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Autora de ‘O que aprendi com minhas células rebeldes?’, Luciana Lobo dispara: “Pensar em morte? Queria lutar pela vida”

“Ficava pensando que eu poderia transformar o que estava vivendo em algo bom. Um dia, quando praticava yoga restaurativa, constatei como era abençoada por ter as ferramentas da prática, que me ajudavam no processo de recuperação. Desejava dividir isso com outras mulheres que estavam passando pela quimioterapia e não tinham nenhum tipo de atividade deste tipo para auxiliá-las. Foi em uma dessas madrugadas que nasceu o Instituto ZENcancer”, conta

Publicado em 26/11/2019 | Por Heloisa Tolipan

*Por Brunna Condini

No meio do caminho, um câncer. E o que fazer com um câncer no meio do caminho de tantos planos? Para Luciana Lobo, que descobriu um tumor de mama aos 41 anos, a única alternativa foi aceitar a mudança no roteiro e partir para a ação. “Descobri fazendo uma segunda ultrassonografia da mama, por insistência da minha massoterapeuta. Tinha acabado de fazer exames de rotina e estava tudo bem. Tinha apenas um pequeno nódulo na mama esquerda. Mas, a médica constatou que ele dobrou de tamanho em menos de três meses. O diagnóstico veio logo depois”, lembra.

Luciana Lobo é professora de yoga e conta o que aprendeu após um câncer de mama (Foto: Divulgação)

Professora de yoga, com mestrado em Ciências (Microbiologia) e diretora do YOGAPICs, um espaço onde a yoga, a meditação e outras práticas integrativas e complementares (PICs), são realizadas para prevenir doenças e se aliar a algum tratamento médico, Luciana buscou passar da melhor forma possível pelo pesado tratamento contra o câncer, que incluiu quimioterapia e radioterapia. E encontrou inspiração nas noites insones, devido ao excesso de corticoides no organismo, para desenvolver três projetos sociais que levam a pacientes com câncer práticas de bem-estar e saúde. “Ficava pensando que eu poderia transformar o que estava vivendo em algo bom. Um dia, quando praticava yoga restaurativa, constatei como era abençoada por ter as ferramentas da prática, que me ajudavam no processo de recuperação. Desejava dividir isso com outras mulheres que estavam passando pela quimioterapia e não tinham nenhum tipo de atividade deste tipo para auxiliá-las. Foi em uma dessas madrugadas que nasceu o Instituto ZENcancer”, conta, sobre o projeto, sem fins lucrativos, que tem como principal objetivo atender pacientes oncológicos e proporcionar bem-estar através das práticas oferecidas.

Ela criou o Instituto ZENcancer para atender pacientes oncológicos e suas famílias (Foto: Divulgação)

A experiência de Luciana Lobo e toda essa trajetória estarão no livro “O que aprendi com minhas células rebeldes?”, com previsão de lançamento para o início do ano. “Chamei meu câncer assim, de “’células rebeldes’, porque o que dá origem a ele é a rebeldia de uma célula, que passa a se comportar como uma célula de vida livre e se torna um câncer. Ela se reproduz de forma desordenada sem se preocupar com a saúde do organismo”, explica. “Várias vezes, durante o processo deste livro, me perguntei o porquê de estar escrevendo essa história. Percebi que não se trata apenas de um relato da minha trajetória, mas sim, de contar como identifiquei que os aprendizados deste caminho poderiam ser úteis. Não tenho pretensão de ensinar ninguém a passar por uma doença. Quero compartilhar o que vivi e o que veio disso, porque percebo mais ganhos do que perdas”.

Hoje, o instituto ZENcancer recebe aproximadamente 50 participantes, e além de atividades voltadas a pacientes com câncer, ele também atende acompanhantes no projeto Com Fiar”, que nasceu em outra madrugada criativa, com a ideia de levar oficinas de crochê para as salas de espera de hospitais de Oncologia Pediátrica, mas que passará também a atender, a partir de 2020, parentes de pacientes adultos. “A doença é da família, pois todos são emocionalmente afetados pelo diagnóstico. No ‘Com Fiar’, ensinamos atividades de tecer fios, mas também a prática da atenção plena, diminuindo a ansiedade”, esclarece Luciana, que idealizou, ainda, um terceiro projeto, que se tornou atividade de extensão universitária na UFRJ, o “Vamos falar de câncer?”. Este último foi viabilizado por sua experiência no mestrado e do desejo de que as crianças também pudessem ter acesso a esse conhecimento, através de material didático preparado especialmente para as aulas, com foco na saúde das células e do organismo.

Luciana Lobo dá aulas de yoga restaurativa (Foto: Divulgação)

Casada há 21 anos com o advogado Marcello Lobo e mãe de dois meninos, Arthur, 10 anos, e Henrique,7, Luciana sabia que sua forma de encarar a situação determinaria a maneira que as pessoas ao seu redor reagiriam. Se eu pensei que ia morrer por estar com câncer? Na verdade, não pensava nisso. Não que eu não soubesse ou saiba que posso morrer, mas esse medo não veio naquele momento. Minha preocupação era passar por tudo da melhor forma possível”, recorda. “Não queria, por exemplo, que o fato de ter uma mãe com diagnóstico de câncer pesasse para as crianças mais do que o esperado. Queria que eles soubessem que existem efeitos colaterais, mas a vida continua. Os meninos são muito corajosos, mas não queria que eles tivessem medo que eu fosse morrer. E também poder prepará-los para a vida. Tive o cuidado de explicar então, que a doença, assim como o nascimento, crescimento, envelhecimento e a morte, faz parte da existência. Mesmo que seja difícil aprender isso com alguém que eles amam tanto passando por um câncer. Acho que falar a verdade para eles nos uniu”.

Luciana conto com uma rede de apoio amoroso: “Não pensava na gravidade do que eu estava vivendo” (Foto: Divulgação)

Em nenhum momento Luciana pensou na morte: agiu rumo à sua cura. Seguiu as orientações médicas, se cercou dos cuidados com práticas como yoga, meditação e acupuntura, contou com uma rede de apoio amoroso, e como ela mesma definiu, acolheu a doença como algo natural, mesmo que aquele parecesse um desvio no seu roteiro. “Não pensava na gravidade do que estava vivendo, eu simplesmente não enxergava assim. A sensação que tenho é que aquilo estava acontecendo para que eu colocasse em prática tudo o que havia aprendido até ali. Eu pensava: quais os recursos internos que tenho para lidar com isso?”, relata.  “Conto tudo isso no livro. A jornada dele começa com o diagnóstico, passa pela definição do protocolo de tratamento, as sessões de quimioterapia, seus efeitos colaterais e o efeito dos corticoides, a radioterapia e a criação dos três projetos sociais. E num presente recente, o caminho que me levou até ali, a importância das escolhas. Posso dizer que as minhas células rebeldes, o câncer, me trouxeram para a realidade, me fizeram despertar para a verdade de que a vida é finita e não devemos perder tempo ou deixar para amanhã o que podemos fazer hoje. E acho que esse sentimento de urgência é o que me move diariamente, que me faz sair da cama todos os dias. Espero que tudo que vivenciei possa tocar as pessoas para se inspirarem na construção de uma vida potente e significativa”.

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