Arte & Literatura

Depois da censura da Secretaria de Cultura do Rio, artistas se reúnem para manifestação em espaço público

"Essa performance é um grito ao desespero", afirmou a representante do Coletivo És Uma Maluca, Juliana Wähner. A ativista resistiu à repressão policial e apresentou a obra "A Voz do Ralo É a Voz de Deus" no meio da rua

Publicado em 15/01/2019 | Por Leticia Sabbatini

A Secretaria de Cultura do Estado do Rio ordenou o cancelamento da exposição “Literatura Exposta”, que fazia referência às torturas ocorridas durante a ditadura militar no Brasil, no último domingo (13/01). Na exposição, militantes do coletivo És Uma Maluca, da zona norte do Rio, fariam uma performance com nudez feminina e mais referências ao contexto ditatorial, na Casa França-Brasil (CFB). Em resposta à censura, o coletivo e o curador Álvaro Figueiredo, por suas redes sociais, convocaram a todos para uma manifestação artística, que aconteceu entre os muros da CFB e do Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB), no final da tarde de ontem (14/01). O site HT esteve presente e conta agora os detalhes do ato, que durou cerca de 15 minutos, mesmo com a repressão policial.

Juliana Wärner permaneceu deitada no chão com cerca de 6 mil baratas de plástico (Foto: Letícia Sabbatini)

Ao chegarmos no local, um grande aglomerado, com cerca de 200 pessoas, formava um círculo. No meio, 10 policiais do 5º Batalhão da Polícia Militar informavam aos presentes que nenhum ato poderia ser realizado sem passar com antecedência pela aprovação da administração pública. Dentre os manifestantes, que revoltados gritavam palavras de ordem em coro contra a censura, surgiu a militante da cultura Dyonne Boy. Ela, que foi candidata à deputada estadual pelo PSOL na última eleição, informou ao representante Capitão Alvarenga, que aquela repressão não estaria cumprindo a lei: “A Lei do Artista de Rua (5429/2012) garante que qualquer manifestação artística pode acontecer na rua sem autorização prévia. O senhor conhece essa Lei?”. Ainda assim, cumprindo as ordens do seu batalhão, o Capitão insistiu: “Não pode haver esse evento sem autorização da prefeitura”. Ao site HT, ele explicou o posicionamento da PM: “Nossa reação depende do tipo de manifestação. Se ela for pacífica, com palavras de ordem apenas, não há problema algum. Agora, com nudez, teremos que coibir, pois se trata de uma infração penal”.

A população revoltada protestava contra a repressão policial por meio de palavras de ordem e cartazes (Foto: Letícia Sabbatini)

Ainda assim, uma nova roda foi formada e no meio dela a obra “A Voz do Ralo É a Voz de Deus”, composta por cerca de 6 mil baratas de plástico espalhadas pela tampa de um bueiro, com um áudio que expõe falas do presidente Jair Bolsonaro. Junto aos insetos, uma das representantes do coletivo És Uma Maluca, Juliana Wähner, permaneceu deitada no asfalto quente por quase 15 minutos. Fazendo uma alusão às torturas do Coronel Ustra, que colocava baratas nas partes íntimas das presas políticas, Juliana permaneceu com os insetos de plástico em seu corpo. Depois de expor a obra, que já havia sido censurada no início de dezembro, ela falou em meio a muita emoção: “Um corpo é maior do que a gente pensa, por isso precisamos nos responsabilizar sobre o que a gente pensa e fala. Tudo reverbera e gera consequências. Essa performance é um grito ao desespero do que está acontecendo atualmente no Brasil. Falamos da política, da história, da repetição, dos movimentos de reverberação das violências cometidas, da prevenção, das mulheres, do não calar e das artes no atual momento. Essa é para todas as mulheres que nunca conseguiram se manifestar”.

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Apesar de não haver a nudez comentada anteriormente, devido à presença da PM, que ao início da manifestação de Juliana aumentou o número de homens no local, a performance cumpriu o seu objetivo. Durante os minutos que a jovem permaneceu deitada, as pessoas no local lembraram em coro de nomes cada vez mais esquecidos pela ausência de justiça: “Marielle presente! Dandara presente! Mestre Moa presente! Anderson presente! Matheusa Passareli presente!”.

Em meio a essas pessoas, que davam firmemente às mãos como uma forma de oferecer proteção à militante dentro do círculo, o senhor Vilmar Torres chegou carregando um saco de açúcar. “O açúcar é para alimentar as baratas, que já são melhores do que os ratos que comandam o nosso país. Quem homenageia um torturador não merece respeito dos brasileiros”, gritou enquanto jogava os grãos em cima dos insetos. Ao final da apresentação, depois de discursar em frente aos policiais, ele desabafou conosco: “Sou oriundo da ditadura militar e não recuarei um só passo, no sentido de garantir a liberdade e a democracia, que foi conquistada a duras penas por aqueles que morreram e foram torturados, mas estão presentes em nossos corações. A constituição do nosso país garante a livre manifestação cultural, a livre manifestação de pensamento e os policiais militares não podem mais ser colocados como bucha de canhão contra o povo”.

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Para Dyonne Boy, ainda que tenha sido organizada às pressas, a manifestação teve a força necessária para rodar pelo Brasil e pelo mundo: “Estamos defendendo também a liberdade de expressão, de pensamento, do corpo. Não podemos voltar a uma época em que o Estado controla os corpos das pessoas, com essa política genocida. E agora, querem exercer o controle também sobre a arte”. E prosseguiu, contextualizando a importância da cultura carioca: “É um absurdo que ainda hoje precisemos estar nas ruas defendendo o direito de liberdade da arte, que vem sendo atacada de frente. O Escola Sem Partido, o desmonte do Ministério da Cultura, das Secretarias e o recuo das verbas, do fomento à cultura, da periferia e do carnaval. Você sabia que só o carnaval gera 10% do orçamento da cidade e 5% do orçamento do Estado? Não dá para aceitar isso”.

Assim, com a sensação de dever cumprido, Vilmar, Dyonne, Juliana e os outros representantes do És Uma Maluca seguiram de volta para suas respectivas rotinas. Com ainda mais força, o coletivo, que surgiu de forma independente em Vila Isabel em 2014, pretende continuar o trabalho de pensar diálogos sobre a arte e os novos artistas. As baratas, por sua vez, foram deixadas sobre a escadaria da Casa França-Brasil que,  de portas fechadas, presenciou uma de suas mais importantes manifestações acontecer no meio da rua.

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