*por Vítor Antunes
Um nome que frequentou o rádio nos anos 1970, o cantor e compositor Fernando Mendes atravessa hoje um silêncio mais difícil de medir. Aos 75 anos, ele foi diagnosticado com a Doença de Alzheimer — informação tornada pública pela mulher, Elis Peratone, em postagens nas redes sociais e reiterada em um vídeo fixado no perfil do artista. Longe dos palcos há três anos, ele segue em tratamento, sem previsão de retorno, e vive com a família no interior de Minas Gerais.
No mesmo vídeo, Elis explica que durante algum tempo, circularam comentários de que o cantor estaria se apresentando alcoolizado. “Diziam que ele estava bêbado ou alcoolizado no palco. Até a gente descobrir, foi um sofrimento grande”, diz. O diagnóstico veio depois, quando a família passou a investigar mudanças de comportamento e lapsos cada vez mais evidentes. Um desses episódios, aparece em um vídeo recuperado por nossa equipe: ao ser perguntado sobre o tempo de carreira, Fernando responde “22 anos”. A conta não fecha. Seu primeiro grande sucesso, “A Desconhecida”, é de 1972 — o que leva sua trajetória a mais de cinco décadas.
O jornalista, pesquiador e crítico musical Rodrigo Faour destaca a importância de Fernando na cena musical brasileira, especialmente nos Anos 1970: “Como todos os artistas do segmento brega de sua geração, ele foi um artista de comunicação simples e direta com o público, por meio de suas letras, evitando metáforas difíceis ou melodias intrincadas. Falava com romantismo de grupos excluídos ou pouco valorizados, como PCDs, em “Cadeira de rodas“; suburbanas, caso de “Menina do subúrbio” e “Menina da janela“; outras com histórias tristes de vida – a exemplo de uma jovem que nunca sequer transou, caso de “A desconhecida“, e a “Menina da plateia“, episódio de uma fã que ia sempre aos shows e chorava quando a música era triste”, enumera Faour.
Ainda de acordo com Rodrigo, outros tipos, como as pessoas em situação de rua, caso de “A mendiga“, e assuntos triviais, mas tidos por pouco musicais, como a criança de pais separados criada no internato (“O internato“); o aluno apaixonado pela professora da escola (“Professora“), afora outras canções de amor sofrido, como convinha ao gênero, grudavam no ouvido, caso de “Você não me ensinou a te esquecer“. Há também a filosófica e inconformista, mas de linguajar bastante acessível, “Sorte tem quem acredita nela“, que derruba dogmas e superstições tão caras ao povo brasileiro e atitudes conformistas, cujos versos dizem “Não adianta um pé de coelho no bolso traseiro / Nem mesmo a tal ferradura suspensa atrás da porta / Ou um astral bem maior que o da noite passada / Pois toda sorte tem quem acredita nela (…) Não adianta ir à igreja e fazer tudo errado (…) Desperte pra vida / A sorte é irmã“. Para Faour, esta música é uma das melhores de Mendes, ao lado de “Você não me ensinou a te esquecer“.
E AGORA? QUE FAÇO EU DA VIDA SEM VOCÊ?
Em 2004, “Você Não Me Ensinou a Te Esquecer” voltou ao centro do repertório popular na gravação de Caetano Veloso, incluída na trilha de “Lisbela e o Prisioneiro”. A regravação reposicionou a canção — e, por extensão, o próprio Fernando — diante de uma nova geração. Indicada ao Grammy Latino naquele ano, a faixa funcionou como uma segunda vida para um compositor que, desde o fim dos anos 1970, já não frequentava as paradas com a mesma regularidade. Esta música também foi gravada por Gilmelândia, em 2003, e pela dupla Chrystian e Ralf em 1992. Em 1975, o terceiro LP de Fernando emplacou “Cadeira de Rodas” e ultrapassou 250 mil cópias vendidas em poucos meses, rendendo disco de ouro. No ano seguinte, vieram “A Menina da Calçada” e “Sorte Tem Quem Acredita Nela”, esta última tema da novela Duas Vidas. Em 1978, “Você Não Me Ensinou a Te Esquecer” lhe daria o Prêmio Villa-Lobos de disco mais vendido. O auge de Mendes, porém, havia ficado para trás, concentrado naquela década.
Faour ressalta que Caetano, habitualmente, resgata canões populares que ficaram esquecidas. “Veloso, como excelente intérprete que sempre foi, é mestre em recriar e trazer de volta ao sucesso canções de autores considerados cafonas ou populares, como Vicente Celestino (1894-1968), revisitado em “Coração materno“, no LP “Tropicália” de 1968), bem como “Sonhos”, em 1982, e “Sozinho”, em 1998, ambas de Peninha; “Felicidade”, de Lupicínio Rodrigues (1914-1974), em 1974, entre outras, e esta de Fernando Mendes, para a trilha de “Lisbela e o prisioneiro“, de Guel Arraes”.
A reportagem procurou pela família de Fernando pedindo mais informações sobre ele, porém não foi respondida até o fechamento deste texto.
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