Moda & Beleza

Estilista Silvana Louro comemora os 4 anos de sua marca voltada para deficientes: “Pensei em desistir”

No início da marca, ela contou que muitas pessoas do mundo da moda não apostaram na sua ideia. "Muitas pessoas da moda não me apoiaram na época, falavam até que a roupa era deprimente", lamentou a profissional. Atualmente, a estilista está estabelecida no ramo e é uma referência quando a história é moda inclusiva

Publicado em 18/12/2017 | Por Ana Clara Xavier

De acordo com o censo de 2010 feito pelo IBGE, 23,9% da população brasileira possui algum tipo de deficiência. Isto compreende 45,6 milhões de pessoas que vivem, em sua maioria, em centros urbanos. A partir destes dados, é compreensível a luta de tantos cidadãos que pedem uma maior inclusão deste público na sociedade. Este fluxo de adaptação vai desde transportes públicos adaptados a uma moda voltada para estes indivíduos. E você não leu errado. Pode soar diferente, mas assim como existe roupas feitas para mulheres grávidas e bebês, é necessário peças que se adaptem a deficientes também. “As pessoas que possuem necessidades especiais são completamente invisíveis”, afirmou Silvana Louro. Foi pensando em abraçar estas pessoas que a estilista Silvana criou a sua própria marca chamada Equal Moda Inclusiva. O projeto já existe há quatro anos e contou com muitos colaboradores que se apaixonaram pela ideia tanto quanto ela. O objetivo principal da marca é ter peças lindas, funcionais e que tenham algum tipo de adaptação.

Silvana Louro é a estilista a frente da Equal Moda Inclusiva (Foto: DIvulgação)

Com cortes únicos e adaptados, a profissional financiou uma pesquisa na qual conversou com deficientes físicos de diferentes casos para entender quais as necessidades especiais eles tinham no momento de vestir uma roupa. “Preciso pensar em como o meu braço se movimenta para usar uma cadeira ou como se veste uma pessoa que tem paralisia cerebral. Eles sentem dor, as crianças choram quando são vestidas, porque as articulações são mais endurecidas. Quando vi isso, as lágrimas eram automáticas, mas percebi que não deveria fazer isso. Hoje em dia, me controlo”, confessou.

A partir deste estudo, Silvana percebeu que é totalmente desnecessária a existência de bolsos na parte traseira do corpo, por exemplo. “Os detalhes são tão pequenos, mas fazem toda a diferença”, garantiu. Além disso, ela investiu em tecidos que não amarrotam devido à dificuldade que é passar uma roupa. Em suas roupas, passou a trocar botões por ímãs, colocar zíperes grandes na região do ombro e outras idéias que tornassem o momento de vestir mais fácil. E as adaptações não param por ai. “Quero fazer calça jeans, lingerie, sapatos e acessórios para estas pessoas. Pois a calcinha, por exemplo , ainda é impeditiva. Algumas cadeirantes usam catéteres na uretra e é muito difícil, porque a roupa não ajuda. Cada dificuldade é um universo diferente. A necessidade de alguém com nanismo é diferente de um paraplégico”, explicou.

A ideia é criar uma marca que facilite a locomoção de quem possui alguma deficiência (Foto: DIvulgação)

O processo para Silvana achar a sua vocação como estilista de moda inclusiva resultaria em um livro de trezentas páginas. A profissional trabalhou no mundo da moda por cerca de 25 anos e um dia decidiu mudar todo o caminho que tinha trilhado. A verdade é que ela achou que já tinha doado o máximo de si nesta área e, por isso, decidiu largar a carreira para fazer trabalhos voluntários pela África e Índia. Foi um trabalho de limpeza pessoal e doação que queria fazer há muito tempo. “Sempre gostei muito de pessoas e de ajudar. Mesmo trabalhando no mundo da moda, sempre fiz questão de ser amiga das meninas”, contou. Quando retornou, se envolveu com projetos que trabalhavam com atletas com deficiência que um dia podiam entrar para as Paraolimpíadas. “Queria tudo menos moda, mas a vida é muito engraçada e encontrei muitas dificuldades nas conversas que tive com eles, entre elas, sobre o vestuário. Nunca pensei que fosse trabalhar com esta parte de fábrica e tecido, porque quando eu fazia parte deste mundo mexia com eventos, então, já via as roupas prontas. Era um universo perfeito e lúdico da moda. Mesmo assim, me voluntariei para fazer o uniforme dos times”, relembrou Silvana. Para fazer estas peças, ela precisou pesquisar sobre o tema e, desde então, não parou mais.

