Christiane Monnerat, procuradora que baniu tração de cavalo na Ilha de Paquetá, lança livro sobre maus-tratos a animais


A procuradora de Justiça Christiane Monnerat lança em 29/09. na Livraria da Travessa, Crime e Latido, obra que marca sua estreia na literatura. O livro reúne memórias de bastidores do Ministério Público, com casos que vão de fraudes e tráfico de animais em extinção a situações que beiram o inverossímil. Definido pela autora como uma “tragicomédia jurídico-humana”, o relato mistura denúncia, humor ácido e crítica ao sistema de Justiça. Entre a luta pelos direitos dos animais e o enfrentamento de uma doença rara, Monnerat transforma experiências pessoais e profissionais em narrativa literária de resistência

A procuradora de Justiça Christiane Monnerat, responsável pela operação que retirou cavalos vítimas de maus-tratos em Paquetá e pôs fim ao uso de tração animal na ilha em 2017, estreia na literatura com Crime e Latido. O livro consta de 368 páginas é ilustrado. O lançamento será realizado dia 29, na Livraria da Travessa da Barra.

A obra reúne relatos de bastidores do Ministério Público do Rio de Janeiro, onde Monnerat atuou de forma incisiva, sobretudo à frente da 19ª Promotoria de Justiça, em defesa dos direitos dos animais. São memórias que transitam entre o cotidiano forense e episódios que se aproximam do inverossímil: sequestros, fraudes, tráfico de animais em extinção e até a participação de celebridades em processos. Definido pela própria autora como uma “tragicomédia jurídico-humana”, Crime e Latido não se limita a um registro de casos. O livro expõe contradições de um sistema que, muitas vezes, se aproxima mais do enredo de uma sátira do que de uma estrutura racional de Justiça.

O resultado é um mosaico de histórias que revelam, ao mesmo tempo, o absurdo e a sensibilidade presentes nos corredores do poder judiciário. Entre cavalos resgatados, processos labirínticos e colegas de toga que se descobrem poetas, o leitor encontra uma narrativa que cruza drama, humor ácido e a memória de quem viveu intensamente as fissuras da máquina pública.

Transformei boletins de ocorrência em crônicas, laudos em metáforas e inquéritos em literatura — porque alguns silêncios latem mais alto que sentenças – Christiane Monnerat

Livro de Christiane Monnerat será lançado na Barra da Tijuca, em setembro (Foto: Divulgação)

 

 

Ao longo dos capítulos, o livro de Christiane Monnerat não se limita a registrar casos inusitados da vida forense: constrói também o retrato de uma procuradora que decidiu transformar o exercício do cargo em resistência. Em Crime e Latido, os “absurdos de gabinete” se convertem em narrativa literária, que ora denuncia, ora devolve humanidade aos que não têm voz — os animais.

Em trecho pessoal, a autora recorda como a doença rara que enfrenta a obrigou a reinventar sua rotina: “Sou portadora da Doença de Ormond (uma condição rara caracterizada pelo crescimento excessivo de tecido fibroso na área retroperitoneal do abdômen, podendo envolver e comprimir órgãos vitais, principalmente os ureteres) e já vivi longas internações no Rio de Janeiro. No Samaritano, transformei o hospital em palco, sobrevivi com morfina, ironia e fé na Rosa Mística. Adotei cães fictícios e rotinas inventadas. Pela primeira vez, diante da crueldade com um cão na TV, percebi minha vulnerabilidade: havia perdido a caneta e, com ela, minha armadura”. Sua escrita nasce desse ponto de tensão, em que a fragilidade física convive com a obstinação profissional e a militância em causas animais.

Sem citar nomes, Monnerat recompõe episódios que, embora soem como enredos de espionagem, aconteceram nos corredores da Justiça. O livro funciona como denúncia e, ao mesmo tempo, como espécie de exorcismo: a tentativa de dar forma literária à experiência de quem dedicou carreira a defender inocentes de quatro patas e enfrentou as consequências disso.

A promotora é ativista na causa animal (Foto: Alex curty)

Em Crime e Latido, Christiane Monnerat transforma a caneta em ferramenta de denúncia e catarse, mas também em gesto de resistência. Suas páginas revelam que, por trás das pilhas de processos, há sempre uma luta mais ampla: a de dar sentido à dor, voz ao silêncio e humanidade ao que parecia perdido. Ao narrar absurdos que só a realidade é capaz de inventar, a procuradora reafirma que justiça não se resume a sentenças — ela também pode nascer da palavra escrita, onde até o latido ganha força de testemunho.