Desistência de Sonia Braga, atores no frio argentino e fracasso no SBT: relembre os 30 anos de “Antonio Alves Taxista”


Trinta anos após sua exibição, “Antonio Alves, Taxista” permanece como um dos maiores fracassos da história do SBT, tanto pela baixa audiência quanto pelos bastidores turbulentos. Produzida entre Argentina e Brasil, a novela enfrentou problemas técnicos, críticas ao texto e condições precárias de produção. O episódio mais marcante foi a saída de Sonia Braga, que denunciou a qualidade da obra e a forma como o candomblé era retratado, gerando uma grande polêmica. O elenco também relatou dificuldades durante as gravações, enquanto a audiência ficou abaixo das expectativas da emissora. Três décadas depois, a trama segue lembrada menos por sua história e mais pelo caos que marcou sua realização

*por Vítor Antunes (com pesquisa de Sebastião Uellington Pereira)

Uma novela recorrentemente usada como exemplo de fracasso e que tinha Fábio Junior como protagonista. A trama rocambolesca e controversa, transmitida pelo SBT em 1996, completou 30 anos. Se ela passou em brancas nuvens pela audiência, o mesmo não se pode dizer dos seus bastidores. Sonia Braga abandonou o barco tão logo percebeu que era furado. Elaine Cristina considera a novela uma pedra em seu sapato e o SBT nunca ousou reprisa-la. “Antonio Alves, Taxista” é uma versão da telenovela argentina “Rolando Rivas, Taxista” (1972), de Alberto Migré. Na semana em que Sonia Braga completa 76 anos, vamos revisitar a novela da qual ela pediu para sair.

“Antonio Alves, Taxista” foi produzida em Buenos Aires pela Ronda Studios e pretendia ser uma produção de peso, especialmente para os padrões do SBT. Sua estreia estava inicialmente prevista para abril, mas atrasou em um mês — muito em razão da “péssima qualidade de gravação”. Segundo O Fluminense, o sistema de gravação e a qualidade da imagem eram diferentes daqueles gerados no Brasil. Uma das vontades da emissora era que ela tivesse em seu elenco Sonia Braga, que estava afastada das novelas desde 1980. E chegaram bem perto de tê-la: Sonia inclusive chegou a assinar contrato e foi para as gravações. O pesquisador Sebastião Uellington Pereira conseguiu localizar a única foto de divulgação de Sonia ao lado de Fábio Junior para esta produção. Com a saída de Sonia, cogitou-se Yona Magalhães (1935-2015) — que só no fim daquele ano voltaria ao ar numa trama da Globo, “Anjo de Mim“. Branca Camargo substituiu Sonia Braga. A atriz vivia uma personagem que era amiga de Odile, vivida por Sonia.

Única foto localizada de Fábio Jr e Sonia Braga em “Antonio Alves” (Foto: Reprodução/JB/Biblioteca Nacional)

A novela era dirigida por Jorge Montero, se passava em São Paulo, mas era gravada entre Buenos Aires e Florianópolis. As primeiras cenas, contudo, chegaram a ser gravadas numa praça do bairro do Sumaré, em São Paulo — a Irmão Karman —, já com Fábio Junior e Sonia Braga. A cena era a do capítulo três. Inicialmente, Sonia fez poucas exigências. “Pedi somente para mudar os móveis de lugar enquanto estiver em hotel e sugeri o cabeleireiro Robim e o maquiador Guilherme Pereira” — Guilherme era o maquiador de O Quatrilho, filme indicado ao Oscar de Melhor Filme Internacional naquela ocasião. O Dia apontou que Sonia pediu também um trailer com ar-refrigerado para as cenas externas.

AS GARRAS DA FELINA

À Revista de Domingo do JB, numa entrevista a Cilene Guedes e a Hélio Muniz, Sonia explicou o que a motivou a sair da trama:

