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“A vida da minha filha custa ao município meio salário por mês”, diz mãe de aluna morta no massacre de Realengo

Adriana Silveira lidera ato neste domingo, Dia Nacional de Combate ao Bullying, na Escola Municipal Tasso da Silveira, onde 12 estudantes foram assassinados em 2011 por um ex-aluno

Publicado em 06/04/2019 | Por Heloisa Tolipan

Adriana Silveira, mãe de Luiza Paula, morta na tragédia de Realengo, critica a atuação dos governantes no combate ao bullying

Há oito anos, desde que perdeu a filha Luiza Paula da Silveira Machado no massacre da Escola Municipal Tasso da Silveira, em Realengo, Adriana Silveira luta cotidianamente para converter a dor em força propulsora de construção de uma causa sociopedagógica pelo Brasil. Dedica a vida, hoje, a auxiliar famílias, estudantes e pesquisadores acerca do bullying, os atos de intimidação sistemática já considerados por estudiosos como problema de saúde pública. Recentemente, a tragédia de Suzano a levou novamente ao reencontro do drama que ela e outras 11 famílias viveram em 7 de abril 2011, quando o ex-aluno Wellington Menezes de Oliveira, de 23 anos, invadiu a escola no popular bairro da Zona Oeste da cidade, armado com dois revólveres, matando doze estudantes, com idade entre 13 e 16 anos, e deixando mais de outros treze feridos.

O bullying é um problema mundial. No Brasil, a tragédia de Realengo originou a institucionalização do Dia Nacional de Combate ao Bullying, em 7 de abril. Neste domingo, alunos da Tasso da Silveira e de outras escolas da região farão um ato na porta da escola a fim de chamar a atenção da sociedade civil e das instâncias de governo para o drama que crianças e adolescentes sofrem dentro e fora das salas de aula. Segundo pesquisa realizada há três anos em meios acadêmicos de Belém, Belo Horizonte, Fortaleza, Maceió, Salvador, São Luís e Vitória, 69,7% dos estudantes disseram que algum tipo de violência ocorrera no colégio nos últimos 12 meses. Os dados são do Diagnóstico Participativo das Violências nas Escolas, da Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais.

“Precisamos despertar a atenção das autoridades para que medidas eficazes de combate à violência nas escolas sejam implantadas. O Estado não atua de forma preventiva. A grande verdade é que estamos à deriva”, denuncia Adriana, presidente da Associação de Familiares e Amigos dos Anjos de Realengo (AFAAR), fundada com outros pais após o massacre. Nesta entrevista ao site HT, ela conta detalhes do terror que ainda a acompanha, fala do descaso estatal com o problema e do Abril Verde, movimento que criou para fazer deste mês um período de reflexão e assistência aos jovens que sofrem bullying.

HT – Após oito anos, como consegue lidar com a dor da perda de uma filha que se encontrava em um ambiente escolar, portanto teoricamente seguro?
Adriana – Eu não consigo pensar mais na dor. É como se eu vivesse um processo de anestesiamento contínuo. Eu busco agora concentrar as minhas energias na causa que abracei. Quero falar sistematicamente do problema, quero debater com os jovens e fazê-los refletir sobre a questão, quero discutir com as instâncias governamentais a criação de medidas eficazes contra a violência no ambiente escolar. Mas a grande verdade é que estamos à deriva. O Estado não quer falar disso. É mais fácil não avalizar a causa do que dar a ela a visibilidade necessária, pois que, desta forma, se assume compromisso público junto à sociedade civil. O Estado não quer ninguém na porta dele cobrando absolutamente nada. Então busca nos calar. Mas não nos silenciarão.

HT – O que recebem de apoio hoje?
Adriana – Meio salário mínimo. Só. Esse é o valor da vida da minha filha. Logo após o massacre, cada família foi indenizada em 235 mil reais. A mensuração pelo Estado de quanto vale uma vida é aviltante. Vida não se quantifica financeiramente. E o drama psicológico que se eterniza a partir de um episódio desses é incomensurável. As pessoas não têm ideia dos bastidores da tragédia. É um horror. Sofremos duplamente: com a perda de um filho e com a pressão e a hostilidade que nos são dispensadas pelos governos. Estou em contato com pais e professores da Escola Estadual Raul Brasil, de Suzano, onde recentemente testemunhamos o mesmo horror. Eles estão sofrendo a mesmos dramas que nós.

HT – O que de concreto a Associação de Familiares e Amigos dos Anjos de Realengo busca?
Adriana – Primeiramente, nós lutamos há oito anos pela oficialização do Abril Verde, movimento cujo objetivo é sensibilizar as direções de escolas públicas e privadas para a promoção de atividades de conscientização sobre o bullying e outras práticas violentas em ambiente educacional. A medida pretende reforçar a importância do cumprimento das Leis 13.185/2015 e 13.663/2018, que incluem entre as atribuições das escolas o fomento da cultura da paz e atividades de prevenção e combate a diversos tipos de violência, como o bullying. Igualmente ao Outubro Rosa e ao Novembro Azul, o Abril Verde busca dar visibilidade no Rio (e em todos os outros estados do país) sobre a gravidade dos atos de intimidação sistemática.

HT – O que considera importante de ser posto em prática?
Adriana – Precisamos despertar a atenção das autoridades para que medidas eficazes de combate à violência nas escolas sejam implantadas. O Estado não atua de forma preventiva. É importante capacitar docentes e equipes pedagógicas para a implementação das ações de discussão, prevenção, orientação e solução do problema, conforme preconiza a Lei de Combate ao Bullying. Também é fundamental prestar assistência psicológica, social e jurídica às vítimas e aos agressores. Nada disso se dá. A responsabilidade deixa de ser do Estado e passa a ser nossa. Como fazer tratamento psicológico sendo pobre? Todos sabemos que não é algo barato.

HT – O Wellington, o estudante que cometeu o massacre, sofreu bullying e justificou em carta o ato como sendo uma consequência do que sofrera. A sua luta tem sido justamente agora em prol de combate às ações de intimidação sistemática em ambiente escolar. Ou seja, você reconhece que o assassino de certa forma foi uma vítima. Assim sendo, é possível perdoar?
Adriana – Eu queria ter uma resposta concreta para essa pergunta. Não tenho. Quando se perde um filho assassinado os nossos sentimentos oscilam entre a dor, a raiva e a misericórdia. É uma questão complexa para ser descrita com meia dúzia de palavras ou frases de efeito. Sei que boa parte da sociedade civil esperaria que eu dissesse “eu perdoo”.

HT – Mas você o perdoou?
Adriana – Há uma cobrança coletiva para que sejamos pautados sempre pela alteridade, pela empatia. Isso é compreensível, porque no mundo ficcional, das novelas e dos filmes, os heróis também se caracterizam pela capacidade de perdoar após sofrerem toda a ordem de desgraças. Só que a vida real é diferente da ficção. Eu me sinto uma heroína por buscar transformar a minha dor em causa social. Na verdade, quando luto contra o bullying acabo por reconhecer o estrago que esses atos provocaram no assassino da minha filha e das outras 11 crianças. O meu perdão está evidenciado na causa que abracei. Mas ainda não consigo dizer diretamente “eu o perdoo”. O tempo vem me conduzindo ao exercício do perdão. Só não posso dizer o que ainda não está internalizado em mim. Não vi o sangue da minha filha, portanto o meu sangue, ser derramado com uma perfuração por alfinete. Foram dois revólveres calibre 38.

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