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Oscar realiza a cerimônia mais inclusiva da história

Diante das pressões por mais representatividade e das recentes polêmicas envolvendo escândalos raciais e sexuais, a premiação mais famosa do planeta mostra que se alinhou à nova ordem mundial

Publicado em 25/02/2019 | Por Iron Ferreira

Domingo, o mundo das artes parou para acompanhar a 91ª edição do Oscar. Na maior e mais importante festa do cinema, o número de negros e mulheres e latinos premiados bateu o recorde. Realizada anualmente desde 1929 pela Academia de Artes e Ciências Cinematográficas (AMPAS), a cerimônia possui um histórico misógino e racista em sua história. Por ser um evento de alcance mundial, no qual os principais veículos de comunicação internacional estão presentes, muitos artistas o utilizam para dar visibilidade a assuntos com relevância social.

Porém, esse ano, a renovação finalmente pairou sobre a luxuosa celebração e fez jus à recente tentativa da academia de ser mais atual e representativa. A indicação de “Pantera Negra” na categoria de Melhor Filme é um claro exemplo disso. O primeiro longa de super-herói a figurar entre os principais da noite possui singular relevância para os movimentos em prol da cultura negra. Outro grande feito do filme foi viabilizar Ruth E. Carter como vencedora da estatueta de Melhor Figurino e Hannah Bleacher com o prêmio de Melhor Design de Produção. As duas foram as primeiras mulheres negras a vencer as respectivas categorias. Spike Lee, importante diretor e ativista da causa negra, venceu seu primeiro Oscar na categoria de Melhor Roteiro adaptado pelo filme “Infiltrado na Klan”.

O Oscar 2019 entrou para a história ao se tornar o mais inclusivo de todos os tempos. Foi o que mais premiou mulheres, negros e latinos (Foto: Divulgação)

Problemas no Passado

Hollywood é um dos maiores berços culturais do mundo, e é responsável por lançar filmes e astros conhecidos internacionalmente. Como os produtores, roteiristas e diretores eram, em sua maioria, homens brancos, era mais difícil que projetos que retratavam a diversidade fossem levados a diante. À medida que a sociedade se transformou, a representatividade nos cargos executivos tornou-se maior, o que viabilizou ideias e projetos mais plurais. Apesar dessa importante mudança, o Oscar demorou a refletir a nova realidade.

Uma das principais acusações levantadas contra a premiação é a de racismo. As cerimônias de 2015 e 2016 foram marcadas pela ausência de negros nas principais categorias. Todos os indicados a direção e atuações, principais e coadjuvantes, foram brancos. A polêmica foi tão grande que gerou uma mobilização na internet, com a #OscarSoWhite atingindo os trending topics do Twitter. Várias personalidades como o ator Wiil Smith e a atriz Jada Pinkett Smith, sua esposa, não compareceram à edição daquele ano como forma de protesto. Outros exemplos ajudam a corroborar essa afirmação. De 2003 a 2018, todas as vencedoras do prêmio de Melhor Atriz foram brancas, e entre os ganhadores de Melhor Ator de 2008 a 2018, não há nenhum negro. Dos quase seis mil membros que decidem os nomeados ao Oscar anualmente, cerca de 94% são brancos, o que explica a falta de diversidade também no número de votantes.

A atriz Patricia Arquette falou sobre a igualdade de salários entre homens e mulheres durante o seu discurso de agradecimento pelo Oscar de melhor atriz coadjuvante em 2015. (Foto: Divulgação)

Outro assunto polêmico que repercutiu na cerimônia é o machismo. Em 91 anos de história, apenas cinco mulheres foram indicadas ao prêmio de Melhor Direção e apenas uma, Kathryn Bigelow, consagrou-se vencedora pelo filme Guerra ao Terror, de 2008. Em 2018, Rachel Morrison converteu-se na primeira mulher a concorrer ao prêmio de Melhor Direção de Fotografia da academia. A diferença de salário entre homens e mulheres também foi pontuada durante a cerimônia. A atriz Patricia Arquette falou sobre o assunto ao ganhar o Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante em 2015: “Para toda mulher que deu à luz a cada contribuinte e cidadão desta nação. Nós lutamos pelos direitos iguais de todas as outras pessoas. Agora é o nosso momento de ter igualdade salarial, de uma vez por todas! E direitos iguais para as mulheres dos Estados Unidos da América”. Os escândalos sexuais e as graves denúncias de assédio na indústria cinematográfica atingiram Hollywood em cheio, e mais uma vez a festividade foi palco de importantes discussões. O movimento Time’s Up e #MeToo inspiraram atrizes e diversas profissionais a falarem sobre o assunto e denunciarem seus abusadores.

A organização dos movimentos sociais e a adesão de personalidades surtiu efeito, ajudando a transformar a premiação e a promover mais inclusão e representatividade. A edição de 2017 apresentou um número recorde de indicações de profissionais negros ao prêmio. Já em 2019, o número de mulheres lembradas pela academia cresceu. Segundo o presidente da instituição, John Bailey, os executivos estão atentos às mudanças: “Inclusão, diversidade, igualdade racial, étnica e de gênero não são apenas palavras de ordem. Vão ao coração do que nossa Academia está fazendo”.

Foto oficial dos indicados ao Oscar 2019. A cerimônia, que aconteceu no dia 24 de fevereiro, registrou um aumento no número de mulheres e negros entre os principais indicados. (Foto: Divulgação)

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