Arte & Literatura

A eterna musa do nu frontal do Oficina, Ítala Nandi lança livro de contos sobre bastidores da TV e teatro

Atriz lança, no dia 31, na Livraria da Travessa, em Ipanema, reunião de 12 histórias curtas reunidas em "Milagres" e, em setembro, ela estará de volta no filme “Domingo”, de Felipe Barbosa e Clara Linhares

Publicado em 31/07/2019 | Por Heloisa Tolipan

*Por Jeff Lessa

Ítala Nandi foi a primeira atriz a encarar uma cena de nu frontal no teatro. A “ousadia” rolou na peça “Na Selva das Cidades”, em 1969, com o Grupo Oficina, do qual foi uma das fundadoras e que permanece na vanguarda até hoje. A cena, emblemática, chega aos 50 anos em 2019. E Ítala está comemorando seis décadas de carreira. Para celebrar à altura da importância da data, a atriz lança, no dia 31, seu livro de contos “Milagres”, na Livraria da Travessa de Ipanema. Um detalhe charmoso: “Milagres” é bilíngue e foi escrito também em italiano, idioma da família paterna. Também é chamado de “Miracoli”.

O que motivou o título foi a profunda crença da atriz em… milagres. “Acredito muito, desde sempre. Há quem ache que essas minhas histórias são de verdade e há quem duvide. Eu não confirmo nem desminto”, diz, divertida, Ítala, cuja experiência com a literatura não começou ontem: o livro de contos é sua quarta publicação. Antes dele vieram “Teatro Oficina, Onde a Arte Não Dormia”, em 1989; a biografia “Ittala Nandi, Retrato de uma Deusa” (escrita com o italiano Claudio Maria Valentini em 2013); e o romance futurista “O Sonho de Vesta”, de 2014, indicado ao Prêmio de Literatura do Estado de São Paulo daquele ano. “Escrevi muitos contos para o jornal do colégio”, brinca.

Primeira atriz a fazer nu frontal no teatro brasileiro, em 1969, Ítala está comemorando 60 anos de carreira (Foto de Roberto Cardoso)

Nas 12 histórias curtas de “Milagres”, Ítala parte da realidade para criar ficção. Todas as histórias são baseadas em memórias das vivências nos bastidores de novelas como “Que Rei Sou Eu?” e “O Direito de Amar”, da TV Globo; e em experiências com o cinema, como quando dirigiu o documentário “Índia: O Caminho dos Deuses”, entre outras produções. “Eu já vislumbrava os contos enquanto vivia a realidade dessas produções. As histórias se passam na Índia, no Nordeste, em Goiás… Durante as filmagens, esperando, eu anotava tudo que via em volta num caderninho”, revela. “Quando reli aquelas anotações, percebi que tinham ficado muito bonitas e gostosas”.

O conto mais “antigo”, ou seja, a primeira das tantas anotações que viriam pelos 30 anos que se seguiram, vem das gravações de “Mãe de Santo”, minissérie dedicada aos orixás exibida pela extinta TV Manchete entre outubro e novembro de 1990. O behind the scenes do filme “Amor e Traição”, estrelado por Ítala, Claudia Ohana e Jofre Soares e dirigido por Pedro Camargo, também serviu de inspiração para dois contos. A atriz foi casada com o diretor, com quem viveu uma história digna de um… conto.

“Fui a única mulher dele. Sonho muito com o Pedro. É a pessoa com quem mais sonho”, conta. “Na verdade, eu sonho muito, demais. Gosto disso. Tenho muitas histórias anotadas, mas nunca usei como enredo de cinema ou teatro. No entanto, depois de escrever meu romance, ‘O Sonho de Vesta’, passei a sonhar com a mulher do livro”.

Para quem estava com saudades de Ítala Nandi nas telas de cinema, uma boa notícia: em setembro ela estará de volta no filme “Domingo”, de Felipe Barbosa e Clara Linhares. A atriz interpreta Laura, a matriarca de uma família gaúcha que recebe parentes em seu casarão decadente no dia da primeira posse de Lula como presidente, em 2003. As mudanças prometidas aborrecem a mulher profundamente, pois ela teme ver seu poder e sua riqueza diminuírem ainda mais. O papel lhe valeu o prêmio de Melhor Atriz no último Festival do Rio.

A matriarca Laura acredita que a política social do presidente Lula a deixará menos rica e poderosa (Reprodução)

Ela conta, ainda, que está na fase de pré-produção de “A Caçada”, filme baseado na peça homônima de Evaldo Mocarzel, que também será o diretor. “Deve estrear no final do ano. No elenco tem dois gaúchos de verdade, eu e o Werner Schünemann”, diz. Na TV, ela pôde ser vista na reprise da novela “Os Mutantes”, da TV Record, a partir de março deste ano, e está no ar com a série política “Baile de Máscaras”, da TV Cultura, interpretando a governadora do estado do Rio.

Falando nisso, Ítala mora na capital do estado e perguntamos por que costumo associá-la sempre a São Paulo. “Morei 15 anos da minha vida lá. Foi todo o meu período no teatro. Deve ser por isso”, explica. Atualmente, a musa do Teatro Oficina e de tantas frentes essenciais à cultura brasileira mora no Recreio. “Eu morava em Ipanema, me mudei para a Barra e vim para o Recreio. Estou aqui desde 2014”. O périplo foi por uma boa causa: ficar mais perto de sua escola, o Espaço Nandi Formação de Atores onde, além das tradicionais aulas de interpretação, técnicas de corpo, improvisação etc, os alunos podem aprender dublagem.

Seria exagero dizer que nunca houve uma mulher como Ítala?

Com 12 contos, ‘Milagres’ é bilíngue e vem escrito também em italiano (Foto de Divulgação)

SERVIÇO

“Milagres”

Ed. Pimenta Malagueta, 180 páginas, R$ 45

Lançamento: 31 de julho

Livraria da Travessa de Ipanema: Rua Visconde de Pirajá 572 – 3205-9002

Segunda a sábado, das 9h às 23h. Domingos e feriados, das 10h às 23h

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