “Cíclicos” na C.Galeria, em Ipanema (Foto: Tiago Rios)

E ele conseguiu. Nesta dobradinha de obscuro com frescor, Ruan D’Ornellas criou sua identidade em um ciclo da carreira que traz um novo conceito para a sua arte. Antes, o artista se dedicava a temáticas mais sentimentais que faziam referência ao amor e ao ciúme, por exemplo. “Agora, eu vejo que fui me aprofundando em questões mais atemporais. Eu comecei essa linguagem em uma abordagem da feiura e beleza e agora estou na vida e morte”, apontou. Se a temática é algo que tem adquirido caráter mutável na vida de Ruan, a identidade do artista parece já ser algo consolidado. Em sua carreira, ele contou que já estabeleceu uma linguagem singular que aparece em todos os seus trabalhos. “Eu trabalho muito com o realismo e busco agregar um pouco de arte abstrata a isso. Então, nos meus projetos, eu sempre misturo esses dois conceitos para que tenham imagens reais com figuras geométricas e elementos gráficos como complementares”, contou Ruan que, entre as múltiplas possibilidades artísticas, hoje se considera pintor. “É o que eu mais gosto de fazer”, apontou.

Como bagagem de uma carreira de decisões, estudos e dicotomias, Ruan D’Ornellas tem sete anos de convívio e aprendizado com Luiz Zerbini. Assistente do super artista por um longo período, o jovem destacou que o principal ensinamento deste tempo foi olhar. Em tempos de tanta correria, Ruan acredita que hoje vemos muitas informações. Mas, olhar, analisar e incorporar essas infinitas possibilidades pode ser a chave para a inovação. “Esses sete anos com o Luiz foram maravilhosos. Eu pude ver que é possível ser artista e viver do que eu acredito. E isso só o Luiz me mostrou. Eu venho de uma cidade pequena no estado do Rio de Janeiro e lá, eu não considerava que podia ser artista por profissão”, lembrou Ruan que nasceu em Volta Redonda. “Mas para viver de arte, é preciso estudar, ler, fazer e se dedicar. A minha rotina de trabalho não é de oito horas diárias que eu vou para um escritório, crio e depois vou embora. A todo momento eu estou trabalhando. Na rua, tudo é ideia e eu preciso estar sempre atento às informações que eu recebo”, comentou.

Obra de Ruan D’Ornellas para a mostra “Cíclico”, em cartaz na C.Galeria, em Ipanema (Foto: Divulgação)

E é nisso que Luiz Zerbini entra como referência para Ruan D’Ornellas. “Nós estamos tão mergulhados nas atividades diárias que desaprendemos a olhar com calma para o que nos cerca. Pode até parecer um pouco clichê, mas foi exatamente isso o que o Luiz me ensinou. Ele é um homem contemplativo do mundo e que acredita que de todas as experiências podemos tirar aprendizados importantes e interessantes”, defendeu.

Com este cuidado com o que o cerca, Ruan D’Ornellas vai trilhando sua carreira nas artes plásticas em um momento de resistência, como o próprio apontou. Para ele, neste cenário contemporâneo, o artista ganha ainda mais importância para as discussões e evoluções sociais. “É fundamental que a arte autoral continue tendo o seu espaço e que o artista se mantenha como reflexão sobre a vida e a sociedade. Nós estamos vivos agora e, por isso, é importante que a gente continue refletindo e debatendo. E é a arte a principal forma de fazermos isso. Para mim, é burrice hoje quem questiona a produção artística no mundo”, analisou.

Obra de Ruan D’Ornellas para a mostra “Cíclico”, em cartaz na C.Galeria, em Ipanema (Foto: Divulgação)

Consequência disto, Ruan D’Ornellas destacou as mudanças que a arte brasileira vem tendo com o passar do tempo. Para ele, nossos artistas estão ficando cada vez mais engajados. Hoje, as temáticas sociais e políticas fazem parte e conduzem as criações de forma muito mais aflorada que antigamente. “No mundo todo, é possível identificar nichos que tenham essa preocupação social mais destacada. Porém, no Brasil, isto está ficando cada vez mais comum e mais focado na posição social. A arte não é mais estética, é política. Existe um pensamento a ser colocado e não importa se é literatura, cinema, artes plásticas ou teatro”, destacou

E assim, ele segue com sua arte que mistura abstrato e real, vida e morte, ciclos e fases. “Para o futuro, eu quero continuar seguindo minha vida como artista e ver a nossa profissão ganhando mais importância e valorização na sociedade. É fundamental que todos prestem atenção no que nós artistas estamos querendo falar e reconhecer esses discursos. Eu acredito que isso talvez ainda demore a acontecer. Mas as pessoas vão abrir a cabeça para a reflexão”, idealizou Ruan D’Ornellas.

Obra de Ruan D’Ornellas para a mostra “Cíclico”, em cartaz na C.Galeria, em Ipanema (Foto: Divulgação)

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