*Por Brunna Condini
Aos 66 anos, Cininha de Paula transforma décadas de bastidores em livro e lança, no próximo dia 3 de novembro, na Livraria da Travessa de Ipanema, a obra ‘Caminhos do Ator – Do Palco à Câmera’, escrita em parceria com Charles Daves, com prefácio de Miguel Falabella e orelha de Wolf Maya, com quem foi casada e teve parceira em tantos trabalhos. Ex-diretora da Globo e uma das mulheres mais influentes da teledramaturgia, Cininha revisita sua trajetória e analisa o cenário atual com a franqueza que lhe é marca registrada: “O arquétipo hollywoodiano caiu. Hoje, qualquer um pode protagonizar, desde que o personagem tenha a ver com o que o ator tem a oferecer. O público é diverso e o elenco de um produto precisa refletir isso”.
Apesar de celebrar as transformações no mercado, a diretora, que também acaba de voltar a atuar no cinema em ‘Toda Nudez Será Castigada’, de Nelson Rodrigues, com direção de Daniel Filho, fala da experiência na TV Globo, emissora onde ficou por 30 anos, e saiu em 2019. “Tive muita sorte na Globo. Nunca fiz um fracasso. ‘Sai de Baixo’, ‘Toma Lá Dá Cá’, ‘Sítio do Picapau Amarelo’, todos deram certo. A ‘Escolinha do Professor Raimundo – Nova Geração’ era o programa mais barato da emissora e o mais eficiente. Gravava uma temporada em 15 dias”. Ao relembrar o passado, Cininha não descarta um novo capítulo na TV:
Saudade eu tenho. Das pessoas, do convívio. Mas meus amigos não estão mais lá, foi todo mundo embora. Aceitei super bem a saída porque achei que saí no momento certo. Eu saí e voltei logo no ano seguinte, acabei ficando mais um tempo. E acho que teria ficado mais se não tivesse ido pra Disney, porque eu fui chamada mais duas vezes para voltar pra dirigir na Globo. Ainda tenho vontade de fazer coisas lá. Tenho uns projetos meus que seriam interessantes, acho que teriam o mesmo impacto dos outros que fiz – Cininha de Paula

Cininha de Paula lança o livro com prefácio de Miguel Falabella e orelha de Wolf Maya; celebra novas fases na arte e reflete sobre os rumos da teledramaturgia brasileira (Foto: Edu Rodrigues)
No livro, Cininha transforma em páginas o conteúdo de um curso que ministra há duas décadas e que ajudou a formar gerações de atores e atrizes, entre eles, nomes como Tatá Werneck e Bruna Marquezine, que foram suas alunas. “O curso ‘Do Palco a Câmera’ nasceu da vontade de compartilhar o que aprendi nesses anos de televisão e teatro. Sempre achei que o ator precisa de base, e essa base é o palco. Dali as outras mídias vêm caminhando juntas”, explica. A adaptação do material para o formato literário levou mais de um ano de trabalho. “O livro fala de travessia, de escolhas, de como a carreira do ator é construída tijolinho por tijolinho”. Pedagógica e provocadora, a diretora reforça a importância da clareza e da persistência em uma profissão, que segundo ela, “não é feita de glamour, mas de foco”:
O ator precisa entender que sucesso é efêmero. E, curiosamente, o que ‘sobe à cabeça’ não é o sucesso, é o fracasso. Quando o produto vai bem, todos querem o crédito; quando vai mal, o elenco acaba se unindo pra tentar acertar. O importante é seguir em movimento, aprendendo e se mantendo fiel ao ofício — Cininha de Paula

“O público é diverso, e o elenco de um produto precisa refletir isso” (Foto: Edu Rodrigues)
Sobre o mercado, padrões e etarismo
Ao analisar as transformações do mercado, Cininha reflete sobre o quanto a indústria audiovisual passou a lidar com temas antes negligenciados. “O mais importante dessa mudança toda foi o reconhecimento da discriminação racial”, afirma. Para ela, também caiu por terra o antigo padrão estético importado de Hollywood (“idealizado e inatingível”). “Já tinha caído lá fora há algum tempo. As grandes atrizes nunca foram apenas os rostos mais dentro do padrão. Esse arquétipo caiu de vez, o olhar está voltado mais para o talento. Antes haviam os ‘preferidos’ na TV e os ‘queridinhos’ dos patrocinadores. Agora, qualquer um pode protagonizar, desde que o personagem seja adequado ao que tem pra oferecer como ator”.
Sobre o etarismo, ela fala com a clareza de quem atravessou décadas de TV e viu o mercado se transformar. “Acho que diferente do que se acredita, os atores que estão mais velhos e não alcançaram um estrelato grande, estão sendo mais bem aproveitados hoje. Passou a ter personagem com cara de gente. Antigamente era como se o Brasil fosse feito só de louros de olho azul e rostos dentro de um padrão”.

