Aos 20 anos, uma pessoa costuma cruzar a fronteira entre a juventude e a vida adulta, com seus primeiros traços de maturidade. Para uma empresa, duas décadas representam a própria consolidação: é quando a identidade se afirma e o que antes era projeto se transforma em legado. Em 2025, o estúdio Radiográfico chega a esse marco como um dos nomes centrais do design brasileiro. Fundado por Olívia Ferreira e Pedro Garavaglia, o estúdio construiu uma linguagem própria, na qual arte, design e colaboração se entrelaçam, propondo novas formas de criar, ver e sentir imagens.
O Radiográfico segue como quem navega com farol próprio – atento às marés do tempo, mas fiel à bússola que o guia desde o início: criar imagens que não apenas se veem, mas se vivem. Entre o artesanal e o industrial, o local e o global, o visível e o que ainda está por nascer, o Estúdio transforma processos em travessias, projetos em encontros e cada pixel em gesto. O que começou como um ateliê de um livro hoje se expande como constelação, levando ao mundo uma visualidade que pulsa Brasil, mas fala todas as línguas que a escuta alcançar. E, enquanto o cronômetro marca os anos, o Radiográfico continua a medir o tempo pelo que permanece – na memória, no olhar e na emoção de quem encontra suas imagens.
Pela primeira vez, o Estúdio Radiográfico cruza as portas do Rio Innovation Week – e não chega de mansinho. Na sexta-feira (dia 15), no palco RIW Pop Techo Estúdio, estreia com um painel que abre as cortinas para os bastidores visuais da turnê “Tempo Rei“, de Gilberto Gil, e uma exposição no Galpão Cobra. No palco, Fernanda Guizan (Head de Design), Pedro Antonio Garavaglia e Olívia Ribeiro Ferreira (diretores criativos e sócios do estúdio) vão revelar a sinergia entre música, imagem e emoção. Entre o vórtice cenográfico e as animações que pulsavam em sincronia com a banda, o público será convidado a entender como pesquisa, tecnologia e poesia se fundiram para transformar um show em experiência sensorial total. A conversa – mediada pelo jornalista Eduardo Carvalho – promete mostrar que o design, quando afinado com a arte, não apenas acompanha um artista: ele expande o alcance de sua poética.
A assinatura autoral do estúdio Radiográfico começou com o livro “Rio Ateliê” (2004), e seguiu por projetos que marcaram a memória visual do país – da identidade gráfica da abertura dos Jogos Olímpicos Rio 2016 à concepção visual da turnê “Tempo Rei”, de Gilberto Gil. Ao longo desse percurso, o Radiográfico se especializou em construir narrativas visuais com identidade e profundidade, sempre buscando um equilíbrio entre a força conceitual e a excelência técnica. Olívia e Pedro costumam ressaltar que “todo dia é uma escolha. Escolhemos, como estúdio, construir juntos – com escuta, presença e negociação. Dá trabalho, mas é o que torna o processo vivo e os resultados plurais e potentes”.

“Tempo Rei”, de Gilberto Gil: novas formas de criar, ver e sentir imagens (Foto: Divulgação)
A estética proposta pelo estúdio Radiográfico está nos livros didáticos, nas aberturas de programas como “Saia Justa” e “Papo de Segunda”, nos estandes de grandes feiras e nas maiores projeções públicas do país. Os sócios criaram experiências que integram o cotidiano de milhares de pessoas. Essas duas décadas de atuação trouxeram ao estúdio uma compreensão mais apurada das dinâmicas do audiovisual e uma maturidade rara na forma de conduzir processos criativos. “Os 20 anos de estrada nos deram repertório e nos permitiram refinar nossa metodologia de criação que, mesmo processual e experimental, conseguimos aplicar em projetos de diferentes escalas e prazos”, observa Olívia, acrescentando: “Aprendemos que, do ‘ateliê’, conseguimos entregar com consistência projetos de todos os tamanhos e para marcas variadas – da cultura ao mundo corporativo. O tempo também foi fundamental para afinar nosso trabalho em grupo, melhorando a escuta e a colaboração entre equipe e clientes”.
Pedro acrescenta outra camada à reflexão: “O que realmente importa é o processo, o caminho que se percorre até chegar a uma solução. Quando esse caminho é trilhado com presença, escuta e atenção ao que surge no meio do percurso, é aí que aparecem as melhores respostas. E, mais do que isso, surgem perguntas inesperadas que destravam o projeto e abrem novas camadas de sentido”.
O tempo certo é o do processo vivo, e não o do cronômetro – Pedro Garavaglia