Foi um erro meu ter aceitado a palavra deles a respeito do que seria o projeto da novela Antonio Alves, Taxista. Não há a menor possibilidade de eu participar de um projeto daquele sem reclamar. A única diferença do projeto sem mim é que teria passado sem denúncia. Me despediram da novela pela minha denúncia. (…) Mas indignidade e injustiça têm que ser reparadas. Protestei contra a qualidade da novela, uma produção argentina que visava apenas lucro. Não consigo viver com gente mesquinha. A novela era ruim na essência. Falava-se mal da religião brasileira, parte da nossa cultura, que é o candomblé. Como vou participar de uma novela em que macumba é coisa do mal? Não vou. Quer dizer, vou, porque assinei um contrato. Mas protestar é meu direito. Me demitiram da novela. O que está sendo julgado agora é a complementação do salário. Quando fui fazer a novela, parei todos os meus projetos. Foi um prejuízo enorme. Quando não fiz a novela, mais prejuízo, porque contava estar no ar na TV brasileira. Era uma estratégia de carreira. Estou preparando minha volta ao Brasil. Veja a gravidade da coisa: quem é que está decidindo quem trabalha ou não trabalha na TV brasileira? O público? É o que digo. Resistem porque peço muito ou porque peço qualidade. O ‘peço por escrito’ é que ninguém sabe ainda. Qualquer empresa que entre numa concorrência faz uma proposta por escrito. Então, o que há de errado em um ator pedir isso? Mostra boa-fé. A Globo me propôs participar dos primeiros capítulos da novela das sete que vai começar agora (NOTA: Possivelmentre trata-se de “Cara & Coroa) . ‘Olha, é para ser mais ou menos em setembro — pergunta quanto ela quer ganhar’, disseram à minha irmã. Eu disse que era o contrário: ‘Digam as datas e quanto querem pagar. Fica mais justo.’ Se não é por escrito, pode até ser boato. Dizer que Sônia Braga vai participar de uma novela pode servir de jogada de marketing para a emissora. O caso do SBT, não sei se foi proposta do Vicente Sesso ou da empresa. Na Globo, não sei se era do Wolf Maya ou da emissora. Existe na TV o vício de especular. Ela está protegida; o ator, não. Sofre calúnias, fofoca, é contratado num dia e despedido no outro por jornais diferentes. As próprias empresas soltam essas notas. Tinha uma estratégia que foi destruída. Quando voltei para os EUA, tive que me reorganizar. Primeiro, mudei de agente. Agora, tenho um em Nova Iorque, onde moro, não mais em Los Angeles. — Sonia Braga

Antonio Alves Taxista foi exibida pelo SBT em 1996 (Foto: Reprodução/SBT)

Naquele momento, Sonia começou a ficar conhecida como “doida varrida”, pois passou a varrer as ruas de Buenos Aires durante as gravações — enquanto reclamava do texto, segundo relata o JB. À época, o jornal apontou que Sonia disse: “Se o texto não for corrigido, não gravarei.”

E Sonia Braga teve muitos motivos para enlouquecer durante uma cena de candomblé que chegou a ser feita. “A mãe-de-santo era uma atriz argentina, que dizia em espanhol ‘Mi hija, mi hija, no te preocupes’, toda vestida de preto. No terreiro, Exu estava como orixá e uma mesa era coberta por uma toalha vermelha. De início, eu e Guilherme — maquiador da atriz — sugerimos que a personagem se vestisse de branco e que a toalha fosse tirada.” Sonia entrava numa igrejinha onde dialogava com Deus. “Acendo uma vela para o diabo e outra para Deus. Com o diabo sempre me entendi; com você, não”, dizia o personagem. “Gravei a cena, mas mandei uma carta de protesto ao Silvio Santos. A gente estava mexendo com raízes brasileiras, com os nossos ancestrais.”

Sonia também protestou diante de uma cena em que o personagem de seu marido insinuava que ela saísse com um ministro por interesses políticos. “Isso não cabe no Brasil do século XXI”, disse em entrevista a Artur Xexéo, do JB. O jornal O Dia sentenciou: “Com texto mal traduzido e cheio de filosofia barata, a novela é um primor de pieguice.”

Elaine Cristina em “Antonio Alves, Taxista”, do SBT. Uma produção caótica (Foto: Reprodução SBT)

“Na novela não havia personagem para mim: somente para o taxista, uma namorada rica e uma namorada pobre.” — Sonia Braga, ao JB, em 13/04/96.

À época, o SBT disse ter rescindido o contrato com Sonia, alegando que ela deixou de aparecer para as gravações e que teria faxes onde isso se comprovaria. Com a desavença, cogitou-se que a personagem duraria apenas dez capítulos, até que o SBT optou por desligar a atriz da novela. Inicialmente, a personagem de Sonia seria sensual — a descrição de uma das cenas apontava inclusive que ela faria uma cena com os seios à mostra. “Quero voltar sensual e bonita”, disse ao Fluminense. Seu personagem era descrito como “irremediavelmente ambiciosa, inconstante, contraditória e infiel”. Inicialmente, sua personagem se chamaria Odile, uma ex-prostituta e alpinista social. À sua saída, o nome mudou para Claudine.

Sonia, porém, deixou a novela após as primeiras gravações, o que gerou grande polêmica. (…) Em razão da saída de Sonia, conforme a novela ia avançando e caindo em audiência, cogitou-se que Fábio Junior também deixaria a trama — o que ele negou em diversas entrevistas a diversos jornais da época. O boato de que Fábio deixaria a trama se acalmou após a novela precisar ser esticada, de 78 para 82 capítulos. Fábio teve que desmarcar shows para gravar esses capítulos adicionais — quatro, em vez dos oito inicialmente previstos, depois de se cogitar que a trama teria 135. “A história era falada em português, mas soava como um drama latino” — disse O Fluminense após a primeira semana da trama. Na estreia, o previsto era que Taxista fizesse pelo menos entre 15 e 20 pontos. Na estreia, fez 13.