“O ator precisa entender que sucesso é efêmero. E, curiosamente, o que sobe à cabeça não é o sucesso, é o fracasso” (Foto: Edu Rodrigues)
E cita atrizes veteranas como Arlete Salles, Suely Franco, Rosamaria Murtinho, Laura Cardoso e Fernanda Montenegro como símbolos dessa virada contra o etarismo: “A Arlete, com mais de 80, tem uma vitalidade absurda e não para de trabalhar. A Suely, a Rosamaria… todas continuam em cena. E a Fernandona, então? Faz filme atrás de filme. Isso mostra que o espaço está se reabrindo”. Ela defende ainda, que a TV e o audiovisual aos poucos aprendem a respeitar todas as idades dos artistas:
Quando comecei também foi difícil, naquela época não respeitavam diretoras jovens, tive que ir ocupando meu espaço, me adequando. As coisas começam meio atabalhoadas, mas depois encontram o lugar certo – Cininha de Paula
Chico Anysio e legado
Ao falar de Chico Anysio (1931-2012), Cininha se emociona. O tio, com quem chegou a trabalhar em ‘Chico Anysio Show’ (1987-1990), na ‘Escolinha do Professor Raimundo’ (1990 -1995) – atração que voltou a dirigir com Bruno Mazzeo à frente de 2015 a 2019 – e em ‘Estados Anysios de Chico City’ (1991); para ela era um mentor e referência ética, para além do reconhecido gênio. A diretora acredita que o humor de Chico nunca recorreu à vulgaridade nem ao estereótipo, mesmo sendo feito em outros tempos. “Ele não fazia piadas degradantes com a mulher. E quando criou o Haroldo, por exemplo, não estava ironizando os gays, pelo contrário, fez por causa da AIDS, que na época chamavam de ‘câncer gay’, ele queria mostrar o preconceito, era uma crítica”.
A mesma intenção social, explica Cininha, guiava personagens como o velho Zuza. “Não fazia blackface por falta de ator negro ou com preconceito. Ele queria revelar a sabedoria de um preto velho, mostrar tipos humanos, não fazer caricaturas”. No entanto, ela reconhece que os tempos mudaram, e que, talvez por isso, o tipo de humor e crítica de Chico fosse mais difícil de existir no mundo contemporâneo. “Se ele estivesse vivo, ia sofrer. Acho que não aguentaria esse Brasil de hoje, com tanta intolerância. Ele também amava o Rio de Janeiro e ia se entristecer com o que a cidade se tornou”.

A diretora Cininha de Paula e Chico Anysio em ‘Chico Anysio Show’ (Foto: Acervo/Globo)
Projetos e novos começos
Na lista de próximos passos, há dois longas previstos para o ano que vem: um em parceria com Miguel Falabella, e outro de temática LGBTQIAPN+ dirigido por uma jovem produtora paulista. “Não sou LGBT, sou mãe de uma LGBT (a atriz e diretora Maria Maya, que se declarou bissexual). Então, essa produtora me procurou porque queria esse meu olhar feminino e, ao mesmo tempo, essa jovialidade de quem convive bem com a garotada. É um filme sobre amor, escolhas e descobertas”. Sempre voltada à formação, ela também deseja criar um programa infantil. “A gente precisa resgatar a criança como espectador. Minha neta só vê Netflix. Nem entende essa coisa de horário pra assistir televisão.” E completa: “Quero muito fazer a ‘Escolinha do Professor Raimundo’ na TV só com crianças. É um programa educativo, o aluno erra, o professor corrige e ele nunca mais esquece”.

“O livro fala de travessia, de escolhas, de como a carreira do ator é construída tijolinho por tijolinho” (Foto: Edu Rodrigues)
Entre risadas e planos, ela revela outro desejo: voltar ao teatro com a amiga Cris D’Amato. “Queremos montar ‘Arsênico e Alfazema’ (título da comédia de suspense escrita por Joseph Kesselring (1902-1967) em 1940, que foi adaptada para o cinema). São duas velhinhas que matam todo mundo! É maravilhoso”. E depois de três décadas afastada das câmeras, Cininha também acaba de se reencontrar com a atuação na nova adaptação para o cinema de ‘Toda Nudez Será Castigada’, dirigida por Daniel Filho, com previsão de estreia na telona em 2026: “Amei trabalhar como atriz novamente. Se tiver um bom personagem, quero repetir. Foi bom demais descobrir que ainda sei brincar disso”.
Artigos relacionados
“Tiazinha não teria espaço hoje”: Suzana Alves fala da hipersexualização que viveu nos anos 90 e lança livro sobre fé
Daniel Jorge inaugura exposição “Geografias de um corpo bússola”, no Rio, com obras sobre território e reexistência
Carnavalesco campeão da Viradouro, Tarcísio Zanon estreia como ilustrador e autora revisita câncer vivido