A identidade visual do Multishow também é criação do estúdio Radiográfico (Foto: Divulgação)
Imagens são experiências – que emocionam, comunicam e provocam. Se o estúdio Radiográfico respira colaboração, a pergunta é como manter a autoralidade em um mercado que premia a repetição e as tendências? Para Pedro, “ser autoral não significa se afastar das tendências nem impor uma visão fechada ao projeto. É saber olhar para o que está em alta com intenção e senso crítico, interpretando e adaptando o que faz sentido para cada contexto. Em um cenário onde as tecnologias – como a IA – tornam a repetição mais fácil do que nunca, diferenciar-se se tornou essencial. No show mais recente do Gil, por exemplo, criamos um espetáculo de duas horas e meia sem uma única imagem repetida. Essa escolha estética revela nosso compromisso com a originalidade como linguagem e experiência”.
Olívia corrobora afirmando: “Ao trazermos soluções e ideias com ineditismo, frescor e significado para um mercado saturado de imagens parecidas, nos colocamos à parte do fluxo homogêneo. Para nós, o que importa é a consistência e a adequação do projeto, não apenas seguir a tendência do mercado”.
Ao longo de duas décadas, os integrantes do estúdio Radiográfico conceberam cerca de 1.500 projetos que atravessam linguagens, suportes e públicos: de livros didáticos e estandes comerciais a grandes shows, exposições e programas de TV. Um momento decisivo veio em 2007, com a entrada no audiovisual, especialmente em grandes produções da TV Globo. “Foi decisivo para o amadurecimento do nosso modo de fazer. De repente, estávamos lidando com prazos rígidos, estruturas complexas e demandas de escala – mas sem abrir mão da profundidade e do cuidado que sempre nos moveram”, contam os sócios. Essa transição mostrou que é possível unir universos distintos: o artesanal e o industrial, a invenção, a eficiência e a sensibilidade. Foi desse encontro que a metodologia autoral do Radiográfico se consolidou.

As Olimpíadas de 2016 também contaram com o conceito inovador do estúdio Radiográfico (Foto: Divulgação)
OS NOVOS HORIZONTES
A expansão para outros países já começou. Como traduzir para outros contextos uma linguagem com tanta brasilidade? Olívia responde: “Acreditamos que, com um processo criativo consistente e uma escuta e diálogos afinados, conseguimos projetar para o mundo com qualidade, adequação e sem perder a nossa essência. É essa combinação que nos permite levar o Radiográfico para diferentes contextos, mantendo a identidade que nos define, mas respeitando as particularidades de cada lugar”.
Pedro reforça a ideia: “Nossa linguagem nasce do Brasil, mas não se limita a ele. Quando levamos o Radiográfico para outros contextos, levamos junto a potência visual e simbólica de onde viemos, mas com a consciência de que é preciso dialogar com outras culturas. E o design estabelece essa ponte. Com escuta e processo, temos flexibilidade e a capacidade de encontrar pontos de contato universais”.

O show de Gilberto Gil contou com o olhar do Radiográfico (Foto: Divulgação)
E afinal, qual Brasil o Radiográfico busca representar – ou revelar – em seus projetos visuais? Para Olívia, “o Brasil que queremos representar é aquele que nos traz orgulho, que expressa a nossa potência, o dinamismo, a inteligência e o frescor. Buscamos projetar uma visão que celebre o melhor do que somos, refletindo a energia criativa e inovadora que caracteriza nossa cultura”.
Acredito em Brasil que fala de si mesmo, das suas raízes, e ao mesmo tempo dialoga com o mundo. Um Brasil orgulhoso, confiante e altivo, que se posiciona com segurança e autenticidade, mostrando sua verdadeira força e identidade – Olívia Ferreira
Pedro amplia o quadro: “múltiplo, profundo e vivo. Que reconhece suas raízes e também sua capacidade de se reinventar, experimentar e ousar. Que tem na mistura de culturas, sons, imagens e histórias uma força transformadora. Um Brasil que não cabe nos clichês, mas que se revela nas sutilezas, nos encontros e na energia que pulsa do coletivo”.
Nos trabalhos que abordam o Brasil – como “Falares”, do Museu da Língua Portuguesa, e as Olimpíadas – o Radiográfico opta pelo mergulho profundo: “Não fugimos do clichê só por fugir”, dizem. “Às vezes, ele guarda algo verdadeiro. O que fazemos é dar espessura, adicionar camadas de sentido para que a imagem não caia no vazio”.