Antes da novela, Fábio foi convidado a fazer O Fim do Mundo, na Globo, mas declinou. Ao convite do SBT para que fizesse Antonio Alves, Taxista, aceitou — muito em razão de seu pai ter sido taxista e assassinado enquanto trabalhava, em 1982. Fábio estava fora do ar desde 1992.

Ao fim da malfadada trama, Fábio foi convidado a fazer A Indomada, inicialmente para o papel do prefeito de Greenville, Ypiranga Pitiguary. Porém, negou fazer em razão da quantidade intensa de gravações, que seriam de segunda a sexta — segundo declarou ao Fluminense. Em seu lugar, entrou Paulo Betti. A Fábio foi cogitado outro personagem, que não foi revelado qual era. Sua esposa na ocasião, a atriz Guilhermina Guinle, também faria A Indomada, mas ao fim ambos não participaram. Fábio só voltaria às novelas em 1998, com Corpo Dourado — sua última novela até o momento. Em 1998, Fábio falou de Antonio Alves e de O Amor é Nosso: “Na Globo também fiz uma novela que foi apelidada de ‘O Fracasso é Nosso’, chamava O Amor é Nosso. Mas tenho muita sorte, porque eu cantava o tema de abertura, a novela implodiu mas a música explodiu. Foi legal.” — lembra ele.

Fábio Junior e Guilhermina Guinle em “Antonio Alves” (Foto: Divulgação/SBT)

O autor e ator Ronaldo Ciambroni era um dos adaptadores do texto, que era traduzido por ele e devolvido em português para Buenos Aires. Os atores tinham uma versão em português e os diretores, o mesmo texto em espanhol. Durante a produção, Ciambroni chegou a ter cólica renal e foi internado, segundo O Fluminense. Em razão das críticas de Sonia Braga, ele disse que a novela era escrita em espanhol, traduzida por ele e datilografada “por uma argentina que não tinha intimidade com a língua portuguesa”. A novela só teria estreado na Argentina no fim do ano. Em Antonio Alves, Taxista, o SBT lançou mão do velho truque de manter um slide parado na tela aguardando o fim do capítulo da trama da Globo para exibir a reprise do capítulo de estreia de Antonio Alves. O slide parado rendeu 5 pontos, segundo o JB. A novela marcou a estreia de Guilhermina Guinle como atriz de TV e a primeira participação em novela de Adriane Galisteu.

À LUZ DE CARVÃO

A crítica era tão pesada no Brasil que o dono da Ronda, Omar Romay, segundo matéria de O Fluminense, fez uma festa para os atores num restaurante conhecido na Argentina na época, o La Castañeda. Porém, não é possível saber se todos os atores foram contemplados com esse “mimo”. Em 2022, aqui para o Site HT, Elaine Cristina considerou esta como uma de suas novelas mais traumáticas — ao lado de O Outro, da Globo. “Duas pedras no sapato. Não foram nada agradáveis. Na Argentina, o elenco ficou dividido: uma parte no Cristóforo Colombo — hotel de luxo — e outra num prédio sem zeladoria. Os atores tinham que comprar roupas de cama em razão do frio, além de terem que comprar gás para cozinhar. Isto já me fez ficar com um nó na garganta. Outros problemas contratuais — como a não liberação de passagens para as pessoas que iam visitar a família e cláusulas leoninas e dúbias — geraram grande indisposição. Tentaram me tirar da novela e o Migré — 1931-2006 —, o autor, que eu não conhecia, disse que não ficaria se eu saísse. Foram bastidores muito conturbados, algo muito chato. Tinha problema em tudo: na iluminação, no figurino, não havia café no estúdio. Ainda assim, consegui salvar meu trabalho.” — descreve Elaine Cristina. Segundo ela, a proposta em fazer a novela era muito sedutora — um bom salário e mil e uma promessas. Mas que, na prática, não era bem assim.

Serafim Gonzalez, Elaine Cristina, Guilhermina Guinle e elenco de “Antonio Alves” (Foto: Divulgação/SBT/Tratada e corrigida por iA)

A crítica da época, do jornal O Dia, dizia que as cenas na casa do personagem de Fábio pareciam se passar numa caverna. Maria Helena Dutra, do mesmo jornal, classificou a trama como “um porre.”

Voltaria a fazer novelas no SBT, desde que não fosse na Argentina (risos). Claro que a novela não foi o maior primor, mas foi legal para mim pelas amizades que fiz. (…) A produção era uma precariedade. Estava prevista a virada do personagem e, a partir daí, ele cortaria os cabelos — mas desconsideraram que haveria a continuidade. Como vai ficar esse troço? Fora a iluminação, que parecia à luz de carvão.” — Fábio Junior, ao Fluminense, em 15 e 16 de dezembro de 1996