Arte & Literatura

Artista plástico pernambucano Jota Azevedo, que faz arte de sucata eletrônica, vai lançar livro sobre sua técnica

A dimensão crítica da obra de Jota Azevedo pode ser observada no próprio processo criativo do artista. Criando a partir de algo que foi jogado fora, rejeitado, ele confronta a sociedade com seu próprio consumismo e materialismo. As peças resultantes, apesar de sua beleza plástica, de suas cores e de sua ludicidade, nos fazem, obrigatoriamente, pôr a mão na consciência – nem que seja apenas por alguns preciosos segundos – e meditar a respeito do que estamos fazendo com o planeta

Publicado em 07/11/2019 | Por Heloisa Tolipan

O artista pernambucano Jota Azevedo mostra um de seus robôs criados a partir de sucata eletrônica (Foto: Divulgação)

*Por Jeff Lessa

Há nove anos, o designer pernambucano Jota Azevedo viu uma exposição de aviões feitos com canos de PVC no aeroporto do Recife. Foi o suficiente para lhe despertar a vontade de criar obras de arte usando material que seria descartado, mas não necessariamente reciclado. Hoje, aos 40 anos, o artista do Recife, morador de Jaboatão dos Guararapes, faz esculturas e quadros a partir de resíduos eletrônicos e material reciclável.

Recentemente, Jota fez sua primeira exposição no Rio de Janeiro, dentro do festival de cultura digital Hacktudo, no final de outubro, na Cidade das Artes. Ele selecionou 30 obras entre quadros e esculturas de duas coleções, “Animales” e “Guerra ou Lixo” para expor. O que impressiona é que, diferentemente de projetos semelhantes, as obras do artista quase não permitem distinguir os materiais que foram utilizados, tal a perfeição dos resultados.

As penas do flamingo são feitas com aparelhos descartáveis de barbear (Foto: Divulgação)

A habilidade impressionante para compor as figuras vem da infância, quando Jota costumava desmontar seus brinquedos apenas para remontá-los de novo, como um hobby. “Nessa brincadeira, eu acabava remodelando tudo, criando formas novas”, conta. “E compartilhava as minhas ideias com as pessoas. Gosto de expandir. Com as peças, dá para fazer milhões de formas, infinitas imagens”. O que Jota demonstrava, na prática, era a diferença entre o quebra-cabeças ocidental (em que centenas ou milhares de peças se unem para formar uma única imagem) e o oriental (em que algumas peças são usadas para formar incontáveis imagens).

As penas do galo são feitas com aparelhos de barbear usados (Foto: Divulgação)

Ao longo dos anos, o artista desenvolveu seu próprio processo criativo. Ele pensa na imagem que deseja reproduzir: um sapo, por exemplo. “Faço, então, o contorno do sapo. O layout. E começo a encaixar as peças a serem recicladas dentro desse contorno”, diz. “No começo, eu cortava as peças para se adequarem à figura que tinha em mente. Fui sofisticando a técnica de modo a, cada vez mais, encaixá-las sem cortar, fazendo mais uma colagem”. Por isso, apesar da perfeição das imagens, é cada vez mais possível reconhecer de que são compostas as “pinturas tridimensionais”.

Uma das obras mais conhecidas do artista é o sapo (Foto: Divulgação)

Em sua primeira vez no Rio de Janeiro, o artista plástico pernambucano ministrou duas oficinas de construção de esculturas e robôs com resíduos eletrônicos, em que as obras foram produzidas com materiais usados em computadores e impressoras, como monitores, estabilizadores, placas mãe e cartuchos, além de objetos como escovas de dente, garrafas e aparelhos de barbear descartáveis. Uma obra de seu acervo pessoal foi adquirida pela também poeta e escritora Claudia Ahimsa, viúva do poeta Ferreira Gullar. Trata-se de um rinoceronte, animal que está no livro infantil que o poeta escreveu inspirado em um relato da companheira, “A Menina Claudia e o Rinoceronte”. Romântico, não?