Olimpíadas 2016: “Um Brasil orgulhoso, confiante e altivo, que se posiciona com segurança e autenticidade, mostrando sua verdadeira força e identidade” (Foto: Divulgação)
OLHARES
Uma das parcerias mais duradouras do Radiográfico é com a diretora Daniela Thomas. “Com ela, cada projeto é um novo idioma visual. Nada de fórmulas – tudo nasce do processo”, afirmam os fundadores. “O que sustenta a parceria é o respeito, a escuta e a confiança construída no fazer”. Ao longo dos anos, essa troca se transformou em um território fértil para experimentação, em que a linguagem visual nunca se repete, mas se reinventa de acordo com o contexto e a narrativa.
O mesmo espírito rege a relação com o programa educacional LIV. “Desde o início, percebemos uma sintonia entre nosso modo de pensar o design e o jeito como o LIV se comunica: com afeto, intenção e escuta verdadeira”. Um dos frutos mais simbólicos dessa conexão é Meu Mundo, livro interativo criado pelas próprias crianças – mais do que um produto editorial, um gesto de maturidade e de confiança mútua. Pedro lembra de um momento marcante: “O estande que desenhamos para o LIV na Bett Educar foi eleito o mais interessante da feira – prova de que excelência e profundidade cabem, sim, em qualquer escala e formato”.

Materiais didáticos LIV: “pensar o design e o jeito como o LIV se comunica: com afeto, intenção e escuta verdadeira” (Foto: Divulgação)
Olívia e Pedro interpretam o Radiográfico a partir de metáforas distintas – mas complementares -, como se cada um revelasse um aspecto da identidade do estúdio. Para ela, “o movimento das marés é uma boa imagem para descrever o processo criativo. Ele não é linear – é feito de avanços e recuos, de presença e distanciamento. Há fases de imersão total, de busca intensa por referências, soluções, ideias. E há também os intervalos em que é preciso se afastar, ganhar perspectiva, permitir que as coisas sedimentem. Esse vai e vem não é perda de tempo – é parte do ciclo. É ele que permite que o trabalho ganhe profundidade, consistência e potência”.
Para ele, a imagem vem de outro campo visual: “Seria como mirar através do telescópio James Webb. Uma lente de altíssima precisão que revela o que antes estava oculto – formas novas, cores nunca vistas, composições que expandem nossa ideia do universo. O Radiográfico opera de forma semelhante: atravessa camadas, capta o que está por trás da superfície e devolve ao mundo imagens que nos fazem ver com outros olhos. Em vez de apenas representar, revela. Em vez de repetir, cria sentido. É um olhar que transforma o invisível em presença – e convida o outro a entrar nesse campo expandido de percepção e afeto”.

Tempo Rei: projeto gráfico é todo do Radiográfico (Foto: Divulgação)
A turnê “Tempo Rei”, de Gilberto Gil, talvez seja a síntese dessa filosofia: a imagem como extensão do som, do corpo e da memória. “Desde o início, entendemos que as imagens não estariam ali apenas como fundo, mas como uma camada a mais da música”, contam. “As animações foram pensadas como canções gráficas – construídas camada a camada, como se também tocassem junto com ele”. No projeto, há também uma homenagem à própria ideia de imagem e à sua potência original, tantas vezes diluída no fluxo incessante de rolagens, curtidas e estímulos superficiais. Cada quadro foi pensado para ter papel narrativo, expressivo e transformador – compondo um audiovisual expandido que só se revela plenamente no encontro físico com o público”.
Para Pedro, mais do que listar próximos projetos, há uma intenção que orienta o futuro do estúdio: resgatar o poder da imagem como linguagem significativa. Em um cenário saturado de imagens rasas e descartáveis, o design pode oferecer um caminho alternativo – mais sensível, mais presente e capaz de gerar impacto com profundidade e propósito. A meta é continuar criando experiências que emocionam, provocam e permanecem na memória, seja em trabalhos autorais, exposições, shows ou colaborações com marcas. A internacionalização, já em andamento, é parte desse movimento: existe, dentro da equipe, a convicção de que a linguagem desenvolvida pelo Radiográfico tem força para atravessar fronteiras, sustentada tanto por sua potência visual quanto pela densidade conceitual que carrega.
O estúdio Radiográfico é o responsável, também, pela identidade visual da exposição Baú do Raul, no Museu da Imagem e do Som (MIS) — instituição ligada à Secretaria da Cultura, Economia e Indústria Criativas do Estado de São Paulo. A mostra, inédita, presta tributo a Raul Seixas — que completaria 80 anos em 2025 — por meio de uma experiência imersiva e sensorial que revisita sua trajetória e obra.
Olívia Ferreira e Pedro Garavaglia destacam o significado pessoal e profissional desse trabalho: “Criar a identidade visual dessa exposição é uma forma de homenagear Raul Seixas, um artista de grande relevância cultural no Brasil, que até hoje mobiliza fãs. Sua música esteve presente em nossa juventude e na de tantos outros que cresceram nos anos 1990. Poder retribuir isso com design, dentro de uma exposição tão emblemática, é uma alegria imensa”. Além do logotipo, o estúdio também desenvolveu todo o sistema de comunicação visual do projeto — das peças gráficas institucionais e promocionais aos conteúdos destinados às mídias digitais e impressas, passando por folders, anúncios e outros materiais de divulgação.

Mostra Raul Seixas, “Baú do Raul”, tem a assinatura do Estúdio Radiográfico (Foto: Divulgação)
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