As peças também podem ser usadas por quem não possui nenhuma deficiência. A ideia é que possa ser usada por todos, sem excluir ninguém (Foto: DIvulgação)

Na época que Silvana começou a apostar nesta área, ela descobriu uma infinidade de propostas no exterior, mas uma produção muito escassa no Brasil. Existia um movimento de inclusão em São Paulo que ainda era muito superficial e as pessoas não conseguiam ter acesso às roupas. Durante três anos, a estilista se dedicou a pesquisar e viajar para ter novas ideias. Quando o projeto começou a tomar forma, começou a busca aliados para iniciar a produção. “Muitas pessoas da moda não me apoiaram na época, falavam até que a roupa era deprimente. Pensei em desistir, porque ninguém queria me ajudar e fazer a modelagem para mim. Fazer estas peças é muito difícil por não ser um corte comum, é totalmente curvado. Todos me achavam doidos e me perguntava por que estava mexendo com isto. Fiquei seis meses trabalhando paralelamente a isto, para juntar dinheiro. No entanto, consegui uma modelista em Ipanema que nem se importou com o dinheiro e topou fazer logo de cara por achar o projeto maravilhoso. Ficamos três dias juntas trabalhando isto. Era tudo o que eu precisava”, lamentou. O passo seguinte foi produzir estas peças, o que também foi outro desafio. Neste tipo de produção não existe um modelo a ser seguido, cada peça é especial e diferente. Silvana conta que foi importante se apoiar em profissionais que também se apaixonaram pelo projeto, porque o toque destas pessoas sobre as roupas já era diferente. Existia um carinho. “As costureiras pegavam a minha peça com tanto amor, por ter algum histórico ou conhecimento sobre este assunto. Elas conheciam a luta”, lembrou.

A roupa pode significar uma dificuldade para quem possui problemas de locomoção, sendo assim a Equal Moda Inclusiva produz peças que facilite a pessoa colocar e tirar a roupa (Foto: DIvulgação)

Apesar de estar lado a lado com vários deficientes físicos ao longo desta jornada, a estilista contou que não houve uma motivação de casa para começar a apostar nesta peças. “Nunca tive nenhuma experiência ou contato com deficientes na minha vida pessoal que tenham me motivado a começar este trabalho. Até hoje, busco o contato com familiares ou os próprios deficientes para entender melhor o contexto. Tento estar presente em todos os congressos”, explicou. O fato de não ser tão próxima deste universo pessoalmente acabou sendo um empecilho o que a fez batalhar ainda mais para se jogar neste trabalho. “Para mim, foi muito difícil pensar no diferente, principalmente, em questão de moda. Durante toda a minha carreira, lidei com modelos de agência, ou seja, estavam no padrão perfeito exigido. Precisei desconstruir totalmente isto. Estamos em um momento que precisamos repensar os nossos conceitos. O que seria o belo, afinal? A moda existe para servir as pessoas, porque pensamos o que vamos vestir todos os dias. Os estilistas têm que pensar para quem estão produzindo, caso o contrário a peça vai ficar no cabide”, afirmou.

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No momento de idealizar os modelos, ela buscou fazer as mesmas roupas, não adaptadas para pessoas sem deficiência e adaptadas para pessoas com deficiência. Dessa maneira, atender todas as pessoas simultaneamente, com e sem deficiência. Este é uma iniciativa que ela espera que todos possam se espelhar. “As lojas podem pegar parte de suas roupas e colocar alguns detalhes. Não precisa atender a todas as necessidades, porque nem mesmo eu consigo”, lembrou. A estilista não possui modelos feitos para pessoas com nanismo, por exemplo.

Além de deixar a moda mais acessível também monetariamente, Silvana Louro pretende apostar em eventos que convide este público para participar também. “Estou tentando aglutinar pessoas que trabalham com moda inclusiva também para fazer ações que tenham este contexto de inclusão. A ideia é ter pessoas com e sem deficiência juntos. Não adianta eu oferecer apenas a roupa, porque as pessoas com deficiência querem conversar, sair de casa… Sendo assim, essas ações desenvolvem a autoestima da pessoa”, lembrou. A ideia é expandir o debate para o shopping, feiras e eventos. Melhor a estilista produziu os Desfiles Inclusivos da Feira Cidade PcD, que contou com a presença de marcas como Reserva e Livanz, que estão apostando em coleções de moda inclusiva. A ideia é que momentos como este se repitam logo.

Silvana relembrou a importância de produzir uma moda acessível que não seja cara (Foto: DIvulgação)

Silvana trabalha tanto com a sua loja pessoal como fazendo modelos para instituições e outras empresas. A estilista faz uniformes para escolas inclusivas e fará a coleção de inverno da Reserva que virá com roupas adaptadas. “Este universo de roupas para portadores de necessidade me deu outro significado do que é a moda”, garantiu.

Apesar deste universo ser um nicho no Brasil, ela contou que não possui um renda tão grande quanto pode-se esperar com estas peças. Silvana afirmou que não pensa nos efeitos da crise ao produzir uma nova linha. “Faço as coisas como se estivesse tudo bem, prefiro viver em um mundo cor de rosa. O meu quantitativo não é muito grande, mas vou buscando as pessoas. Não vi crise nenhuma, sei que o problema existe, mas não me preocupo com isso”, contou.

 

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