 

A dimensão crítica da obra de Jota Azevedo pode ser observada no próprio processo criativo do artista. Criando a partir de algo que foi jogado fora, rejeitado, ele confronta a sociedade com seu próprio consumismo e materialismo. As peças resultantes, apesar de sua beleza plástica, de suas cores e de sua ludicidade, nos fazem, obrigatoriamente, pôr a mão na consciência – nem que seja apenas por alguns preciosos segundos – e meditar a respeito do que estamos fazendo com o planeta.

O camaleão impressiona pela riqueza de detalhes e pela perfeição (Foto: Divulgação)

Em 2012, quando fez sua primeira exposição, Jota conheceu o artista de rua português Bordalo II, que faz trabalhos gigantes com resíduos, e manteve a amizade desde então. “Ele tem obras de cinco metros de altura”, conta o pernambucano, acrescentando que, em breve, os dois vão trabalhar juntos em novos projetos. O uso artístico do lixo por Bordalo II, como nos trabalhos de Azevedo, faz referência a um mundo em que as coisas perdem rapidamente seu valor, deteriorando-se não apenas fisicamente como também perdendo utilidade e status. São objetos importantes que se tornam, logo após utilizados até a exaustão, lixo. (É interessante comentar aqui que o nome Bordalo II presta homenagem ao o conhecido pintor lusitano Real Bordalo, avô do jovem artista nascido em Lisboa em 1987).

O tucano é tão perfeito que quase não dá para identificar as peças que o compõem (Foto: Divulgação)

Atualmente, Jota Azevedo está preparando o primeiro livro sobre seu trabalho. “Vou ensinar o passo a passo sobre como fazer projetos. Posso adiantar que as obras são criadas com materiais usados em computadores e impressoras, como monitores, estabilizadores, placas-mãe e cartuchos, além de objetos como escovas de dente, garrafas e barbeadores. As peças são aparafusadas e coladas usando a técnica de assemblage (colagem com objetos tridimensionais). A finalização é feita com spray automotivo. Esta é única etapa que ainda não tem uma alternativa sustentável”, revela. “E já tenho a ideia para um segundo livro, composto apenas de fotos”.

A cauda desta águia é feita de cabos de escovas de dente (Foto: Divulgação)

Sara, a filha de 15 anos que, até há pouco tempo, não desgrudava do pai, agora prefere desenhar e dedicar seus dias ao cosplay, arte pela qual é apaixonada. “É natural, ela é adolescente, né?”, conforma-se Azevedo, que também trabalha como designer de estampas e de produtos de surfwear.

Criador do Projeto Gênesis, em que leva técnicas adquiridas como designer para crianças carentes aprenderem a reciclar criando seus próprios brinquedos, ele vê no “lixo” uma matéria-prima riquíssima para a arte. O designer desenvolveu desde a infância, quando fazia seus próprios brinquedos, a habilidade de transformar objetos em robôs, veículos, naves e outras coisas que parecem saídas de filmes de ficção científica. O nome do projeto se refere ao primeiro livro da Bíblia: “Em 2011, participei de dois eventos em São Paulo e, quando voltei, percebi o quanto meu trabalho teve impacto por ser totalmente sustentável. Pensei em fazer mais: ‘posso diminuir o lixo dos lares educando crianças’. Convidei várias crianças para aprenderem um pouco do que tenho desenvolvido. É disso que se trata o nome Gênesis. É Terra e vida”.

Azevedo tem, entre seus clientes, empresas como Redbull, Siemens, Gerdau, BB Seguro do Banco do Brasil, Prefeitura de Recife, Braskem e Mallwee, entre muitas outras. Seus trabalhos já foram expostos na França e na Inglaterra. No Brasil, são avaliados entre R$ 3.500 e R$ 13.000.

No momento, porém, o desejo do artista não é estar em vernissages nas grandes capitais mundiais da arte ou em museus ou galerias renomadas no exterior. Ele quer mesmo é terminar a obra na casa da família em Jaboatão dos Guararapes, na região metropolitana de Recife: “Estamos morando no primeiro andar de um prédio, mas é como uma gaiola. Nunca gostei de apartamento, fui criado em casa, com quintal. Sou do Recife, mas meus pais sempre gostaram de morar em Jaboatão. Estou só esperando a reforma acabar para a gente se mudar”.

Simples assim.

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