Após visita de Madonna, presidente da Casa Amarela, no Morro da Providência, comenta cenário de medo e alerta sobre a segurança da cantora no local: “Isso tudo é a maior bobagem”


Após uma tarde programada com um dia de antecedência e sem aviso prévio à comunidade para evitar qualquer tumulto, a Casa Amarela e o Morro da Providência passaram a ser assuntos na imprensa mundial por causa da visita da estrela norte-americana. “Foi legal para a casa”, disse Maurício Hora

No alto do Morro da Providência, no Centro do Rio de Janeiro, uma casa amarela e uma imensa escultura de lua. No entorno da cidade, uma sensação de medo e de insegurança ainda paira sobre os cariocas, principalmente quando envolve o cotidiano das comunidades, desde sempre abandonada pelo poder público. Mas parece que o noticiário não foi determinante sobre as vontades da Rainha do Pop. Na quarta-feira passada, Madonna subiu o Morro da Providência, passeou pelos becos e conheceu a Casa Amarela, centro comunitário dedicado à arte e educação que tem o fotógrafo francês JR, amigo da artista, como investidor. Na visita, que ganhou status de “loucura” e “gesto de humildade” nos comentários de Madonna, Maurício Hora foi o responsável por levar a artista até o alto do morro e apresentar o centro comunitário inaugurado em 2009.

Após uma tarde programada com um dia de antecedência e sem aviso prévio à comunidade para evitar qualquer tumulto, a Casa Amarela e o Morro da Providência passaram a ser assuntos na imprensa mundial por causa da visita da estrela norte-americana. No entanto, apesar de reconhecer o prestígio, Maurício não engrandeceu a experiência da última quarta-feira ao lado de Madonna. “Foi legal para a casa. Mas eu sou muito acostumado com isso, não me assusta acompanhar a repercussão. Na verdade, ainda não vi nenhum resultado desta visita. Porém, reconheço que a passagem dela vai agregar valor ao centro”, disse Maurício que é fotógrafo e presidente da instituição Casa Amarela.

E a opinião de Maurício Hora tem algumas explicações. Além de já ter tido outras presenças ilustres na Casa Amarela antes de Madonna, como os integrantes do Blue Man Group, o presidente da instituição falou sobre Madonna. “Essa questão de visibilidade é complicado. Eu não sou apaixonado por ela e, por isso, para mim a visita não teve esse efeito todo. Ontem mesmo, por exemplo, recebemos outra famosa aqui (a modelo Michelle Alves, que se casou com Guy Oseary esta semana – motivo pela qual Madonna veio ao Rio)”, contou Maurício que, sincero, ainda demostrou insatisfação com os comentários acerca da visita.

Após compartilhar uma foto no Morro da Providência ao lado de policiais da Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) da comunidade, Madonna foi alertada do clima de insegurança no Rio e do perigo, para alguns seguidores, que aquele passeio poderia representar para a cantora. Inclusive, no dia em que Madonna visitou a comunidade, horas antes, um homem foi baleado em um tiroteio no local. Mas, para Maurício Hora que, além de fotógrafo e presidente da Casa Amarela também é morador “nascido e criado na Providência”, tudo isso é um erro de quem não vive a realidade da comunidade. “Na boa, isso tudo é a maior bobagem. Ela foi muito simples o tempo todo e não tivemos nenhum problema. Foi tudo muito tranquilo e em momento algum ela mostrou estrelismo. O tempo todo eu estava do lado da Madonna e posso garantir que não aconteceu nada que justificasse esse alarde”, afirmou.

Inclusive, Maurício acredita que esse medo apontado pelos seguidores da cantora tenha outra explicação. “Todo mundo tem que especular sobre tudo. Então, as pessoas acabam usando a vinda da Madonna a um centro comunitário como um motivo para falar da segurança e da violência na cidade. Bem ou mal, a mídia tem que sobreviver”, criticou o presidente da Casa Amarela que ainda completou. “As pessoas se preocupam tanto com bandido, mas esquecem que quem matou a turista na Rocinha foram os próprios policiais. E esse é o meu maior medo na favela. Eu sou nascido e criado na Providência e, para mim, o risco está naqueles que deveriam nos proteger”, disse.

Nesta situação, as comunidades cariocas seguem na sombra do preconceito talhado pelo asfalto. Pontos turísticos para uns e realidade difícil para outros, o Maurício Hora enxerga este panorama como uma propaganda dos níveis superiores. “A violência é uma moeda de troca. De certa forma, ela precisa ser mantida para que os batalhões sobrevivam e o governo venda a ideia de segurança pública. Na minha opinião, a violência é vista como um negócio, que é alimentada visando algo em troca. E aí, nesse cenário, a favela passa a ser o plano de fundo desse medo. Porém, se fosse tão perigoso morar no morro como dizem, quando houvesse tiroteios como aqueles da Rocinha nem mesmo os moradores ficariam em casa. Mas não é isso o que vemos. Aliás, isso não é nem discutido”, analisou.

A Casa Amarela trabalha hoje com cerca de 40 crianças e adolescentes do Morro da Providência (Foto: Reprodução)

Com o medo como complemento do endereço da Casa Amarela no Morro da Providência, o presidente da instituição destacou a dificuldade de manter um centro comunitário dedicado aos jovens da comunidade. “Eu tenho a experiência de ser favelado e, por isso, conheço bem o território e sei como a comunidade funciona. Mas é obvio que existe uma imensa carência em todos os elementos culturais. Eu acredito que a Casa faça a sua parte para melhorar isso, mas ainda assim não é o suficiente”, disse Maurício sobre o projeto que nasceu em 2009 com o apoio e investimento de JR com o objetivo de ser um espaço dedicado à fotografia, profissão do presidente da instituição. “Esse era para ser o elemento principal do centro comunitário. Porém, quando começamos a desenvolver os projetos e atividades, percebemos que a carência era ainda maior, era na educação. A partir daí, o nosso foco passou a ser esse. Inclusive, mudamos o que seria uma biblioteca para uma sala de leitura porque percebemos que muitos adolescentes, já quase no Ensino Médio, não sabiam ler direito”, disse.

Envolvida por dificuldades internas e externas à comunidade, a Casa Amarela segue ativa com o incentivo apenas de JR e alguns amigos. Como contou Maurício, que é quem cuida do espaço na Providência, a instituição não recebe recursos de marcas e nem do governo. Em compensação, a instituição tem uma lista de grandes nomes como visitantes, incluindo a mais recente, Madonna. Para o futuro, Maurício acredita que a Casa Amarela trará mais movimento para a comunidade do centro do Rio. Mas não é por causa da Rainha do Pop. “Amanhã, 28, nós vamos inaugurar a Lua e eu acho que isso vai trazer muitos visitantes. Ela fica no ponto mais alto do morro e é enorme. Por diversos pontos do Rio é possível ver essa estrutura, e também pode-se ver vários cantos da cidade lá de cima”, contou Maurício Hora.